Negócios

A força da tradição

Universidades e faculdades tradicionais enfrentam a chegada de grupos estrangeiros e o surgimento dos grandes conglomerados de educação sem perder o foco no que importa: o ensino de qualidade

Crédito: Gabriel Reis

Amalia Andery, da PUC-SP: “Buscamos uma formação mais individualizada‘’ (Crédito: Gabriel Reis)

A ampla sala de reuniões da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no prédio da reitoria, abriga algumas relíquias. Logo na entrada, ao lado direito, há uma foto do Papa Francisco, assinada por Sua Santidade. Na parede oposta às janelas, apoiada numa grande estante de livros e protegida por uma caixa de acrílico, está a bíblia de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo e cardeal, morto em 2016, aos 95 anos. O local, decorado com móveis antigos de madeira, bem conservados, e sofás e poltronas de couro, exala tradição. A reitora da universidade, a Profa. Dra. Maria Amalia Pie Abib Andery, explica que ali era a sala principal do convento, que, antes da fundação da PUC, na década de 1940, funcionava no modelo de clausura. “Existem fotos dessa época”, relata a professora. “Um fotógrafo foi autorizado a entrar na clausura e tirou as fotografias” As obras foram utilizadas em uma exposição, no ano passado, sobre a história da universidade.

Poucas instituições de ensino brasileiras possuem esse tipo de acervo. A PUC é uma delas. Ela faz parte de uma classe de universidades conhecida como “confessionais”, por terem origem na igreja. Algumas dessas instituições figuram entre as mais tradicionais e importantes do País, casos do Mackenzie, ligado à Igreja Presbiteriana, e da Metodista, da Igreja Metodista, ambas em São Paulo. Sem contar as várias PUCs, de orientação católica, espalhadas pelo País. A história dessas instituições se mistura com a história do ensino superior brasileiro. “Quando a PUC-SP foi fundada, em 1946, existiam apenas 20 mil estudantes desse nível no Brasil”, afirma a professora Amalia, que é da área de psicologia. Atualmente, são mais de 8 milhões de alunos em faculdades.

Essa evolução considerável no número de discentes, no entanto, não se deu via universidades como a PUC. Nem foi constante ao longo do tempo. Ela é fruto de um movimento mais recente, das últimas duas décadas, quando a educação passou a se configurar como um lucrativo negócio no País. A grande maioria dos alunos está concentrada nos grandes grupos educacionais, como Kroton e Anhanguera, formados a partir de fusões e aquisições. “Acredito que os grandes grupos e as universidades confessionais ocupem espaços diferentes”, diz a reitora. No caso, ela se refere a um aspecto do ensino, que é especialmente importante para as universidades tradicionais: a pesquisa. Enquanto grupos como a Kroton, que tem cerca de 1 milhão de alunos, focam em um ensino mais padronizado, voltado para a formação profissionais, instituições como a PUC, com 22 mil alunos, focam na excelência. “O modelo de universidade que a gente almeja é muito diferente do modelo de um grupo com milhões de estudantes”, diz a reitora. “Buscamos uma formação mais individualizada.”

A questão é que o investimento em pesquisa funciona quase como um jogo. “Muitas vezes, o investimento é a fundo perdido”, diz a professora. Essa lógica acaba sendo contrária ao padrão do mundo dos negócios, no qual os riscos estão diretamente relacionados à propensão para investir. Sem um retorno certo, é difícil alguém decidir colocar dinheiro. Esse acaba sendo o grande diferencial entre as tradicionais e os grandes grupos. “São objetivos diferentes”, afirma Roberto Sagot, diretor executivo da Fundação Dom Cabral, uma das principais escolas de negócios do País. “Mas, é importante ressaltar que os grandes grupos cumprem um papel importante aumentando o número de profissionais com ensino superior.”

Para a Dom Cabral, entidade filantrópica que atua, principalmente, na pós-graduação, quanto mais alunos graduados, melhor. O desafio, no caso, está em ir além do diploma e formar um profissional que realmente se destaque no mercado de trabalho. Nesse sentido, a Dom Cabral, a exemplo de outras tradicionais, inclusive a PUC, busca novas formas de ensinar. “A ideia do aluno passivo escutando o professor na sala de aula está ultrapassada”, afirma Sagot. Hoje, a preocupação é colocar o aluno no centro do processo educacional, deixando-o responsável pelo próprio aprendizado, cabendo ao professor orientá-lo nesse processo.

Na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), desde 2013 está em vigor um novo planejamento estratégico, que visa atualizar o corpo docente em relação aos modelos de aprendizagem mais recentes. “Virtualmente, já treinamos todos os nossos professores”, afirma Alexandre Gracioso, vice-presidente acadêmico da ESPM. O aluno que entra na faculdade, atualmente, encontra cursos totalmente reformatados, com um ensino muito mais individualizado. “Esse é um grande diferencial da nossa escola”, afirma Gracioso. “Agora, infelizmente, esse modelo de aprendizagem individual é impossível de se implementar em uma universidade com mais de 1 milhão de alunos.” Por esse motivo, ainda que se mantenham, no quesito financeiro, em um patamar muito menor do que os grandes grupos, as universidades tradicionais têm garantido um espaço importante no mercado e, especialmente, na economia nacional: formadores de líderes.


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