Governar e tuitar na era Bolsonaro

Governar e tuitar na era Bolsonaro

Ao menos dois empresários do time dos gigantes – e não necessariamente opositores do Governo, ao contrário – pediram abertamente ao presidente, em declarações públicas, que ele deixasse o Twitter de lado e passasse, de uma vez por todas, a governar o País e a enfrentar os inúmeros desafios decorrentes. Flavio Rocha, que controla a cadeia varejista Riachuelo e foi candidato à presidência nas últimas eleições, além de Jerome Cadier, CEO da Latam, não mediram palavras nesse sentido. Cadier lembrou que mudanças estruturais dependem de foco nos temas relevantes, como a Previdência, e não em tuites e mídia social.

Rocha, por sua vez, disse que ajudaria bastante a governabilidade se Bolsonaro deixasse de lado por mais tempo as redes digitais. O recado claro dos dois está nos corações e mentes de boa parte do setor produtivo. E por uma razão elementar que vai muito além das idiossincrasias de um mandatário tuiteiro: a economia segue parada. Teve um crescimento pífio, de pouco mais de 0,3% no primeiro mês de governo novo e parece não dar qualquer sinal de reação. Os números de crescimento anual do PIB já tiveram quatro revisões para baixo. Analistas acreditam que possivelmente se repete o desempenho medíocre do ano passado, que mal passou de 1%.

Eis aí o tamanho do estrago pelo descaso bolsonarista com as questões mais prementes do dia a dia. A Fundação Getúlio Vargas acaba de divulgar um estudo no qual mostra que o Brasil caminha rapidamente para cravar, se nada for feito, uma década com o crescimento mais fraco em 120 anos. Ou seja: só se viu algo parecido ainda nos primórdios da República. Entre 2011 e 2020 – portanto já na metade da gestão do mito – a economia brasileira deverá avançar em média 0,9% ao ano, pelas contas da FGV. A taxa é ainda menor que o 1,6% verificado durante a chamada “década perdida” dos idos de 80, quando o País chegou a quebrar.

É tão dramático o quadro que, sem reversão de política econômica, ajuste das contas públicas e – fundamentalmente – revisão dos privilégios nas aposentadorias, a paralisia Federal será inevitável em pouco tempo. Para contornar esse desfecho, passados quase 100 dias da administração de Bolsonaro, se assinala um único e escasso bom resultado com o leilão de aeroportos, cujo alto ágio atingido sinalizou o potencial de arrecadação das privatizações. É um caminho. Mas faltam diversos outros. Não há como a economia aguentar por muito tempo tantos desaforos da política. No lugar dos bate-bocas, seria recomendável maior atenção a retomada da produção e do emprego que andam deixados de lado pelo Executivo.

(Nota publicada na Edição 1114 da Revista Dinheiro)

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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