Negócios

Gosto amargo

O mercado de doces caiu e os produtos passaram a ser vistos como vilões da saúde. Para manter a rentabilidade, a saída encontrada pela companhia americana Mondelez, dona das marcas Oreo, Lacta e Club Social, é fechar fábricas no mundo inteiro. E o Brasil não ficou de fora

Gosto amargo

A vida não está doce para quem atua no mercado de chocolates, balas, bolachas e chicletes no Brasil. Prova disso foi o anúncio da empresa americana Mondelez de que fechará duas de suas quatro fábricas no Brasil: as unidades de Piracicaba e Bauru, ambas em São Paulo. A companhia, dona das marcas Lacta, Oreo, Bis, Trident, Tang e Club Social, diz estar reavaliando globalmente todo o seu negócio para manter a rentabilidade. E o fechamento das duas unidades brasileiras faz parte desse contexto global. A empresa está fazendo uma dieta forçada que reduzirá seu número de fábricas de 170 para 130 unidades. “Para garantir um crescimento sustentável e construir uma cadeia de suprimentos de classe mundial, a empresa revisou seu processo de fabricação e decidiu intensificar e otimizar seu modelo de produção com foco em fábricas multicategorias”, informou por meio de comunicado. Com isso, estima-se um corte de custos da ordem de US$ 4 bilhões.

O Brasil é o quarto maior mercado da Mondelez, com um faturamento anual de R$ 5,5 bilhões. Mesmo assim, o cenário sofrível do segmento de doces nos últimos anos justifica a decisão. Segundo dados da empresa de pesquisas Euromonitor, o mercado vendeu 532,7 milhões de toneladas, no ano passado, no País. Trata-se de uma queda de 15,6%, em relação a 2012. A tendência é de piora até 2022 (veja quadros ao final da reportagem). E isso acontece por dois motivos: a economia brasileira ainda está num processo de retomada e o comportamento de consumo mais saudável tem freado o crescimento do setor. Os doces tornaram-se os vilões dos novos tempos, responsáveis pela obesidade, que cresceu 60% em dez anos, no Brasil, para 18,9% da população, segundo o Ministério da Saúde. O excesso de peso já atinge 53,8% dos brasileiros.

Mesmo assim, a Mondelez detém 80% das vendas no nicho de balas e guloseimas. Em chocolates, ela abocanha pouco mais de 35%. “A empresa não pode deixar o impacto se tornar muito grande. Ela precisa antecipar as ações para continuar aumentando a receita com vendas em volumes menores, focando a produção em artigos de maior valor agregado”, diz Marco Quintarelli, analista da Azo Negócios, consultoria especializada em varejo. “É preciso reduzir de tamanho para aumentar a produtividade.” A estratégia da Mondelez é justamente focar em produtos de maior valor agregado. Isso tem funcionado. O resultado da companhia no ano passado apontou crescimento de 5,1% nas vendas na América Latina, para US$ 3,57 bilhões. “Dois caminhos que estamos seguindo são: dar opções mais saudáveis aos clientes e ter alternativas de tamanhos diferentes dos produtos”, diz Maria Mujica, líder de marketing da Mondelez para a América Latina.

As fábricas paulistas fecham as portas até o fim do ano. Cerca de 1,4 mil pessoas serão demitidas, mas a Mondelez informou que ainda não sabe se haverá contratações nas unidades que receberão mais produtos. Os biscoitos, que estavam em Piracicaba, serão concentrados na linha de Vitória de Santo Antão (PE), inaugurada em 2011 e voltada para chocolates. As gomas e balas produzidas em Bauru serão feitas na unidade de Curitiba, já responsável por chocolates, bebidas em pó, sobremesas e cream cheese. A capital paranaense, aliás, faz parte de uma rede global de nove hubs de pesquisa e desenvolvimento, voltada à criação de sabores de chocolates. A Mondelez investe em inovação para ter maior margem de lucro e garantir que o seu futuro volte a ser doce.

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