Economia

“Gostaria que essas taxas caíssem ainda mais rápido”

Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, falou com a DINHEIRO sobre a queda dos juros e as mudanças no sistema financeiro. Acompanhe:

Crédito: Caio Guatelli

"Temos atacado os componentes do spread, independentemente de ser um banco público ou privado, grande ou médio ou uma instituição de pagamentos" (Crédito: Caio Guatelli)

A Selic está no menor nível da história e essa situação parece ser mais sustentável que as anteriores. Por que está mais demorado e mais difícil que os juros ao consumidor e às empresas caiam?
Com relação à inflação, as últimas cinco flexibilizações monetárias mostram as quedas de juros em 2003, em 2008, em 2012, em 2014. A quinta é essa. Mostramos que a queda das taxas bancárias ocorre sempre no mesmo ritmo. Há uma defasagem e esta queda tem ocorrido mais ou menos na média das últimas reduções de juros. As taxas bancárias e os spreads estão caindo na média. Agora, gostaria que essas taxas caíssem ainda mais rápido. Para isso, precisamos tomar as medidas estruturais que temos tomado, atacando quase todos os componentes que fazem o chamado spread bancário. O Brasil tem muito custo e muitas distorções e isso acaba pesando. A Selic é apenas um dos componentes da taxa bancária. O resto, falta de garantias, custos administrativos, custos trabalhistas, compulsório altos, inadimplência que é mais alta, falta de informação, carga tributária alta. Tudo isso vamos ter de lidar ao longo do tempo. Nossa agenda BC+ lida com tudo isso.

Esta queda mais recente das taxas é mais sustentável?
Se é sustentável ou não, só vamos saber ao longo do tempo. Essa queda dos juros está muito bem calcada na queda da inflação. Por isso, acredito que, se nós conseguirmos manter essa inflação baixa e o juro baixo, o resto, ao longo do tempo, vai acabar vindo. E, com as medidas que estamos tomando, essa queda é capaz até de vir mais cedo do que se imagina.

O senhor tem um prazo para isso?
Não, porque isso depende de muitas variáveis que não estão sob o nosso controle, nem sob o controle de ninguém individualmente. Por exemplo, a incerteza. Quanto mais incerteza você tiver, seja incerteza doméstica, seja incerteza internacional, mais demora para o juro cair, porque as pessoas ficam mais receosas sobre o futuro. Quando há uma dúvida sobre se o processo de ajuste e de reformas vai continuar, isso também atrasa. As pessoas se perguntam: ‘será que a inflação vai ficar baixa? Será que os juros vão ficar baixos? Será que as reformas vão ser feitas?’ Nós temos de trabalhar para manter o que aconteceu até agora. Inflação baixa e juros baixos são conquistas muito relevantes. Não está tudo sob o controle do Banco Central, mas, se conseguirmos manter isso acho que, ao longo do tempo cai. É difícil especificar um dia, nosso trabalho é chegar lá.

O senhor tem conversado com consumidores, tem essa visão da sociedade de que os juros são considerados altos?
Sim. Tenho conversas com os representantes dos consumidores em vários momentos. Quando tratamos da agenda do cadastro positivo, conversamos bastante com os consumidores. Quando os acordos sobre a compensação dos planos econômicos foram negociados entre os bancos e os consumidores, e obviamente, o BC estava acompanhando. Agora, vocês da Istoé DINHEIRO, o resto da mídia, estão noticiando bastante essa questão das taxas bancárias. Mesmo sem contato direto, eu tenho um feedback de vocês. Estive na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Temos contato direto com os representantes dos setores, estamos inseridos no que a mídia escreve, vamos para o Congresso. Nossa mensagem é clara. Mas, indo além da pergunta, nós, aqui no BC, temos de ter uma visão estrutural, serena, sobre o assunto, para podermos ter movimentos sustentáveis. A voz das ruas às vezes leva a sugestões voluntariosas, do tipo ‘vamos forçar a queda dos juros, vamos usar bancos públicos’. O que eu digo é: vamos tentar cometer erros novos e não repetir os erros antigos. Nós já tentamos forçar a queda de juros e usar bancos públicos e não deu certo. Como disse na CAE, essas expectativas de ações voluntariosas estão dificultando a queda dos juros agora. Essas expectativas levam ao seguinte raciocínio: já que a queda voluntariosa das taxas deu errado da última vez, vamos esperar para ver se agora dá certo. Isso torna o nosso trabalho mais difícil. Então, nosso papel é observar o que está acontecendo e trabalhar de forma sustentável.

O que o senhor pensa da atuação dos bancos públicos? Eles deveriam ter um papel mais proativo na queda dos juros?
Acho que, aquilo que exigirmos dos bancos públicos, devemos exigir também dos bancos privados. A nossa diretriz aqui é tratar os bancos públicos como tratamos os bancos privados. Temos trabalhado com todos eles, temos tomado atitudes, temos atacado os componentes do spread, independentemente de ser um banco público ou privado, grande ou médio ou instituição de pagamentos.

