Finanças

Futuro nebuloso

Alertada pela CVM por práticas irregulares em seu marketing, Empiricus é alvo de investigação pela autarquia, pelo Ministério Público Federal e pela Apimec

Crédito: João Castellano  |  Silvia Costanti / Valor

Vendendo prognósticos: Miranda (maior), Amstalden (à esq., no destaque) e Altenhofen: marketing agressivo, cabeçadas e reprimendas da CVM e da Apimec (Crédito: João Castellano | Silvia Costanti / Valor)

Criada em 2009, a consultoria de análises de investimentos Empiricus Research ganhou fama em 2014, por conta do relatório “O Fim do Brasil”, que trazia previsões negativas para a economia do País. Desde que a brochura teve sua publicidade suspensa pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela hipótese de interferência na campanha eleitoral, os sócios da Empiricus foram hábeis em aproveitar a notoriedade para conquistar uma legião de assinantes. Para isso, eles dizem enviar 1,5 milhão de e-mails por dia. Essas mensagens prometem ensinar os macetes de lucrar no mercado e, invariavelmente, oferecem assinaturas dos 28 produtos oferecidos pela consultoria.

Os relatórios cobrem quase todos os temas financeiros. Tratam de análise de empresas, comentam o dia-a-dia dos pregões, dão conselhos sobre fundos de investimentos, títulos do Tesouro Direto e mercado imobiliário. Longos, os textos abusam das letras maiúsculas e dos títulos chamativos (veja os exemplos abaixo), e mesclam histórias pessoais e estratégias de investimentos. Agressivo, o marketing frequentemente acena para o investidor com a possibilidade de retornos polpudos e garantidos. Essa estratégia é inspirada no site de finanças pessoais americano The Motley Fool. Fundado em 1993 por dois irmãos, David e Tom Gardner, o The Motley Fool foi pioneiro em usar a internet para discutir investimentos para o público leigo.

A Empiricus reproduz o sistema fielmente, o que irrita algumas pessoas, clientes inclusive. No site “Reclame Aqui” há mais de 700 queixas de consumidores contra a empresa – a maioria por cobrança não autorizada de assinaturas do serviço ou por falhas no envio de artigos comprados, especialmente livros. Em fóruns de bate-papo sobre o mercado são frequentes as histórias de investidores iniciantes que perderam dinheiro ao colocar em prática as complexas operações com opções de ações sugeridas. O economista paulista Helcio Bianchi é um deles. Experiente – investe há duas décadas – ele assinou três relatórios em períodos diferentes.

Ganhou dinheiro ao seguir uma recomendação para comprar dólares, mas não seguiu as sugestões de especular com opções, por considerá-las arriscadas demais e inadequadas para investidores iniciantes. Ao defender seu ponto de vista junto a Felipe Miranda, um dos fundadores da Empiricus, sua simpatia para com a empresa desapareceu. “Ele me disse que não sabia nada sobre computadores e, ainda assim, estava usando um deles para responder ao meu e-mail”, diz Bianchi. “Absurdo.” Agora, a principal ferramenta de venda da Empiricus pode tornar-se uma enorme dor de cabeça. A consultoria afirma ter faturado R$ 200 milhões no ano passado oferecendo relatórios com chamadas como “Transforme R$ 1,5 Mil em R$ 227 Mil em Apenas um Mês”, “Sua Poupança Será Zerada em 72 Horas” e “Estratégia para Transformar R$ 30 em R$ 1 Milhão”.

Não é fácil obter rentabilidades tão altas e de forma honesta com investimentos tradicionais, em curto prazo. Só para lembrar, o ganho médio do megainvestidor americano Warren Buffett oscila em torno de 20% ao ano e o Dynamo, considerado um dos melhores fundos de ações do País, rendeu 24% ao ano, em média, em 20 anos. A publicidade escandalosa atraiu a atenção das entidades que regulam o mercado de capitais. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado, a Associação dos Profissionais do Mercado de Capitais (Apimec), que certifica os analistas de ações, e o Ministério Público Federal (MPF), estão de olho na Empiricus. Não é de hoje. Em 2015, a CVM obrigou a empresa assinar um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), no qual a Empiricus se comprometeu a mudar o conteúdo dos relatórios, explicando melhor os riscos aos investidores, e também a forma de venda, carregando menos nas tintas. A empresa também pagou uma multa simbólica de R$ 7.200.

