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Garimpo na Amazônia: indígenas revivem “lembranças do período terrível”

Garimpo na Amazônia: indígenas revivem “lembranças do período terrível”

Centro de controle de proteção da Amazônia, em 6 de julho de 2020 em São Paulo - AFP

Indígenas do extremo norte do país lembram, com o avanço da mineração e da pandemia do novo coronavírus em suas terras, o sofrimento do “período terrível” no final dos anos 1980, quando a região foi cenário de violência, doenças e mortes.

Líderes sanuma e yekuana recordam a época: “Cerca de 40.000 garimpeiros entraram em nossa terra e cerca de um quinto da população indígena morreu em apenas sete anos, com violência, malária, desnutrição, envenenamento por mercúrio”.

O relato está em uma carta enviada no final de junho ao ministro da Defesa, Fernando Azevedo, para exigir a “retirada imediata de todos os invasores” da Terra Indígena Yanomami, que compreende 96.650 km2 do território brasileiro e onde moram cerca de 27.000 indígenas.

“Os garimpeiros têm armas poderosas para matar a gente, temos medo de um genocídio”, disse à AFP Mauricio Yekuana, em Auaris, região fronteiriça com a Venezuela.

Davi Kopenawa, líder yanomami com quem Yekuana tem defendido a causa indígena no exterior, se reuniu com o vice-presidente Hamilton Mourão em 3 de julho reiterando o pedido: exigir a retirada dos garimpeiros.

ONGs estimam que existam cerca de 20.000 mineradores nessa T.I., sentindo-se apoiados pelo projeto do presidente Bolsonaro que visa “integrar” a essas áreas as “maravilhas da modernidade”. Para o governo, esse número seria de 3.500.

A presença dos garimpeiros traz consequências ambientais, sociais e sanitárias. Há a contaminação dos rios com mercúrio, atingindo as fontes de água e alimento para as comunidades, a prostituição de indígenas e a propagação da malária, que chegou a essa região há décadas por causa dessa atividade.

O garimpo ilegal também simboliza outras ameaças. Em junho, dois yanomami foram assassinados, em um caso que ainda está sendo investigado. Para os indígenas, isso pode se tornar outro massacre, ao repetir o ocorrido em 1993, quando 16 yanomami foram brutalmente assassinados por homens que buscavam ouro na comunidade de Haximú.

– Contágio –

Em tempos de pandemia, a proximidade de mineradores também ameaça espalhar o novo coronavírus, que, segundo números oficiais, já deixou mais de 9.000 casos e 193 mortos entre os indígenas.

É o caso dos waikás, uma pequena comunidade localizada na terra Yanomami, onde 26 casos foram confirmados. Isso seria uma consequência, como alguns argumentam, da proximidade com as minas.

“Estive dez dias com febre, dor de cabeça, e fiquei 5 dias sem sair da rede. Comecei sem sentir cheiro da comida, não sentia nada, nem da cebola”, conta Marciano Rocha, agente de saúde indígena do povo yekuana, que trabalha nessa comunidade em que há aproximadamente 300 habitantes.

“Tem um rapaz aqui que pegou carona com os garimpeiros. Começou a sentir febre e dor, ali suspeitamos dele. O pessoal falava que ele tinha que ficar isolado, mas ele não ficou, a gente vive junto e trabalha junto. Todo mundo ficou com sintomas”, afirma Rocha, que aparentemente se recuperou.

No coração de Waikás, há pouco menos de uma dúzia de construções de madeira. A farmácia que Rocha administra teve reforço com material de proteção e medicamentos, por uma operação liderada pelas Forças Armadas, que também realizou testes rápidos para a COVID-19.

Em uma primeira rodada, todos tiveram resultados negativos, incluindo ele. Porém, refazendo os testes, 22 pessoas deram positivo, somado aos quatro diagnósticos anteriores.

“Muitos garimpeiros estão procurando a equipe de saúde no posto”, diz outro profissional de saúde.

De Auaris, onde Marcelo Yekuana mora, a Waikás são cerca de 40 minutos de helicóptero. O denso verde da floresta é pontilhado por ipês, árvores cobiçadas, cuja folhagem rosa, amarela ou roxa os atrai de cima.

Os rios serpenteiam através desses infinitos cartões postais que tornam os humanos minúsculos.

“Atravessar a Amazônia é o equivalente a pegar um voo saindo de Moscou e ir a Lisboa”, diz o vice-almirante Carlos Chagas, porta-voz do Ministério da Defesa.

Chagas destaca que as Forças Armadas trabalham na região em operações ambientais e prestam apoio logístico ao transporte de suprimentos durante a pandemia.

Mais de 9.000 soldados foram infectados com a COVID-19, 2,2% da força ativa. A alta taxa de contágio (quase três vezes a média brasileira) mostra a exposição deles nessas ações de controle e assistência.

Fontes do setor militar descartam que a região esteja à beira de um conflito entre garimpeiros e indígenas, e sustentam que, quanto a isso, a análise não pode ser maniqueísta.

Eles defendem a legalização de “algumas atividades”, argumentando que permitirá “controlá-las melhor”.

Do ar, é possível perceber uma mancha marrom na beira de um rio, aparentemente o resto de um garimpo que deixou uma cicatriz no gigantesco tapete verde, como um lembrete tácito de que a Amazônia pode ser finita.

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