Economia

A força da carne brasileira

A desastrada divulgação de uma operação pela Polícia Federal provoca prejuízo bilionário ao agronegócio e mancha a imagem do Brasil. Em ação conjunta, o setor e o governo reagem com rapidez para minimizar os danos

O ano de 2017 estava desenhado para ser o melhor da história do agronegócio brasileiro. Além da safra recorde de grãos de 223 milhões de toneladas, a pecuária vem desfrutando de elevações relevantes nos preços internacionais. Em 12 meses, a carne bovina registra alta de 10%, em dólar; a de frango, 20%; e a suína, 40%. Dentre os analistas, em meio a um cenário político ainda incerto, uma das poucas certezas positivas é a de que o setor agropecuário garantiria uma expansão do PIB neste ano. Na sexta-feira 17, no entanto, uma megaoperação deflagrada pela Polícia Federal contra fraudes em 21 frigoríficos causou um estrago de dimensões continentais.

Não pelo combate à corrupção em si – tarefa que recebe aplausos dos líderes do setor –, mas pela forma atabalhoada e desinformada com que a operação foi divulgada, provocando reações comerciais de diversos países importadores da carne brasileira. “O estrago já foi feito, não tenha dúvida”, afirmou à DINHEIRO o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira. “É possível que (a carne brasileira) perca valor, mas vamos trabalhar para minimizar.”

O MINISTRO INSPETOR: Blairo Maggi, da Agricultura, (à frente) foi pessoalmente fiscalizar os frigoríficos suspeitos de adulterar a carne
O MINISTRO INSPETOR: Blairo Maggi, da Agricultura, (à frente) foi pessoalmente fiscalizar os frigoríficos suspeitos de adulterar a carne (Crédito:AFP Photo / Rodrigo Fonseca)

As horas e os dias subsequentes à divulgação de problemas de fiscalização sanitária envolvendo a carne brasileira foram de intenso trabalho em no governo federal. Durante o fim de semana passado, o presidente Michel Temer liderou uma força-tarefa com representantes dos ministérios da Agricultura, da Indústria e das Relações Exteriores para dar uma resposta célere aos países que compram o produto brasileiro. Inúmeros grupos de WhatsApp foram criados para facilitar a troca de conteúdo e unificar o discurso, evitando informações desencontradas dadas por diferentes porta-vozes.

Marcelo Vieira, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira: “Destacaram alguns funcionários e agentes corruptos como se fosse um problema generalizado”
Marcelo Vieira, presidente da Sociedade Rural Brasileira: “Destacaram alguns funcionários e agentes corruptos como se fosse um problema generalizado” (Crédito:Humberto Franco)

“Meu celular não parava de apitar no domingo”, diz um assessor ministerial envolvido no caso. O tilintar constante dos celulares das autoridades era um termômetro da avalanche de notícias que brotavam a todo instante. Ainda na tarde do domingo 19, Temer se reuniu com o ministro Pereira, o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, e representantes de entidades frigoríficas. Maggi, inclusive, cancelou uma licença de 10 dias que havia acabado de tirar e passou a inspecionar pessoalmente os frigoríficos e a promover um corpo a corpo com a imprensa internacional. Em seguida, Temer convocou os embaixadores dos maiores importadores para prestar esclarecimentos e convidá-los a degustar a iguaria nacional em uma churrascaria, em Brasília.



Os esforços governamentais se multiplicaram ao longo da semana através de videoconferências, telefonemas e notas oficiais, mas não impediram uma reação enérgica de diversos países, como China, Japão, Egito e Chile (leia quadro ao final da reportagem). Na sexta-feira 24, Hong Kong, inclusive, retirou a carne brasileira dos supermercados. No caso chileno, em particular, a DINHEIRO apurou que a postura arrogante e precipitada do governo vizinho irritou as autoridades brasileiras. “Comércio é assim: se há uma retaliação de um lado, nós temos de negociar com as mesmas armas do outro”, afirma o ministro Pereira.

Marcos pereira, ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços: “O estrago já foi feito, não tenho dúvida. É possível que (a carne) perca valor, mas vamos trabalhar para minimizar”
Marcos pereira, ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços: “O estrago já foi feito, não tenho dúvida. É possível que (a carne) perca valor, mas vamos trabalhar para minimizar” (Crédito:Divulgação)

A Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB) estima que a balança comercial perca neste ano ao menos US$ 1 bilhão em exportações de carnes, que totalizaram US$ 14 bilhões em 2016 – o Brasil é o maior exportador de carnes do mundo. Na terça-feira 21, a média diária de vendas ao exterior havia despencado de US$ 63 milhões para apenas US$ 74 mil. “É compreensível que os nossos clientes suspendam as importações de carnes do Brasil para dar satisfação ao seu público interno”, diz José Augusto de Castro, presidente da AEB. “Vamos perder volume e preço, pois demos a chance para o importador pedir desconto. É um desastre sobre todos os ângulos.”

