Economia

Fogo e fúria

Donald Trump ignora alerta do FBI e divulga relatório sigiloso de investigação. Nos anos 1970, Richard Nixon desafiou o serviço secreto e renunciou ao cargo

Crédito: Fotomontagem: Mandel Ngan/ASP  |  Nicholas Kamm/ASP

Dedo em riste: James Comey, ex-FBI (à esq.), e o presidente Donald Trump trocam acusações sobre a ajuda da Rússia nas eleições (Crédito: Fotomontagem: Mandel Ngan/ASP | Nicholas Kamm/ASP)

A personalidade intempestiva do presidente americano Donald Trump parece dar razão ao título do livro Fogo e fúria, do jornalista Michael Wolff, sobre os bastidores de sua administração na Casa Branca. Na semana passada, Trump enfureceu o Partido Democrata e o FBI (Departamento Federal de Investigação) ao autorizar a divulgação de um relatório sigiloso. O documento acusa o FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos de conluio com os democratas para provar a interferência russa durante as eleições presidenciais.

O documento mostra que o subsecretário de Justiça, Rod Rosenstein, responsável por supervisionar o procurador-especial Robert Muller, teria aprovado o prolongamento das investigações sobre o ex-assessor de Trump, Carter Page. Muller é considerado a pedra no sapato do presidente e Page é a ligação entre a Rússia e a influência nas eleições. Em sua defesa, Trump afirma que o FBI cometeu “abuso de poder” ao esconder informações sobre a investigação. Pelo Twitter, o presidente afirmou ser vítima de uma conspiração entre os democratas e o FBI. Para estancar as investigações, Trump já havia demitido o diretor do FBI, James Comey, que passou a fazer seguidas denúncias contra o presidente. “Esses memorandos nos dão a sensação de caos generalizado entre o poder do Estado e da Casa Branca”, diz Mathias Alencastro, doutor em ciências políticas pela Universidade de Oxford. “É um sinal de desgoverno alarmante”.

Trump, mais uma vez, desobedeceu as advertências do FBI, do Departamento de Justiça e da Direção de Inteligência Nacional ao divulgar o relatório, causando mal-estar dentro do próprio partido. A consequência é que Rosenstein e, por extensão, Muller podem ser demitidos. “Tanto democratas quanto republicanos sustentam que Mueller é um servidor público honesto e confiável”, diz Antonio Quintanilla, consultor da Prospectiva, baseado em Washington. Pesquisas mostram que a maioria dos americanos quer que Mueller continue as investigações. Isso enfraquece ainda mais Trump e os republicanos nas eleições legislativas, que acontecem no meio deste ano. Se os democratas ganharem o controle do Congresso, a agenda do presidente poderia ser travada. “O presidente parece atirar no pé. Ele mina sua própria agenda”, completa Quintanilla.

Os serviços de inteligência alegam que o relatório coloca em risco a segurança nacional. Um dos medos é que a população fique menos disposta a cooperar ou ajudar os agentes do FBI. “A base da democracia é a confiança nas instituições, algo que Trump não tem”, diz Juliano Cortinhas, especialista em relações internacionais da Universidade de Brasília. A lógica é que, se o presidente dos EUA não confia no FBI, então por que a população deveria confiar?

Essa não é a primeira vez que um presidente dos EUA tenta deslegitimar o FBI. Richard Nixon tentou abafar, em 1973, as investigações policiais e políticas em torno da descoberta do FBI de uma operação de escutas telefônicas e espionagem dos escritórios do Partido Democrata por parte de membros da cúpula da presidência dos EUA, no ano eleitoral de 1972. O caso, conhecido como Watergate, culminou na renúncia do presidente em 1974. Historicamente, uma guerra contra o FBI não pode ser vencida. Mas ainda é cedo para medir o se o governo Trump terminará queimado pela própria fúria.