Agora, ela está sendo investigada novamente, pela CVM e também pelo MPF. Desde 2011 a CVM apura 11 denúncias de investidores contra a Empiricus. Sete já foram julgadas, das quais três foram deferidas. Outras quatro estão em andamento. No fim de 2015, a CVM encaminhou mais uma denúncia ao MPF. O Ministério Público não comenta, mas sua assessoria confirma que há um processo contra a Empiricus sendo analisado por um procurador em São Paulo. Uma fonte que acompanha o assunto afirma que trata-se de um desdobramento do processo aberto em 2014. Mais uma vez, a Empiricus recomenda investimentos sem explicar devidamente os riscos. “Há novas denúncias das mesmas práticas”, afirma essa fonte.

Propaganda agressiva: exemplos de campanhas da Empiricus
Propaganda agressiva: exemplos de campanhas da Empiricus

Há dois problemas nos relatórios da Empiricus, Além de não esclarecer os riscos, ela promete retornos garantidos, algo proibido no mercado. O texto padrão de qualquer publicidade de um investimento deixa claro que “rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.” Recentemente, a Empiricus passou a inserir esse texto em suas publicações, mas sem destaque. Os representantes do mercado há tempos olham enviesado para essas práticas. Em 2012, a Apimec suspendeu por um ano o registro de Marcos Elias, um dos fundadores da Empiricus, por um relatório que apontava inconsistências no balanço do frigorífico Marfrig. No texto, Elias e os coautores Rodolfo Amstalden e Roberto Altenhofen referiam-se de maneira pejorativa aos executivos do frigorífico.

Ricardo Florence, então diretor de Relações com Investidores, foi chamado de “executivo metido a besta e enólogo de araque”. Além da punição a Elias, que já deixou a empresa, Amstalden e Altenhofen foram multados em R$ 2 mil cada. Na época, a Apimec divulgou que os profissionais utilizaram o relatório “para fim outro que não auxiliar no processo da tomada de decisão de investimento.” Agora, um representante da Apimec confirma a existência de investigações, que correm em sigilo. Em abril, o Conselho de Supervisão de Analistas decidirá sobre o caso de José Rafael Rabello, que teria se apresentado como analista sem ser certificado. Rabello elabora um relatório chamado Double-X, cuja assinatura anual custa R$ 3.460.

Procurada, a Empiricus respondeu em nota que “está convicta de que não praticou nenhum ato ou medida contrários às leis que regulamentam o mercado e que eventuais questionamentos serão devidamente esclarecidos” A empresa ressalta ainda que está à disposição dos órgãos reguladores para colaborar na construção das melhores práticas. “Quanto à investigação no MPF, a empresa afirma que não há qualquer inquérito aberto para apurar os fatos”, diz a nota. O estilo agressivo da Empiricus não ficou restrito ao seu marketing. Em janeiro, Miranda agrediu um concorrente com uma cabeçada durante um evento do Credit Suisse, após uma breve discussão.

Estavam no evento o presidente Michel Temer, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn e o CEO da Petrobras, Pedro Parente, além de nomes de peso do mercado, como o gestor Luis Stuhlberger e o empresário Abilio Diniz. A briga foi algo digno de um Motley Fool. A expressão, que consta do sétimo ato da peça “Como Quiseres” (“As you like it”), de William Shakespeare, refere-se a um bobo da corte que caminha desavisado por uma floresta. Mas, claro, aplicar o título de bobo da corte a quem segue as recomendações da Empiricus seria um exagero. Ou não?