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Fronteiras em chamas, o desafio do próximo governo da Colômbia

Fronteiras em chamas, o desafio do próximo governo da Colômbia

Colombianos fazem fila na ponte internacional Simon Bolívar, em San Antonio, na fronteira colombiano-venezuelana, em 14 de junho de 2021, antes do segundo turno das presidenciais na Colômbia - AFP



O próximo governo da Colômbia administrará um país que arde em seus limites. Embora a violência tenha perdido protagonismo na campanha presidencial, os grupos armados que lucram com o narcotráfico avançaram nos últimos anos nas fronteiras com Venezuela, Equador e Panamá.

O acordo de paz de 2016 com a guerrilha das Farc reduziu a violência e abriu o caminho para novos temas eleitorais, mas o derramamento de sangue não para: em 2021 o país registrou a taxa de homicídios mais alta desde 2014 – quase 28 assassinatos por 100.000 habitantes, segundo o ministério da Defesa.

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O vencedor do segundo turno entre o senador e ex-guerrilheiro Gustavo Petro e a zebra da campanha, o milionário Rodolfo Hernández, “recebe fronteiras, cujos contextos de segurança vêm se deteriorando ao longo dos últimos quatro anos”, diz à AFP Jorge Mantilla, diretor de dinâmicas do conflito da Fundação Ideias para a Paz.




Confira a seguir os desafios do próximo governo colombiano diante da violência em áreas fronteiriças.

– Problema eterno –

A Colômbia continua sendo o principal exportador de cocaína do mundo, apesar de cumprir as metas de erradicação de narcocultivos ano após ano.


Segundo o relatório mais recente da Casa Branca, em 2020 o país alcançou uma produção recorde de 1.100 toneladas métricas de pó branco. A maioria é processada e exportada nas fronteiras com Venezuela e Equador.

Nesta última fronteira, o exército eliminou vários líderes dissidentes do pacto de paz com as Farc, que controlam as rotas do narcotráfico.

Esta semana morreu o dirigente conhecido como Mayimbú, acusado de assassinar líderes locais e de manter alianças com cartéis mexicanos.

Mas sua morte “é algo episódico que não muda em nada a dinâmica” do tráfico, afirma o coronel da reserva John Marulanda, presidente da Associação Colombiana de Oficiais da Reserva.

Para romper as correntes do negócio, Mantilla propõe retomar a erradicação voluntária de plantas de coca em troca de benefícios econômicos.

A iniciativa fazia parte do acordo de paz, mas passou a um segundo plano no governo de Iván Duque, que favoreceu a eliminação dos narcocultivos à força.

“É preciso fortalecer este programa e cumprir as obrigações com as famílias que os subscreveram”, enfatiza o investigador.

Especialistas destacam que a feroz caçada de grupos ilegais provocaram também atos sangrentos como uma operação militar em abril no departamento fronteiriço de Putumayo, que deixou onze mortos, entre indígenas e outros civis, segundo denúncias.

– Mais que narcotraficantes –

Os grupos armados mudaram, diversificaram seus negócios sem deixar a cocaína para trás.

Na porosa fronteira de 2.200 km que separa a Colômbia da Venezuela, o ELN – última guerrilha reconhecida da Colômbia -, grupos de dissidentes e traficantes de drogas “se impuseram como autoridades migratórias e de fronteira” diante dos fechamentos frequentes de passagens oficiais, devido à pandemia e às tensões entre os dois países, afirma Mantilla.

E nas densas florestas fronteiriças com o Panamá, o Clã do Golfo, liderado pelo extraditado chefão Otoniel, se enriquece com o tráfico de migrantes que vão para a América do Norte.

Nas duas regiões, os grupos que há quatro anos estavam atomizados agora se alinharam a “grandes estruturas” como o Clã ou a dissidência conhecida como Segunda Marquetalia para coordenar negócios ilegais, observa Juana Cabezas, do centro de estudos independente Indepaz.

Segundo a especialista, o ELN também explora minas de ouro no território venezuelano.

E do lado colombiano, “as pessoas os temem, mas aceitam que estejam ali porque dão mercados [víveres] e este tipo de coisas”, destaca Cabezas.

– Reconciliar-se com a Venezuela –

Petro e Hernández coincidem em retomar relações diplomáticas com a Venezuela, rompidas desde 2019, quando Duque reconheceu o opositor Juan Guaidó como presidente daquele país.

Desde então, Bogotá acusa Nicolás Maduro de dar refúgio a grupos armados que operam na fronteira, enquanto Caracas acusa a Colômbia de conspirar contra o governo chavista.

Entretanto, a região limítrofe é um teatro de guerra: ataques contra a força pública, frequentemente letais, e violentos enfrentamentos entre dissidentes e o ELN, como o que deixou cerca de 20 mortos no começo do ano.

Para Cabezas, normalizar as relações “poderia trazer uma diminuição nos confrontos entre grupos armados na fronteira” e não descarta que a Venezuela facilite “um eventual acordo sob a mesa” para desescalar a violência.

O governo de Maduro nega ter vínculos com estas organizações.

Com as relações diplomáticas voltariam as “comissões fronteiriças para impulsionar (…) uma maior segurança na fronteira”, acrescentou o analista e ex-diplomata Eduardo Pizarro em seu recente ensaio, intitulado “Los desafíos de seguridad internos y externos hoy en Colombia” (Os desafios de segurança internos e externos hoje na Colômbia em tradução livre).

Segundo Pizarro, “a debilitação da Rússia” – principal aliado militar da Venezuela – por causa da guerra na Ucrânia facilita a aproximação.

“A Colômbia deve aproveitar a fundo esta nova realidade geopolítica global (…) para buscar uma normalização das relações Bogotá-Caracas e uma melhora por esta via dos sensíveis problemas fronteiriços”, escreveu o especialista.