Economia

Fragmentação que preocupa

Com Lula fora da eleição, o setor privado passou a olhar com mais atenção para os candidatos que defendem uma agenda reformista. O excesso de opções, no entanto, pode dividir os votos e favorecer os extremos ideológicos

Passada a euforia inicial com a prisão do ex-presidente Lula, os investidores começaram a refazer suas apostas. A premissa básica de que uma agenda econômica populista não vencerá as eleições se consolidou. O passo seguinte foi analisar quais são os candidatos mais promissores. À direita no espectro político, o líder Jair Bolsonaro (PSL), com 21% das intenções de votos, segundo a última pesquisa Datafolha, ainda gera muita desconfiança. À esquerda, o nome mais forte é o de Ciro Gomes (PDT), com 10%, que também incorpora riscos. E no centro, empunhando bandeiras reformistas, estão, por ora, nove candidatos (no MDB, há dois postulantes), cujas intenções de votos representam 30% do eleitorado. Até agora, no entanto, nenhum se mostrou extremamente competitivo, o que deixa o mercado inquieto.

Esse grupo de candidatos reformistas, representado nas nove fotos acima, defende aquilo que os empresários chamam de “agenda responsável”. Dentre os itens que são vistos com bons olhos estão o ajuste fiscal, com ênfase na reforma da Previdência Social, e o programa de concessões e privatizações (leia quadro ao lado). Com maior ou menor ênfase, os candidatos que defendem um bom ambiente de negócios são Marina Silva (Rede), com 13% das intenções de votos; Geraldo Alckmin (PSDB), com 8%; Alvaro Dias (Podemos), com 5%; e os demais, com até 2% cada, são Flávio Rocha (PRB), Paulo Rabello de Castro (PSC), João Amoêdo (Novo), Rodrigo Maia (DEM) e Michel Temer ou Henrique Meirelles (MDB). No caso do MDB, não está descartada uma chapa com o presidente Michel Temer na cabeça e o ex-ministro Meirelles de vice.

Na terça-feira 11, em São Paulo, o Itaú Unibanco promoveu o evento Macro Vision 2018, em São Paulo, que reuniu centenas de investidores nacionais e estrangeiros. No cafezinho, as conversas eram monotemáticas em torno da prisão do ex-presidente. “Depois do Lula, quem será o próximo?”, indagou um gestor de fundo. “Acho que é o Aécio”, respondeu o seu colega. O terceiro gestor presente à roda arrematou: “será que tem ala feminina na PF para a Dilma?” Nos painéis do evento, os debates deixaram claro o temor da classe empresarial de que nenhum candidato reformista consiga decolar nas pesquisas.

Quem planeja investir torce para que prevaleça uma agenda de desburocratização da economia. “A carga tributária é muito alta, mas pior ainda é a complexidade dos tributos”, disse Paulo Veras, cofundador do aplicativo de táxi 99. “Simplificar é a prioridade.” O CEO do Magazine Luiza, Frederico Trajano, concorda com essa análise e acrescenta que, nos últimos dois anos, a equipe fiscal da empresa implementou mais de mil alterações tributárias no sistema. “Eu sou a favor de uma agenda mais liberal”, disse Trajano. “Vou votar num candidato mais liberal, que defenda um governo pequeno, menos impostos e seja mais pró-negócios.”

Na avaliação de Manoel Fernandes, CEO da Bites Consultoria, especializada em monitorar ambientes digitais, a prisão do ex-presidente Lula não despertou apenas a militância petista e os seguidores de Bolsonaro. “O senador Alvaro Dias tem calibrado o seu discurso numa linha bolsonarista light, ganhando muito compartilhamento”, diz Fernandes. Assim como Alvaro Dias, os demais candidatos de centro têm a oportunidade de fazer um trabalho eficiente nas redes sociais aliado a uma campanha intensa nas ruas, no rádio e na TV, após a Copa do Mundo.

Apesar de o tema segurança pública ser popular, as campanhas não devem ignorar o bolso dos eleitores. “Os candidatos precisam explicar que vantagem Maria leva com determinadas propostas econômicas”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. “Além disso, as nossas pesquisas indicam que, no imaginário das pessoas, a principal culpada pela recessão foi a corrupção.” Nesse quesito, os especialistas apontam a vantagem de Bolsonaro, que soube encampar o assunto no seu discurso. No plano econômico, no entanto, ele representa muitos riscos.

Nem mesmo o anúncio de que o economista liberal Paulo Guedes é o seu braço direito conseguiu dissipar as incertezas. “Eu ainda não estou convencido de que o Bolsonaro é um liberal, pois o que nos convence são atos e não palavras”, diz Walter Maciel Neto, CEO da AZ Quest, que participou do programa “Papo de Economista”, na TV Dinheiro. “Se o Paulo Guedes for a solução [para a credibilidade do Bolsonaro], eu proponho que a gente lance o Paulo Guedes como candidato.”