Negócios

Fernando Pimentel

Economista e amigo da presidenta, o ministro Fernando Pimentel está encarregado de aumentar a competitividade da indústria brasileira 

O convite foi feito logo após a vitória no segundo turno, no dia 31 de outubro do ano passado. “Você já está cuidando da mudança, né?”, disse a então presidenta eleita, Dilma Rousseff, amiga de Fernando Pimentel desde a segunda metade dos anos 1960, quando ambos, ainda jovens, militavam na resistência ao governo militar, foram presos e viveram na clandestinidade. A futura presidenta já dava como certo que o ex-prefeito de Belo Horizonte, candidato derrotado do PT ao Senado por Minas Gerais e um de seus principais conselheiros durante a campanha eleitoral, a acompanharia no governo. Foi a senha para que Pimentel começasse a se preparar mentalmente para mudar sua rotina e, pela primeira vez, morar na capital federal. Mas foi só em dezembro que ele soube em qual prédio da Esplanada dos Ministérios iria trabalhar. A presidenta deu-lhe a notícia de que seria o novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior junto com um pedido: melhorar a competitividade da indústria brasileira, afetada pela concorrência da Ásia e pelo real valorizado, que dificultava as exportações brasileiras de manufaturados. 

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Quase um ano depois, Pimentel diz que ainda está se adaptando à vida em Brasília. Mas já tratou de colocar em andamento a determinação da presidenta. Em agosto, depois de meses de discussões dentro do governo e com o setor produtivo, lançou o Plano Brasil Maior, um conjunto de metas para aumentar o investimento, melhorar a inovação nas empresas, a qualidade da mão de obra e garantindo a competitividade e o maior  valor agregado das exportações do País. A relevância do Plano Brasil Maior e o papel determinante do ministro para que se tornasse uma política concreta de governo em tão pouco tempo conferiram a Pimentel o título de  EMPREENDEDOR DO ANO NO DESENVOLVIMENTO. A esse feito se soma a regulamentação do plano que vai incentivar a produção de automóveis no Brasil em detrimento do produto importado e cujo decreto deve sair na segunda semana de dezembro.

 

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Militância: Pimentel conhece a presidenta Dilma Rousseff desde a década de 1960


e foi presença constante na eleição de 2010

 

Até agora, 17 montadoras já anunciaram investimentos no Brasil, num total de US$ 30 bilhões. “O ministro é um intérprete atento da conjuntura econômica internacional e tem uma visão estratégica do melhor modelo industrial para o Brasil”, diz Cledorvino Belini, presidente da Fiat e da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. Paralelamente, neste primeiro ano de mandato do governo Dilma, o ministério ficou mais agressivo na defesa comercial, barrando a importação de produtos que entram em condições consideradas desleais pela indústria brasileira. “Vamos continuar na busca da competitividade”, diz Pimentel. Ele conta que ficou positivamente surpreso quando assumiu o posto e constatou que, apesar de pequena, sua equipe tinha um elevado nível técnico. 

 

No total, ele comanda 1,2 mil funcionários no ministério e três mil em todo o Sistema MDIC, que inclui órgãos como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Apex, a agência de estímulo à exportação. O dia de Pimentel começa com uma caminhada no parque perto do hotel onde mora de segunda a sexta – a mulher e os filhos, um casal de gêmeos com 15 anos, ficaram em Belo Horizonte, para onde ele viaja nos fins de semana. A jornada que começa por volta das 9 horas não termina antes das 10 da noite. Antes de dormir, ainda vê os jornais da noite na televisão e navega na internet. Durante o dia, está sempre de olho nas notícias que chegam pelo iPhone – inclusive em palestras ou reuniões mais aborrecidas. Além de notícias, gosta também de ler livros. Atualmente, sua obra de cabeceira é História Contemporânea da Argentina, de Luis Alberto Romero, que fala especialmente das crises que marcaram as últimas duas décadas.

 

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Pimentel com o presidente Lula e o governador Aécio Neves quando era prefeito de Belo Horizonte

 

Aos 60 anos de idade, economista formado pela PUC-MG  e mestre em ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais, torcedor do Cruzeiro, Pimentel é famoso, entre os que trabalham com ele, por não gostar de ouvir problemas que não venham acompanhados de uma solução. Reservado e discreto sobre sua vida pessoal, Pimentel recebe diariamente em seu gabinete empresários dos mais diferentes setores da economia. Nessas conversas com os empresários, Pimentel agrada pela franqueza com que responde aos pedidos. “Quando está fora do alcance dele, ele já diz logo: isso aqui não adianta vocês pedirem que eu não posso fazer nada”, conta o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, que o conhece desde os tempos em que Pimentel foi secretário de Finanças da prefeitura da capital mineira, nos anos 1990. É a resposta que os empresários ouvem, por exemplo, quando vão ao ministro reclamar do câmbio.

 

Vem dessa época a interlocução de Pimentel com o setor empresarial e sua capacidade de transitar sem dificuldades entre os mundos acadêmico, empresarial e político. Professor de economia da UFMG desde 1978, ele foi um dos fundadores do PT em Minas Gerais e trabalhou numa empresa de decorações da família. Em 1993, quando o companheiro de partido Patrus Ananias foi eleito prefeito da capital mineira, Pimentel assumiu a Secretaria da Fazenda. Com a prefeitura quebrada e endividada, convocou os empreiteiros e fornecedores para renegociar as dívidas e retomar as obras e serviços. O acordo reduziu em 30% o preço das obras, que a partir daí passaram a ser pagas em dia. Em 2008, deixou a Prefeitura de Belo Horizonte com a aprovação de 73% dos eleitores. Ao mesmo tempo que modernizou a economia da cidade, procurou fazer um governo com sensibilidade para o social. “Ele é um desenvolvimentista do século 21”, define o economista Mauro Borges, colega de Pimentel na UFMG que agora dirige a ABDI. 

 

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Política industrial: o ministro ajudou na arquitetura do Plano Brasil Maior,

conjunto de metas para aumentar a produtividade industrial

 

“Isso significa que o mercado é o principal instrumento regulador, mas que o Estado é imprescindível para obter o desenvolvimento além do crescimento.” Pimentel é uma presença frequente no Palácio do Planalto, chamado pela conterrânea presidenta. Além dos assuntos do ministério, Dilma ouve o ministro sobre Minas Gerais e sobre política de um modo geral. Os dois também discutem economia, especialmente a conjuntura internacional. É Pimentel quem assessora a presidenta em seus discursos mais importantes no Exterior, como os que ela fez na viagem à China, em abril. Sobre o futuro, Pimentel está otimista. Acha que a crise lá fora é grave, mas que o País vai conseguir seguir no seu rumo do crescimento. “Todo mundo com quem  converso diz que estamos construindo um modelo de desenvolvimento que está dando certo”, diz o ministro. “Gostaríamos que fosse mais rápido, mas estamos no rumo certo.”