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Gigantismo chinês

Pela primeira vez na história, a China vai ultrapassar os Estados Unidos em termos econômicos. Nos próximos 20 anos, a disputa será pela hegemonia global

Gigantismo chinês

O confucionismo é o sistema moral, político, social e religioso que guia a China e seus cidadãos por mais de dois mil anos. Baseada no sistema filosófico elaborado por Confúcio, ou Kung-Fu-Tzu, durante o século VI a.C., a doutrina – que não é uma religião ou uma filosofia, mas uma mistura de ambos – permeia todos os aspectos da vida chinesa. Trata-se de um conjunto de ensinamentos sobre ética social que priorizam a disciplina, a ordem, a consciência política e o trabalho, além da valorização do estudo enquanto formação intelectual.

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Quando olhamos o desenvolvimento da China ao longo de sua história, vemos claramente esses preceitos colocados em prática. Principalmente nos últimos 40 anos, quando, de forma diligente, deu um salto em termos de desenvolvimento, ultrapassou o Japão e seguiu rumo ao posto de maior economia do mundo, o que deve ocorrer em 2026, segundo projeções de órgãos internacionais. A pergunta que fica agora não é mais se a China será um país dominante, mas como ela exercerá este domínio em contraponto à hegemonia decadente dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump. E a resposta é bastante positiva para países em desenvolvimento, como o Brasil.

Os Estados Unidos foram os protagonistas econômicos no último século, respondendo por 24% do Produto Interno Bruto (PIB) global, em 2016. Mas o seu reinado estaria chegando ao fim com as medidas isolacionistas e protecionistas de Trump? O Tio Sam vê no retrovisor o dragão chinês se aproximando em ritmo acelerado. O Fundo Monetário Internacional calcula que os chineses ultrapassarão os americanos em nove anos (leia quadro ao final da reportagem). O gigante asiático já é o maior se o PIB for ajustado a partir do conceito de Paridade do Poder de Compra, que leva em conta o custo relativo da vida de um país e sua taxa de inflação.

De uma nação pobre e agrária para uma superpotência econômica, lá se vão 41 anos desde que Deng Xiaoping assumiu o comando do Partido Comunista Chinês e passou a implementar uma série de reformas econômicas, o chamado socialismo de mercado, que adotou práticas capitalistas e manteve o Estado no comando da economia e da vida privada dos cidadãos. Aplicado com a ajuda do guia moral do Confucionismo, o modelo teve resultados espetaculares em termos econômicos e sociais. O país vem crescendo, desde os anos 1980, a uma taxa anual média de 10%, segundo o Banco Mundial. Mais de 600 milhões de pessoas saíram da pobreza, com 116 milhões de habitantes situados nas classes média e alta, com renda anual média disponível de US$ 21 mil. Em 2000, este contingente não passava de dois milhões de pessoas. Mas ainda é pouco para uma população de 1,4 bilhão de habitantes.

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O crescimento chinês se viabilizou graças às exportações e aos investimentos em infraestrutura. Até a década de 1970, a China produzia produtos de baixo valor agregado. Com as reformas, os chineses atraíram uma série de indústrias de transformação, que aproveitaram a mão de obra local mais barata. Com isso, o país começou a produzir todos os tipos de produtos – muitos de qualidade duvidosa inicialmente – para exportação. O câmbio artificialmente desvalorizado pelo governo ajudou muito. O movimento ganhou força a partir dos anos 2000, com as vendas internacionais passando de US$ 257 bilhões para US$ 2,4 trilhões, em 2016. “A China utilizou o superávit comercial para financiar investimentos”, diz Marcos Troyjo, professor de relações internacionais da Universidade Columbia, em Nova York. Os investimentos se concentraram em infraestrutura, com o governo aportando recursos para a construção de rodovias e ferrovias. Entre 1992 e 2013, a China gastou um percentual médio de 8,6% do PIB em infraestrutura, segundo cálculos da consultoria McKinsey, mais do que a América do Norte e a Europa Ocidental, juntas.

A continuidade do sucesso da China nos próximos 20 anos, porém, dependerá de uma mudança na matriz de crescimento econômico, visto que o modelo apresenta sinais de esgotamento. Para contornar a questão, o país está se reinventando novamente. O governo está alterando sua fonte de crescimento para o mercado interno e o setor de serviços. Trata-se de uma ótima notícia para países emergentes, que vendem matérias-primas e commodities. A China é, desde 2010, o maior cliente do Brasil no comércio exterior. A mudança está em curso desde 2013, quando o Partido Comunista elegeu Xi Jinping para a presidência do país. O ritmo das reformas, ao contrário do crescimento econômico, caminha a passos lentos, por receio de que possa provocar uma rápida desaceleração do PIB, gerando instabilidade social.

Gastança: a China investiu pesado em infraestrutura, construindo pontes como a de Enshi-Qianjiang. Ela também elevou os gastos militares, mas abaixo do que os EUA investem (à dir.) (Crédito:Song Wen)

O crescimento de dois dígitos já caiu para um patamar entre 6% e 7%. “O que mantém a viabilidade do governo são os resultados da economia”, diz Luis Fernandes, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio (IRI). Mesmo com as dificuldades no caminho, os analistas acreditam que a China conseguirá fazer esta transição, por ter reservas robustas e forte controle sobre a economia. “É natural que ocorra esta mudança quando se passa por um processo de industrialização”, afirma Rodrigo Zeidan, professor da NYU Xangai e da Fundação Dom Cabral (FDC). Ele diz que a indústria não deve deixar de ter protagonismo, mas o tipo de produtos fabricados mudará, com destaque para áreas tecnológicas, como é o caso dos painéis de energia solar, em que a China já é a maior produtora do mundo.

Diante da perspectiva de ser a maior economia do planeta, o governo chinês está aproveitando para colocar de pé uma nova ordem econômica, pautada no comércio internacional. Nos últimos anos, o país tomou uma série de iniciativas para promover a sua globalização. A mais ambiciosa é a nova Rota da Seda, um mega acordo comercial, que engloba 68 países asiáticos, que representam 40% da economia global. Pela proposta, os chineses financiarão projetos de infraestrutura em troca de facilitações comerciais.

“A globalização chinesa não é militar como a americana”, afirma Zeidan. Ainda assim, os chineses estão investindo em defesa, aumentando em 7% os gastos na área, a 1,02 trilhão de iuanes (US$ 154,7 bilhões). Mesmo assim, é menos do que os Estados Unidos gastam (US$ 200 bilhões). Esta nova China foi referendada na quarta-feira 18, quando teve início o 19º Congresso do Partido Comunista. A principal reunião política do país, que ocorre a cada cinco anos, definirá os rumos da China, um gigante que vai rivalizar com os Estados Unidos nos próximos 20 anos.


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