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Famílias aproveitam o sábado de carnaval fora de época em São Paulo

O sábado de carnaval fora de época em São Paulo proporcionou a muitas famílias a possibilidade de – após dois anos de intensas restrições, necessárias por conta da pandemia – tomar contato com a alegria e a descontração dos bloquinhos. E para os filhos da pandemia, os bebês nascidos durante a grave crise sanitária provocada pela covid-19, a alegria pode ser experimentada pela primeira vez.

Frequentadores de longa data do bloco Água Preta, que saiu no bairro da Pompeia, na zona oeste da capital, o casal de atores Alexandre Krug e Érika Coracini, de 53 e 41 anos, não via a hora de levar o caçula da família, Jorge, para a sua primeira folia.



“Ele tem dois anos e sete meses, é praticamente ‘filho da pandemia'”, justifica o pai, que vê entre os frequentadores do bloco este ano uma “sede maior de aproveitar”.

Eles não eram os únicos. Flávia Yue, de 45, também aproveitou para levar ao bloco as filhas Lia e Flora, de 5 e 11, além de Alice, amiga da mais velha. “Eu sempre venho no Água Preta porque é mais tranquilo e perto de casa. Esse ano, inclusive, tá ainda melhor porque tá mais vazio e tranquilo.”

O som das marchinhas e as pernas de pau, usadas por alguns foliões, atraíram principalmente os moradores do entorno. “Não via a hora de curtir o carnaval com lele”, conta a publicitária Mariana Conti, de 33 anos, que saiu de casa com o filho Sebastião, de 5, nos ombros. “Quem faz o carnaval são as pessoas.”

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A presença de famílias não foi observada apenas no sábado. No primeiro dia da folia, na quinta-feira, era possível observar o mesmo no bloco Saia da Chita, que também desfilou pelas ruas da Pompeia.

Naquele dia, a reportagem entrevistou a vendedora Amanda Cruz, de 31 anos, que levou ao bloco a filha Tereza, de 6, para seu primeiro carnaval. “Estou achando ótimo, porque a pandemia trouxe muita solidão, né? Aqui ela tá convivendo com uma diversidade de pessoas que não veria em casa”, contou a mãe.


Carnaval de bairro com apoio do bairro

O tradicional Bloco do Fuá – que fez seu cortejo de estreia em 2013 – se concentrou neste sábado na Rua Conselheiro Ramalho, no bairro do Bixiga, a partir de 15 horas. Com uma bateria com cerca de 100 integrantes, o grupo se organizou na sede do Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo e atraiu foliões de diferentes perfis. Neste ano, o desfile não teve um tema específico, mas o Bloco do Fuá convidou os foliões, por meio das redes sociais, a usarem as cores vermelho e amarelo.

“É um bloco bem de bairro, alguns comerciantes até combinaram que vão distribuir garrafinhas de água para a bateria quando a gente passar”, diz o radialista Marco Ribeiro, de 60 anos, que também é morador do Bixiga. Um dos fundadores do bloco, ele explica que o trajeto deste ano foi pensado para passar por ruas menores e, em sua maioria, de mão única. A expectativa era que haveria um público de mil pessoas, mas uma multidão consideravelmente maior aderiu ao cortejo neste sábado.

Como diferencial do bloco, além da conexão com os moradores do bairro do Bixiga, Marco diz que 90% das músicas são autorais. “Já lançamos até um CD. Mas também não tem restrição: quem chegar com instrumento, pode tocar”, diz.

A organização do Bloco do Fuá informou que, seguindo orientação da Prefeitura, procurou a Subprefeitura da Sé para informar sobre o cortejo. A rua em que o bloco se reuniu foi fechada por cones e um carro da Companhia de Engenharia de Tráfego, que fez a escolta do desfile. Por volta de 19 horas, funcionários da limpeza urbana chegaram ao local para recolher lixo por onde os foliões haviam passado.

Morador da Bela Vista, o músico Adailton Santos, de 38 anos, levou os filhos Jorge, de 5 anos, e Índia, de 2 anos, para aproveitar o carnaval neste sábado. “As crianças precisam disso, de um envolvimento cultural. Acho isso muito bacana para as crianças, tanto que eles se divertiram bastante”, contou ele, enquanto carregava a filha nos braços.

O músico explicou ter chegado com os filhos ao bloco por volta de 15h30, após buscá-los com a mãe na zona norte. Foi uma das primeiras experiências de carnaval das crianças, que estavam fantasiadas. A menina, de fada, e o menino com uma camisa da banda Kiss. “Ele gosta do desenho”, disse o pai. “Agora estamos indo embora, ela caiu no sono”, acrescentou o folião ao falar com a reportagem por volta de 17 horas.

Teve ainda quem viesse de longe. A artista plástica Ana Paula Nagano e o designer Otávio Nagano, de, respectivamente, 31 e 32 anos, saíram de Caieiras, na Serra da Cantareira, para levar o filho, Nicolas, prestes a completar 1 ano, ao seu primeiro carnaval.

Acostumados aos blocos da cidade, eles se mudaram da região da Consolação no início da pandemia, mas decidiram retornar à capital neste feriado para rever os amigos e aproveitar o bloco com o filho. “Todo carnaval a gente vem no (Bloco do) Fuá”, explicou Otávio. “Ele é menor, bem politizado – acho interessante essa pegada – e tem o tipo de som que a gente gosta”, acrescentou.

O diretor de tecnologia Jonatas Palmeira, de 45 anos, saiu de Santo André com a esposa para levar o filho, Pedro Augusto, de 6 anos, ao carnaval. “Vimos que tinha um bloquinho e a gente quis trazer ele, porque já tem dois anos que não tem nada”, explicaram os pais. “Esse deve ser o primeiro carnaval que ele vai lembrar de fato. Porque a gente levou o Pedro em um outro, mas ele era bem pequeno”, complementaram.

O menino se misturou aos foliões usando um gorro do Homem-Aranha, seu super-herói preferido. “Para ele, é uma festa.”