Finanças

Gargalo no crédito

Fim das linhas de estímulo do Banco Central e demanda fraca das empresas deverão limitar o crescimento dos financiamentos.

Crédito: Fabio X

Os mecanismos de apoio ao crédito foram uma das medidas mais importantes estruturadas pelo governo federal em 2020 para conter o impacto da pandemia. Embora esses instrumentos não tenham sido capazes de, isoladamente, impedir o pesado retrocesso do Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado, estimado em 4,3%, eles garantiram a solvência e a solidez do sistema financeiro, e impediram uma alta generalizada dos índices de inadimplência. Agora, cumprindo à risca o cronograma estabelecido no ano passado, o Banco Central (BC) está desativando esses mecanismos. Apesar de essa decisão não trazer consigo uma ameaça de retorno da inadimplência, ela poderá servir como um gargalo para o crescimento da concessão de empréstimos.

Os números do BC mostram a desaceleração da concessão de novos empréstimos ao longo dos últimos meses do ano passado (observe o gráfico). Mesmo com os pacotes de estímulo, o total de concessões em novos empréstimos no terceiro trimestre de 2020 foi de R$ 293,4 bilhões, baixa de 3,2% em relação ao mesmo período de 2019. Agora, as linhas que impediram uma queda maior deixaram de ser operadas pelo BC. Por exemplo, uma linha de crédito que emprestava dinheiro aos bancos de menor porte usando como garantia as chamadas Letras Financeiras Garantidas (LFG).

Desconhecidos fora do sistema bancário, esses títulos são, na prática, uma instrumento que permite aos bancos de menor porte rolarem seus empréstimos servindo-se do caixa do BC. Isoladamente, as LFG corresponderam a 3,4% do total de empréstimos concedidos para pessoas físicas e empresas entre abril e novembro do ano passado – os números de dezembro ainda não estão disponíveis.

Uma das únicas linhas de assistência ao crédito que não foi extinta com a virada do ano foi o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). Lançado em maio com uma dotação inicial de R$ 16 bilhões, o programa concedeu R$ 37,5 bilhões em financiamentos a 517 mil empresas de pequeno porte, com um valor médio de R$ 72,5 mil em que o Tesouro deu garantia de 85% dos empréstimos. O Pronampe obteve uma dotação adicional de R$ 10 bilhões no início de 2021. No entanto, apesar de operar diretamente com o crédito, é um programa de estímulo fiscal, que se serve do caixa do Tesouro, e não de estímulos ao multiplicador bancário.

DEMANDA FRACA O que esperar para 2021? Segundo a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), a estimativa para este ano é de um crescimento de 7% nas carteiras de empréstimo. Para a Federação, o maior crescimento deverá ocorrer nas linhas livres, que excluem os financiamentos imobiliários e o crédito rural. Sem contar esses segmentos, o avanço esperado para este ano supera 9%. O resultado indica um crescimento menor nos empréstimos direcionados, entre os quais se incluem as linhas estruturadas pelo BC no começo da pandemia.

Caio gallucci

“As empresas com acesso ao crédito contrataram empréstimos pelos maiores prazos disponíveis e não vão precisar rolar essas dívidas tão cedo” Ricardo Gelbaum, presidente da ABBC.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Ricardo Gelbaum, o crescimento do fim do ano passado foi fraco e deverá permanecer assim pelo menos nos primeiros meses de 2021. Na avaliação de Gelbaum, a maior disponibilidade de empréstimos devido à criação das linhas do Banco Central permitiu às empresas reforçar seu caixa. “As empresas que tinham acesso ao crédito contrataram empréstimos pelos maiores prazos disponíveis e não vão precisar rolar essas dívidas tão cedo”, disse. O caixa das empresas vem sendo usado principalmente para o giro da atividade principal. São poucos os setores consumindo capital para investir. Assim, ainda vai demorar para que os telefones dos gerentes dos bancos voltem a tocar, com empresários pedindo uma esticada nos limites de financiamento.

Para Gelbaum, mesmo que a situação da pandemia se agrave nos próximos meses e haja um aprofundamento maior da retração econômica, o BC não deverá criar novas linhas. “O que deve vir são soluções parecidas com as estruturadas pelo banco central da Inglaterra, em que a expansão do crédito foi feita por mudanças na regulação, sem aumentar o risco do regulador”, disse ele. Ou seja, os polpudos lucros dos bancos com empréstimos deverão retornar só com a aproximação de 2022.

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