Curiosamente, os Estados Unidos, que concorrem diretamente com o Brasil nos principais mercados, não impuseram barreiras comerciais, mas aumentaram a fiscalização. Já a Coreia do Sul, que inicialmente embargou a carne brasileira, voltou atrás e liberou o produto, sob intensa vigilância sanitária. Passado o susto pelo espetáculo midiático promovido pela PF, que criou um monstro muito maior do que a realidade, as entidades do agronegócio externaram sua indignação. Todas elogiam o esforço dos policiais em flagrar fiscais corruptos e empresários corruptores, e defendem o seu expurgo. Porém, reclamam que, ao fornecer informações equivocadas sobre a qualidade da carne brasileira, os agentes da PF passaram uma imagem negativa de todo o setor.

Houve absurdos como, por exemplo, afirmar que os frigoríficos misturavam papelão nos produtos e usavam ácido cancerígeno (leia quadro explicativo ao final da reportagem). “A divulgação do evento foi exagerada”, afirma Marcelo Vieira, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB). “Destacaram alguns funcionários e agentes corruptos e instalações inadequadas como se fossem um problema generalizado.” Com duração de dois anos, a investigação teve como alvo 32 empresas, incluindo as gigantes BRF e JBS (leia reportagem sobre a reação das empresas aqui). Segundo a PF, fiscais do Ministério da Agricultura recebiam propina para liberar produtos estragados e com certificados sanitários adulterados em seis Estados e no Distrito Federal.

De imediato, o ministro Maggi determinou o afastamento dos 33 servidores citados na investigação. Os números grandiosos da Operação Carne Fraca, que envolveu 1,1 mil policiais e teve 309 mandados judiciais, transmitiu uma dimensão midiática equivocada e acabou gerando temor também nos consumidores brasileiros em relação à qualidade das carnes bovinas, suínas e de frango – 80% da produção nacional é destinada ao mercado interno. Na prática, são investigados apenas 21 frigoríficos do Paraná, de Goiás e de Santa Catarina de um total de 4,8 mil unidades no País. Na dúvida, redes de supermercados, como Carrefour e Pão de Açúcar, retiraram das lojas os produtos dos frigoríficos citados.

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O esforço para dirimir todos os questionamentos é crucial para minimizar os danos de imagem. A Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) salienta que a excelência da carne nacional é fruto de muito investimento e não foi conquistada do dia para a noite. “Nós somos o único grande produtor de aves que não tem nenhum foco de influenza aviária”, afirma Bruno Lucchi, superintendente técnico da CNA. “Sinal das boas práticas dos produtores e das medidas de biossegurança nas indústrias.” Coincidentemente, os Estados Unidos tinham divulgado, dias antes, um segundo foco da doença, o que favoreceria o Brasil, mas a ação da PF atrapalhou.

Outro ponto importante destacado pelos especialistas é o impacto que haverá nas negociações comerciais entre Mercosul e União Europeia. Os produtores franceses e irlandeses, que sempre pressionam seus governos a não abrir o mercado para a carne brasileira, agora ganharam mais munição. Após uma semana do início da crise, os representantes do agronegócio chegaram a dois consensos. O primeiro é de que os prejuízos decorrentes do adiamento ou da redução no abate de animais ficarão majoritariamente no colo dos produtores. Já o prejuízo da indústria se dará principalmente no mercado internacional, com uma redução no valor da carne brasileira. Além disso, a tendência é de o preço cair no mercado doméstico se a produção voltada para a exportação for redirecionada para os brasileiros.

O presidente Temer convocou uma reunião de emergência com os embaixadores dos países que mais importam carne do Brasil
O presidente Temer convocou uma reunião de emergência com os embaixadores dos países que mais importam carne do Brasil (Crédito:Beto Barata/PR)

Ninguém, no entanto, cogitou até agora reivindicar ao governo algum tipo de compensação financeira. O outro consenso é de que a corrida contra o tempo é fundamental para minimizar os danos. Quando a China, por exemplo, impede a entrada da mercadoria brasileira, ela gera um efeito cascata em toda a cadeia produtiva, do produtor à indústria, que deixará de fazer uma nova remessa. “Nossa preocupação é com mais de 6 milhões de trabalhadores brasileiros, que atuam nesta cadeia de produção de carnes bovina, suína e de aves”, diz Francisco Sérgio Turra, ex-ministro da Agricultura e presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Após receber inúmeras críticas, a PF divulgou na terça-feira 21, em conjunto com o Ministério da Agricultura, uma nota em que nega “um mau funcionamento generalizado” do setor e afirma que as irregularidades são “pontuais”. Em audiência no Senado Federal, na quarta-feira 22, o ministro Maggi lamentou o episódio e disse que a meta é manter a participação de 7% do Brasil no comércio mundial de alimentos, descartando o plano inicial de conquistar uma fatia de 10% até 2020. “O que estamos sofrendo hoje é uma pancada, um soco no estômago”, desabafou Maggi. Felizmente, a carne brasileira é forte o suficiente para virar esse jogo.

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