Revista

Fundão sem fundo

Crédito: Pablo Valadares

Existe um segmento econômico que não enfrenta crise no Brasil: o político. Com eleições a cada dois anos, a cambulha de profissionais do setor está sempre com o mercado em alta. Por isso o fundo eleitoral e o fundo partidário são tão importantes. Entenda a novela em sete tópicos. Até quinta-feira (4) Bolsonaro precisará vetar ou não sua adoção. Deve aprovar.

1. Em 2015 o STF proibiu financiamento de campanhas por empresas. Dois anos depois, nasceu o fundo eleitoral, grana pública para campanhas privadas. Além desse dinheiro há o fundo partidário, que é anual e já caminha para o R$ 1 bilhão (R$ 837 milhões no ano passado).
2. Nas eleições 2020 (municipais), o fundo foi de R$ 2 bilhões. Para as eleições 2022, o valor saltou para R$ 5,7 bilhões. Foi aprovado dentro da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
3. Vale lembrar que o fundo de 2020 abasteceu 557 mil campanhas de prefeitos e vereadores. As próximas eleições terão muito menos candidaturas – nas de 2018 foram 29 mil. Mesmo assim a dinheirama prevista subiu 185%.
4. Como nasceu o monstrengo? Dia 15 de julho, no começo da manhã (7h22), o relator da LDO, deputado Juscelino Filho (DEM-MA, o da foto acima), incluiu o aumento do valor no relatório final. Horas depois, o projeto foi aprovado na Comissão Mista de Orçamento (CMO). À tarde, pelos deputados. À noite, pelos senadores. Nunca antes a classe política nacional atuou com tanta agilidade.
5. Bolsonaro disse que vetaria. Como tudo o que ele diz significa o oposto, ele não deve vetar. Como sabemos? Por três motivos: a) porque nas eleições de 2020 ele disse a mesma coisa e não cumpriu; b) se vetar, ele vai contrariar o Centrão — e como até os filhotes de jacaré já sabem, Bolsonaro hoje come na mão do Centrão; c) a maioria dos partidos aprovou (PSL, ex de Bolsonaro, foi quem mais colaborou, com 47 votos a favor).
6. Bolsonaro tem até quinta-feira (4) para decidir. Deve aprovar R$ 4 bilhões e criar uma narrativa taylor made para seus fiéis: a de que cortou o que deixaram.
7. O Novo quis apresentar destaque para discutir o tema separadamente, mas foi vencido. Novo e partidos de esquerda votaram contra o fundo.

POLITICABRAS

Trata-se de uma das maiores empresas do Brasil em número de funcionários. São quase 71 mil CPFs para aqueles que garantem sua cadeira por meio do voto. Sem contar a turma que ocupa ministérios, secretarias, gabinetes e cargos comissionados. Não à toa mais de 586 mil brasileiros disputaram algum posto nas eleições de 2018 e 2020. Abaixo, a lista completa dos cargos.

CERCO FISCAL
Jornalismo sob ataque na Índia

Como lidar com a crítica? Atacando o crítico. Duas das maiores empresas de mídia da Índia — o grupo do jornal Dainik Bhaskar e a rede regional de televisão Bharat Samachar — criticaram a estratégia do primeiro-ministro Narendra Modi no combate à Covid. A resposta foi imediata: as duas organizações foram submetidas a operações fiscais em seus escritórios em seis estados.

550.586 Mortos pela Covid no Brasil até 20h de segunda-feira (26). 

42% Queda de mortes em julho, com vacinação de 96 milhões de adultos.

101 E-mails da Pfizer não respondidos pelo governo Bolsonaro para tratar de vacinas.

COVID-19
O dia da volta ao normal
Tem tudo para ser uma data emblemática. Na quarta-feira (28), o governador de São Paulo, João Doria, afirmou que a partir de 17 de agosto as restrições de funcionamento do comércio estarão suspensas, mas mantendo os demais protocolos de cuidados. Até 16 de agosto, a previsão é de que toda a população adulta do estado esteja vacinada com pelo menos uma dose. Até agora, a vacina plena atingiu apenas 21% da população.

EUROPA
UE pune Hungria: no bolso
Bruxelas e Budapeste travam uma disputa que pode deixar o duelo Pequim-Washington na categoria Iniciantes. O governo húngaro de Viktor Orbán ficará pelo menos até o fim de setembro sem acesso ao fundo de recuperação europeu, coisa de 7,2 bilhões de euros. A Comissão Europeia exige em troca do dinheiro o compromisso do Executivo da Hungria no reforço da luta contra a corrupção e no respeito pela independência judicial. Outro país na mira de Bruxelas é a Polônia. O plano para Varsóvia também está em revisão e deve igualmente ser adiado.

Evandro Rodrigues

DUELO DE TITÃS
CHINA E EUA EM ‘MODO: AGRESSÃO’

Evandro Rodrigues

É do jogo. Primeiro, você coloca-se à mesa de maneira radicalizada. Depois, tenta chegar a um acordo. Se a teoria se confirmar, tudo dará certo, mas que elas estão num estágio de tensão, não se pode negar. Na segunda-feira (26), americanos e chineses concluíram em Tianjin, cidade próxima a Pequim, uma dura rodada de negociações. Da parte da China atuou o poderoso ministro das Relações Exteriores, Wang Yi. Pelo lado americano, a não menos influente secretária adjunta de Estado, Wendy Sherman. Nas declarações após a rodada de conversações, a China foi mais agressiva e disse que a relação está em um impasse. “Instamos os Estados Unidos a mudarem sua mentalidade altamente equivocada e sua política perigosa”, afirmou o ministério por meio de um comunicado do ministério.

A China teve em Donald Trump um inimigo declarado, mas não vê em Joe Biden alguém muito diferente, especialmente depois da primeira viagem internacional do presidente americano, no começo de julho, quando costurou com europeus posições duras em relação a Pequim. Wang foi firme e disse, num tom surpreendente para a diplomacia, que interromper o movimento de modernização da China será “tentativa fadada ao fracasso” e que “o desenvolvimento do país não se baseia na premissa do declínio dos EUA”. Ele ainda citou temas caros aos chineses: Hong Kong, Taiwan, Tibete e Xinjiang. Sherman foi bem mais diplomática e afirmou que EUA-China têm a relação bilateral mais importante do mundo e que os Estados Unidos desejam continuar a ter diálogos abertos e francos. As conversas são preliminares para a primeira reunião entre Joe Biden e Xi Jinping, provavelmente por volta do G-20, em outubro.