Economia

‘Grandes desafios do Brasil estão sempre ligados ao fiscal’, diz Campos Neto

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, repetiu que os grandes desafios do Brasil estão sempre ligados ao fiscal e voltou a reforçar a necessidade de políticas que transmitam credibilidade sobre as contas públicas brasileiras.

“Conseguimos quebrar a dinâmica dos juros altos no Brasil quando conseguimos mostrar ao mercado que estávamos no caminho de uma convergência fiscal. Então, eu acho que é muito sobre o fiscal”, afirmou, em participação no Encontro de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) com o Banco Mundial, gravada no dia 1º de abril.

Mais uma vez, ele argumentou que o aumento da inflação recente no Brasil se deve ao crescimento dos preços internacionais das commodities, enquanto o real tem se desvalorizado em relação ao dólar.

“Na verdade, o preço local das commodities cresceu muito. No caso dos itens de alimentação, como soja e milho, com o aumento da demanda asiática, sobretudo na China e na Índia. No caso dos metais, há programas de recuperação em diversos países. E em relação ao petróleo, há o efeito da expectativa de um maior crescimento global”, repetiu.

Campos Neto também voltou a ligar o auxílio emergencial – encerado em dezembro do ano passado e retomado a partir desta terça-feira, 6 – à alta de preços de bens de consumo. “Transferimos quantia alta de dinheiro que se tornou consumo. Os produtos na cesta das pessoas que receberam o auxílio tiveram uma alta maior de preços”, afirmou.

Roberto Campos Neto voltou a classificar os choques inflacionários no Brasil como temporários, mas reafirmou que a autoridade monetária já enxerga a contaminação de outros núcleos inflacionários e, por isso, iniciou o atual ciclo de alta nos juros.

“Entre uma reunião e outra do Copom, a projeção para a inflação de 2021 saltou de 3,4% para 5,0%. A maior parte dessa diferença foi causada pelo efeito das commodities. Começamos a ver alguma contaminação em outros núcleos e começamos o que chamamos de processo de normalização parcial, o que é sempre difícil de explicar enquanto o País ainda sofre os efeitos da pandemia”, afirmou mo evento do Fundo Monetário Internacional com o Banco Mundial.

Campos Neto voltou a alegar que quando o Copom baixou a Selic para 2,0% ao ano – em agosto do ano passado – o BC esperava um cenário que não chegou a se realizar, de uma retração maior da economia e uma inflação abaixo do piso da meta para 2020. “Isso nunca se realizou”, completou.

O presidente do BC repetiu a avaliação de que o Brasil continua demandando uma política monetária estimulativa, e por isso o Copom tem chamado o novo ciclo de “normalização parcial”. Mais uma vez, ele apontou que o emprego formal está se recuperando muito rápido, mas ressaltou ainda enxergar problemas na força de trabalho informal.

‘Reflation trade’

Roberto Campos Neto, repetiu a avaliação de que o mercado global passa por uma “reflação”, caracterizado por um movimento de alta de preços aliado a uma recuperação da economia. Segundo ele, essa questão está por trás do aumento dos preços internacionais das commodities que têm impactado a inflação no Brasil.

“Se você voltar a novembro do ano passado, nós do BC entendemos que tínhamos os ingredientes para um ‘reflation trade’. Em reuniões internacionais, havia um sentimento de que a inflação continuaria baixa por mais tempo, com juros baixos. Todo mundo pensou que não veríamos a inflação por um tempo e o mercado foi preparado para isso. E então isso começou a mudar no fim do ano”, afirmou no Encontro de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) com o Banco Mundial.

Segundo Campos Neto, enquanto a maioria dos países ainda disponibilizava de maneira coordenada enormes pacotes fiscais e monetários, começava-se a ver uma luz sobre a vacinação nesses lugares. “Os estímulos ainda são grandes, e ao mesmo tempo as pessoas começam a ver um melhor ambiente para a economia. Isso causou o começo da reflação”, completou.

O presidente do BC destacou o aumento dos preços das commodities produzidas pelos países emergentes, enquanto as moedas desses países não têm performado bem. Para ele, parte das mudanças de preços de commodities são mais estruturais do que alguns economistas pensam.

“Isso significa que os preços locais dessas commodities sobem ainda mais, o que significa que a inflação de alimentos também sobe – e vimos uma aceleração nos últimos dois meses. Isso causa uma diferenciação, já que nos países emergenciais o peso dos alimentos na inflação é bem maior do que nos países desenvolvidos”, argumentou.

Campos Neto lembrou ainda que a maioria dos países emergentes precisou lançar grandes pacotes fiscais para enfrentar a pandemia de covid-19, o que elevou a dívida dessas economias. “Então estamos neste ambiente, no qual de repente os mercados passaram a precificar que você precisa elevar os juros, mas você tem uma dívida muito maior. Então os países com maior endividamento tiveram uma desvalorização maior de suas moedas, uma elevação maior dos prêmios de risco no fim da curva. E essa diferenciação ficou ainda maior”, concluiu.

China e mercados emergentes

O presidente do Banco Central avaliou que China vem absorvendo uma grande parte dos fluxos de capital que antes iam para mercados emergentes. “Esse é um fenômeno que não tínhamos antes. Há questionamentos sobe como a cadeia global de valor se situará no futuro e isso afeta a forma como as pessoas olham os países emergentes”, afirmou.

Campos Neto lembrou ainda que a normalização monetária nos países desenvolvidos também deve causar algum estresse adicional aos emergentes em algum momento. “Vemos uma grande diferenciação (entre emergentes e desenvolvidos) que reflete isso”, completou.

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