Tecnologia

Google e a busca do passado

Projeto da divisão Arts & Culture da empresa usa recursos de ponta, mapeia caverna com imagens de 36.000 anos e permite tour virtual a um patrimônio fechado à visitação.

Crédito: Divulgação

Museu ancestral: Caverna Chauvet, na França, é considerada a Capela Sistina da Pré-História, com imagens de variadas técnicas. (Crédito: Divulgação)


Grotte Chauvet-Pont d’Arc, sítio arqueológico mais conhecido por Caverna Chauvet, bem que poderia se chamar Máquina do Tempo. Localizada em um platô calcário no sul da França, foi descoberta apenas em 1994 por um golpe de sorte – uma grande rocha cobria sua entrada. Dentro se encontrou o mais espetacular acervo de imagens produzidas pelos ancestrais humanos. Foi como descobrir um museu inteiro. E bem conservado. Já são mais de 1 mil pinturas e inscrições catalogadas. Tudo produzido até 36 mil anos atrás. O problema: ainda não está aberta ao público. A solução: o Google passou a oferecer um passeio virtual por essa ‘Capela Sistina da Pré-História’.

Por meio da tecnologia, o braço da empresa chamado Arts & Culture oferece um tour que reúne 54 exposições com mais de 350 documentos digitalizados (https://artsandculture.google.com/project/chauvet-cave). Também é possível conferir seis modelos em 3D de pinturas rupestres, incluindo um Crânio de Urso deixado nas cavernas por seus últimos habitantes, há 360 séculos. De acordo com a Unesco, que a transformou em Patrimônio Mundial em 2014, “as imagens combinam motivos antropomórficos e animais com excepcional qualidade estética e variedade de técnicas, incluindo o uso hábil de sombreamento, precisão anatômica, tridimensionalidade e movimento”.

O conteúdo da coleção disponibilizada pelo Google está em inglês. Para evitar danos às imagens, desde 2006 tudo foi coletado com digitalização a laser e fotogrametria. Depois foram desenvolvidas interações com o que há de mais avançado em Realidade Aumentada e Realidade Virtual – como a experiência de 10 minutos que guia os visitantes pela caverna narrada por Cécile de France (versão francesa) ou Daisy Ridley (em inglês). O visitante virtual poderá explorar 12 estações complementadas por comentários de especialistas da equipe científica de Chauvet.

Outros projetos já promovem virtualmente visitas pelo interior da caverna (como o do site archeologie.cultura.fr/chauvet/en) e existe até mesmo uma réplica para visitação presencial feita em 3D que fica próxima à original, inaugurada em 2015 após investimento de 55 milhões de euros, além de um documentário de Werner Herzog (Cave of Forgotten Dreams, 2010). Mas a solução do Google tem a pretensão de se tornar universalizada. E busca ser a mais imersiva e completa. Chauvet via Google é um mergulho no fascinante talento humano.

Não deixa de ser também tributo aos três amigos espeleólogos (Jean-Marie Chauvet, Eliette Brunel e Christian Hillaire) que exploravam a região dia 18 de dezembro de 1994 e fizeram o mergulho na história. A eles é creditada a descoberta. Depois de uma semana, o trio mais Daniel André, Michel Chabaud e Jean-Louis Payan adentraram ainda mais as galerias desse ‘museu’ e descobriram as melhores imagens. Mas foi Eliette, pioneira a entrar na caverna, quem primeiro notou umas linhas vermelhas borradas desenhadas na parede. E gritou: “Eles estiveram aqui.” Eles, no caso, somos nós. Agora, a tecnologia aproxima qualquer pessoa dessa viagem pela máquina do tempo da humanidade.

Tecnologia como artista

Uma das mais fascinantes provocações entre tecnologia e arte nasceu na agência J.Walter Thompson Amsterdã para o banco holandês ING, em 2016. Desde então, as soluções ali adotadas passaram a ser usadas no restauro de obras-primas danificadas ou parcialmente perdidas. O projeto The Next Rembrandt venceu dois grand prix em Cannes (Cyber e Creative Data). A ideia: dar vida a um novo Rembrandt, o genial pintor holandês (1606-1669). A Microsoft foi o parceiro tecnológico.

Para o primeiro passo, todas as 346 telas do artista foram mapeadas com reconhecimento facial. A partir daí foram criados três grandes volumes de dados. Um que incluía características como gênero, idade, cor de olhos e cabelo. Outro com informações como largura da boca, distância entre olhos, testa e nariz e tamanho da orelha. Por fim, um conjunto agrupava informações que iam desde a altura média das camadas de tintas até a direção das pinceladas.

REMBRANDT RENASCIDO: Reconhecimento facial, aprendizado de máquina e impressão 3D reinventam a arte. (Crédito:Divulgação)

A tarefa seguinte foi desenvolver um software que, por aprendizado de máquina, ‘agisse’ como Rembrandt. Apenas no rosto de cada retratado pelo artista foram mapeados 67 pontos. O computador foi ‘ensinado’ a criar uma tela a partir dessas tipicidades. A nova obra nasceu numa impressora 3D que reproduziu 13 camadas de tintas, com 148 milhões de pixels baseados em mais de 168 mil fragmentos de dados do portfólio do pintor. O resultado: depois de 18 meses de trabalho e 347 anos da morte do pintor, nasceu uma nova tela de Rembrandt (acima), a 347a, espécie de filha de todas as demais. Exibida a um público incrédulo em Amsterdã, o projeto rodou o mundo virtualmente.