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Ghosn foi solto, mas não está livre

O executivo não pode deixar o Japão e nem se reunir com pessoas da Nissan. Seu novo advogado, conhecido como Navalha, é mestre em absolvições

Crédito: Kazuhiro NOGI / AFP

107 dias preso: o brasileiro pagou fiança equivalente a R$ 33,8 milhões para responder em liberdade (Crédito: Kazuhiro NOGI / AFP)

U ma vez nas garras do sistema judiciário japonês, o suspeito de alguma atividade ilegal tem poucas chances de se libertar. Tradicionalmente, no país, os investigados seguem presos até o dia do julgamento. Uma estratégia comum é fazer uma série de interrogatórios e pressionar por uma confissão. Especialistas avaliam que a tática, apesar de provocar polêmica entre estudiosos do Direito, alcança alto índice de eficiência: apenas um em cada 30 investigados tem a chance de responder em liberdade sem fazer uma confissão. E, mesmo quando o culpado alega inocência, ele termina condenado em 99% dos casos. Nesse cenário, chama atenção o fato do executivo franco-brasileiro Carlos Ghosn, comandante da aliança de montadoras Renault-Nissan-Mitsubishi, ter sido liberado com fiança depois de 107 dias na cadeia em Tóquio. Na quarta-feira 6, ele deixou o cárcere depois de pagar 1 bilhão de ienes, em dinheiro, o equivalente a uma fortuna de R$ 33,8 milhões.

O advogado da família, François Zimeray, disse na quinta 7 que Ghosn “não é o mesmo homem” depois da prisão e anuncial que uma entrevista coletiva poderá acontecer em breve. Mas ninguém sabe o que vem pela frente para o executivo que já foi considerado a salvação da Nissan na década de 2000 e que acabou denunciado pelo conselho da montadora por supostamente ter escondido parte das suas compensações financeiras por oito anos (algo em torno de US$ 82 milhões) e pagar menos impostos. Ghosn também é acusado de ter repassado à companhia japonesa perdas pessoais em investimentos, além de ter direcionado US$ 14,7 milhões para uma empresa da Arábia Saudita que o ajudaria a se livrar do problema.

Na única declaração pública durante a prisão, o executivo alegou inocência em todas essas acusações. Seus defensores alegam que a forma como os representantes da Nissan conduziram o caso indicam que se trata de um jogo político corporativo para afastar o franco-brasileiro do comando da empresa, evitando assim que a Renault incorporasse a Nissan, empresa da qual é a maior acionista. Nissan e Mitsubishi afastaram Ghosn do seu cargo executivo, enquanto a Renault o mantém nos quadros. Uma direção provisória conduz a empresa no momento. No entanto, a Nissan deve convocar uma reunião especial destituí-lo da posição de membro do conselho. Agora, livre, especula-se que Ghosn possa participar desse encontro para se defender.

Porém os requisitos para ele deixasse a cadeia tentam impedir esse tipo de ação. Ele está proibido de entrar em contato com envolvidos no caso ou qualquer pessoa ligada às montadoras, além de não poder usar computador fora do escritório dos seus advogados e ter vedado o acesso à internet. Ele também não pode sair do Japão e só tem permissão para fazer viagens internas de no máximo dois dias. Houve críticas ao sistema judicial japonês pelo fato de o executivo ter sido interrogado algumas vezes sem a presença de advogados, além de impedido de ver a família. As suas três filhas, que moram nos EUA, comentaram em entrevista ao The New York Times que ele não tinha aquecimento na cela. E que foram advertidas pelos advogados a não visitá-lo, pois corriam o risco de serem detidas para interrogatório.

A saída da prisão é uma vitória da nova equipe de defesa . Até meados de fevereiro, Ghosn era representado por Motonari Otsuru, um advogado discreto, que havia sido chefe do escritório de promotoria que investiga o executivo. Agora, ele é defendido por Junichiro Hironaka, conhecido como “Navalha” por ser extremamente afiado em conseguir a absolvição dos clientes. De estilo agressivo, ele consegue um bom índice de sucesso em casos de alta visibilidade.

Com a tramitação normal da Justiça japonesa, espera-se que o julgamento demore ao menos um ano para acontecer. Durante esse tempo, a promotoria deve seguir buscando provas incriminatórias. Em processos similares, é usual que o veredito seja dado por um juiz, e não por um júri. Será uma dura batalha enfrentar um sistema que condena muito mais do que absolve. Ghosn tem recursos financeiros para uma boa defesa, mas precisa ter bons argumentos para provar que sua conduta não foi imprópria.