Finanças

Gestão em xeque

Proposta de fechar uma centena de agências e de criar um Programa de Demissão Voluntária que atingiria até 5 mil funcionários do Banco do Brasil pode custar o cargo do atual presidente, André Brandão. Mesmo que não haja troca de comando, o episódio mostra como ainda é difícil gerir estatais seguindo os mesmos princípios da iniciativa privada.

Crédito: Evandro Rodrigues

Abatido pela política André Brandão tomou posse na presidência do BB em setembro com uma agenda de eficiência, mas pode ter passagem abreviada. (Crédito: Evandro Rodrigues )

A provavelmente curta trajetória de André Brandão à frente do Banco do Brasil, o BB, confirma a reflexão do escritor italiano Tomasi de Lampedusa (1896-1957): as coisas mudam para permanecerem as mesmas. Até o fechamento desta edição, na quinta-feira (14), o executivo continuava na presidência do BB, que assumira no fim de setembro de 2020. No entanto, sua permanência no cargo é incerta. Ao anunciar, na segunda-feira (11) um programa de aumento da eficiência do banco, Brandão entrou em rota de colisão com os meandros da polícia brasiliense. A proposta de fechar e de lançar um Programa de Demissão Voluntária (PDV) que poderia incluir até 5 mil funcionários de carreira do BB desagradou fortemente o presidente Jair Bolsonaro, o que provavelmente deverá custar o cargo de Brandão.

Cheiro de Brasil velho, como diria Armínio Fraga. O BB é uma instituição complexa. É uma companhia aberta, listada na B3, com milhares de pequenos acionistas. É o segundo maior banco do País em ativos, com R$ 1,75 trilhão. Lucrou R$ 15,2 bilhões nos 12 meses até setembro de 2020, dado mais recente disponível. Porém, ele também é o principal financiador do agronegócio e um instrumento importante na execução de políticas públicas. Até há pouco tempo, dividia com a Caixa a concessão dos empréstimos do Fies. Por isso, qualquer mudança em sua forma de atuação vai além da frieza dos números.

Para muitos prefeitos dos pequenos municípios espalhados pelo País, o fechamento da agência do BB, muitas vezes a única do local, é um sinal de desprestígio para a cidade (e para o próprio prefeito). Prefeitos irritados telefonam para governadores, que teclam os números de seus aliados no Congresso, que ligam para o Palácio do Planalto para agendar uma conversa. Em qualquer tempo em Brasília, essa sequência de telefonemas têm consequências. Nos momentos em que a presidência da Câmara dos Deputados e do Senado estão em disputa, elas são mais relevantes ainda. Não por acaso, já se comenta nos corredores do Congresso que algumas lideranças políticas vêm encompridando os olhos para as importantes diretorias do BB.

EXECUTIVO COMPETENTE Se confirmada, a saída de Brandão seria ruim para o BB. Ele é um dos mais competentes executivos brasileiros do sistema financeiro. Fez carreira em bancos de investimento e de atacado, e durante muitos anos trabalhou no HSBC Brasil, tendo sido seu último presidente. A operação do banco inglês por aqui era complicada. Sua rede era muito grande para um banco de nicho, mas pequena demais para concorrer com os gigantes do varejo. Apesar disso, Brandão manteve o banco funcionando e competitivo, até a matriz em Londres decidir abandonar algumas praças, o Brasil entre elas. Prova de sua competência, Brandão foi convidado a trabalhar no HSBC nos Estados Unidos, onde permaneceu até setembro do ano passado, quando recebeu um telefonema do amigo Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC), convidando-o para substituir Rubem Novaes.



Em menos de quatro meses, Brandão veio e mostrou serviço. Seu plano de eficiência, definido em conjunto com técnicos do Ministério da Economia, prevê uma economia de R$ 10 bilhões em até cinco anos. Serão fechadas 361 unidades. Outras 388 serão simplificadas, transformando-se em lojas. Só aí, a economia prevista é de R$ 2,7 bilhões. No entanto, o plano de Brandão não contempla apenas afiar a tesoura. Cerca de 71 mil clientes do agronegócio terão atendimento diferenciado, para conter a expansão da concorrência, e 2,5 mil funcionários serão transferidos de funções administrativas para comerciais. Os computadores farão as tarefas repetitivas, e os profissionais do BB, todos concursados e servidores de carreira, vão buscar fazer negócios e agregar valor ao cliente e ao acionista. Procedimentos de qualquer empresa moderna, que busca garantir sua perenidade. Sua implantação, porém, ficou comprometida pelos humores e pelas sombras da agenda política. Não por acaso, quando começaram a circular os rumores da saída de Brandão, as ações do BB recuaram 4,9% na quarta-feira (13).

Para piorar a situação, o momento escolhido para a divulgação foi o pior possível, coincidindo com o anúncio da Ford de encerramento de suas operações no Brasil, que vão causar a perda de, também coincidentemente, 5 mil empregos diretos. E aqui ficam evidentes as diferenças entre empresas privadas e estatais. Apesar de o BB ter divulgado um comunicado ao mercado na quinta-feira informando que não havia mudanças no comando, o destino de Brandão é incerto. Já Jim Farley, CEO global da montadora, foi claro ao anunciar a decisão. “A Ford está presente há mais de um século na América do Sul e no Brasil e sabemos que essas ações são muito difíceis, mas elas são necessárias para a criação de um negócio saudável e sustentável”, informou em comunicado. Na segunda-feira (11), as ações da Ford subiram 3,4%. E Farley, que assim como Brandão chegou à presidência em setembro de 2020, permanece no cargo. Fez o que deveria ser feito.

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