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Fintechs de olho no FIES

Sustentabilidade do programa de financiamento estudantil do governo federal é questionada desde 2010, mas agora, fintechs aparecem como alternativas ao FIES.

Crédito: Rafa Von Zuben

Na última quarta-feira 12 terminaram as inscrições para os candidatos ao chamado Novo Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). Foram oferecidas 70 mil vagas em instituições privadas de ensino superior. O programa, destinado a auxiliar o acesso de estudantes à universidade, somou 1,5 milhão de contratos em 2019. Destes, 700 mil estavam inadimplentes em dezembro (veja gráfico à direita). O calote provocou uma queda de 75% na oferta de vagas em dez anos – foram 277 mil linhas de crédito concedidas em 2010.

Percebendo que haverá um nicho de negócios, as fintechs entraram no segmento. Elas calculam que os alunos que não consigam acesso ao Fies buscarão outras formas de financiamento. Roberto Tesch, CEO da Mova, diz que as financeiras podem representar uma alternativa a essa parcela da população. Assim como a Mova, outro programa de fintech de crédito para educação é o Pravaler. As duas empresas apostam em soluções que minimizem a inadimplência. Para Carlos Furlan, CEO do Pravaler, é possível utilizar algoritmos que busquem estudantes comprometidos, com chances de formação e aptos para o mercado de trabalho. “Com a tecnologia ficou mais barato aplicar esses métodos em maior escala. Por exemplo, caiu o custo do acesso à informação para realizar projeções financeiras e analisar a capacidade de pagamento do financiado”, afirma Furlan.

As fintechs trabalham para levar o financiamento aos estudantes atuando diretamente com as instituições de ensino e oferecendo às faculdades uma alternativa semelhante à tradicional venda dos recebíveis de uma carteira de crédito. Em outras palavras, em vez de financiar diretamente o aluno, a faculdade apenas fecha o contrato com o estudante. E a fintech, por sua vez, dá o crédito para a instituição. Ao contrário do Novo Fies, em que o aluno começa a pagar seu financiamento apenas depois de concluir o ensino superior, nos contratos com as fintechs isso se dá a partir do segundo semestre – mas o estudante não paga a mensalidade cheia, apenas um porcentual variável. Caso haja inadimplência, perde o direito de continuar a frequentar o curso.

“Acreditamos que o estudante precisa ter noção de quanto custa e como funciona todo o sistema para que ele esteja lá e tire o máximo proveito deste benefício”, afirma Furlan, da Pravaler.

Valorização Carlos Furlan, CEO da Pravaler, aposta na conscientizacão do estudante em relação ao valor que aquele estudo pode significar para o futuro dele. (Crédito:DmitriMaruta)

TRAGÉDIA ANUNCIADA Um relatório do Banco Morgan Stanley questionou a sustentabilidade do Fies já em 2010. O analista Javier Martinez chamou atenção para o aumento do preço das mensalidades em diversas instituições que participaram do programa. Ele afirmou que o Fundo de Garantia de Operações de Crédito Educativo investe em ações de baixa liquidez e que o Brasil estaria no caminho errado. “Hoje, vejo um trabalho muito lento para levantar o sistema de financiamento estudantil por meio do governo”, diz Martinez. “É preciso que a iniciativa privada tome este espaço desde já para que os prejuízos não sejam maiores daqui a quatro, oito ou 12 anos.”

O Fies existe desde 2001, mas foi só em 2010, quando o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) passou a operar a carteira, que ele cresceu exponencialmente e sem qualquer controle. Além da Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil passou a atuar como agente financeiro do Fies, e a taxa de juros, que chegava a 6,5% ao ano para estudantes de algumas carreiras, foi reduzida a 3,4% ao ano para todos os cursos. Além disso, não havia um prazo fixo de inscrições ou limite de vagas por semestre. Qualquer um – inclusive quem não precisava – entrava. O programa em 2014 chegou a ser a principal forma de calouros em instituições privadas financiarem seus estudos à época.

O descontrole levou ao estrago com dinheiro público e também drama a estudantes indadimplentes. A DINHEIRO ouviu pessoas que aderiram ao programa.Um dos contratos, firmados com a Caixa Econômica Federal, informava que a estudante teria cerca de R$ 44 mil de dívida com limite máximo de R$ 51 mil e taxa de correção anual a 3,4%. Mas hoje, a dívida já está em quase R$ 67 mil e não há qualquer orientação por parte do banco sobre como isso será pago pela aluna dentro das possibilidades dela.

Felipe Sigollo, ex-secretário executivo do MEC, afirma que a expansão de 2010 a 2014 foi mal planejada e julga a ação como criminosa. “A União garantiu pagamento até para quem poderia arcar com os próprios custos, e agora os estudantes que estão chegando e realmente precisam do financiamento não tem mais”, diz. O ex-secretário conta ainda que em 2017 e 2018 o MEC conseguiu garantir 100 mil vagas para o Fies sem juros e outras 100 mil para diferentes modalidades de pagamentos. “Porém já era nítido que os números cairiam cada vez mais e o sistema falharia”, afirma. Uma parte da saída, agora, está nas mãos das fintechs.