Como está a sua relação com os bancos? Como tem sido sua interlocução com os bancos para realizar essas mudanças?
Somos o regulador do sistema e também estamos a cargo de sua supervisão. Temos os objetivos da estabilidade financeira e da meta de inflação. Além deles, temos a agenda BC+. Já colocamos em prática mudanças no cartão de crédito, que não deixam o cliente no crédito rotativo por mais de 30 dias. Isso cortou à metade a taxa do rotativo. Agora, estamos começando um processo semelhante para o cheque especial. Implantamos a diferenciação de preços de acordo com a forma de pagamento, que permite ao comerciante cobrar preços diferentes se o cliente paga com dinheiro, crédito ou débito. Temos estudos de que isso está começando a pegar. O comércio está, cada vez mais, oferecendo essa diferenciação para os clientes. Temos trabalhado a portabilidade da conta salário, que torna mais fácil para o assalariado transferir sua conta de um banco para outro. Tudo isso o BC faz por meio de normas, mas também temos de falar com os bancos, estabelecer prazos para eles mudarem os sistemas. Esse contato faz parte do nosso dia a dia.

O senhor acha que o sistema é concentrado? Essa concentração é um problema que dificulta a queda dos juros?
Não quero ficar discutindo essa questão da concentração. A situação de o mercado ser dominado por quatro ou cinco bancos grandes existe no mundo todo, exceto nos Estados Unidos. Essa situação de poucos bancos dominarem o sistema existe na França, na Alemanha, na Inglaterra, em quase todos os países. Essa não é a questão. O que tenho dito é que, em vez de discutirmos se há ou não concentração, temos de discutir se há ou não competição no sistema. Mais competição ajuda? Se sim, então, vamos em frente, estimular competição, para podermos reduzir as taxas bancárias de forma mais acelerada.

O senhor, então, é favorável a estimular a competição?
Não só sou favorável como tenho tomado medidas para isso. Em minha apresentação na CAE, há uma lista enorme de medidas para incentivar a competição. Além das que eu citei antes, temos, por exemplo, o cadastro positivo. Você pega as informações que estão armazenadas nos grandes bancos e as oferece para todo mundo. Isso democratiza a informação e tende a aumentar a competição. Também segmentamos o sistema financeiro para reduzir os custos. Agora, os bancos maiores estão sujeitos a uma regulamentação mais pesada e complexa. Os bancos menores e as cooperativas estão sujeitos a uma regulação muito mais simples. Outra medida importante foi facilitar o acesso das fintechs aos clientes. Deixamos isso muito claro: se o cliente quiser usar os serviços de uma fintech, o banco não pode dificultar isso. Essas decisões foram tomadas duas semanas atrás e estão em resoluções do Conselho Monetário Nacional (CMN), que é a instância máxima do sistema.

A entrada de bancos estrangeiros pode aumentar a competição?
Essa não é a nossa questão para o sistema financeiro. Bancos estrangeiros têm entrado e continuam entrando. Tivemos todos os bancos aqui. Eles saíram com a crise de 2008 e 2009. Alguns ficaram com mais custo devido às novas normas de Basiléia. Mas, se pegarmos todos os bancos americanos e europeus, agora temos chineses entrando. Isso acontece sem problemas. Inclusive, agora tem banco entrando.

O senhor tem falado bastante de fintechs. Elas são importantes para facilitar a competição? Por quê?
Sim e não é por causa do tamanho delas, mas sim pelo fator inovação, de mudança de cultura, de criar novos mecanismos que gera disrupção. Nesse sentido, só regulamos quando o sistema nos pede. Neste mês de abril, vamos regular as fintechs de crédito, a pedido do sistema.

O que o BC vai definir?
Vai definir quem está autorizado ou não, o que pode e o que não pode fazer. A medida ainda não está pronta, por isso eu não posso entrar em muitos detalhes. Mas a regulamentação sempre será para incentivar as fintechs.

O senhor trabalhou no sistema financeiro. Como presidente do BC, o senhor surpreendeu muita gente ao tomar atitudes que vêm tirando os bancos da zona de conforto. Qual o seu legado no BC? O senhor gostaria de ser lembrado como o presidente que enfrentou os bancos?
Gostaria de ser lembrado como alguém que trabalhou muito, no dia a dia, não só no combate à inflação, e, portanto, para ver se a gente consegue que a inflação baixa fique assim, não só mais um ano. Mas isso não depende só do BC. Se as reformas e os ajustes não continuarem, é impossível que essas projeções de inflação baixa se mantenham. Mas gostaria que esse trabalho continuasse. Também gostaria que nossa agenda BC+ fosse um começo de uma agenda de redução de spread e de mais competição. Mas não tenho a ilusão de achar que eu vou fazer toda essa diferença. O que vai fazer a diferença é a continuidade. Quando eu cheguei ao BC, muita coisa estava feita. São projetos que apenas peguei e disse ‘chega de deixar isso na gaveta, vamos colocar em prática’.

E o que levou o senhor a desengavetar tantos projetos?
A janela de oportunidade. O atual governo veio com uma proposta de reformas. Podemos até ficar decepcionados que a reforma da previdência não saiu, mas outras reformas saíram. E foi essa janela de oportunidade que aproveitamos.