Tecnologia

Fake news: o cerco às mídias sociais aperta fundo

Estudo americano mostra explosão de informação enganosa ao mesmo tempo em que as tech sociais testam sistemas de controle, pressionadas pelo risco de perder audiência e anunciantes

MARGRETHE X MARK A mais temida reguladora da Europa está no pé do CEO do Facebook em busca de uma convivência ideal entre tecnologia e democracia. “As tech devem nos servir”, diz

O grupo Avaaz, plataforma de mobilização social que facilita petições no mundo todo, publicou na semana passada estudo sobre fake news de cunho político no ambiente americano do Facebook que põe em cheque as alegações do CEO Mark Zuckerberg de que a rede estaria empenhada no combate a informações enganosas. Fundada em 2007 pelo grupo de advocacia global Res Publica e pelos ativistas do MoveOn.Org, a ONG Avaaz se debruçou sobre os posts que mais viralizaram no período de 10 meses terminado em 31 de outubro. Depois analisou as 100 principais histórias, postadas mais de 2,3 milhões de vezes. A um ano das eleições americanas, o estudo da Avaaz sobre ataques a políticos na maior rede social do planeta, com mais de 2 bilhões de usuários, traz números assombrosos. Depois do que ocorreu nas eleições americanas de 2016 (a participação russa na criação de mensagens falsas) e da desinformação que incendiou pleitos ao redor do mundo, Brasil incluído, o Facebook e as outras redes sociais ligaram a luz vermelha. E a sirene.

Essa montanha de notícias falsas no Facebook teve quase 160 milhões de visualizações entre os americanos – “Suficiente para chegar a todos os eleitores registrados por pelo menos uma vez”, diz a pesquisa. O político mais atacado, segundo o levantamento da Avaaz, seria Trump (29 milhões de visualizações). No geral, os democratas foram os mais visados – 62% das histórias injuriosas atacavam democratas ou temas caros à esquerda. O ex-presidente Barack Obama, a presidente da Câmara dos Deputados e líder do partido Nancy Pelosi, de 78 anos, o candidato à presidência Joe Biden e as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez e Ilhan Omar aparecem nos posts de notícias falsas mais compartilhados.

A ONG Avaaz se autodefine como “a comunidade de campanhas que leva a voz da sociedade civil para a política global”. Trabalha majoritariamente com temas como direitos humanos, sustentabilidade e igualdade de gêneros. Os comentários publicados no seu portal por alguns dos 20 milhões de membros vão do altruísmo ao nonsense, assinados tanto por arautos da esperança como por profetas do apocalipse.

PRESSÃO GLOBAL As críticas ao Facebook vão além dos Estados Unidos e a culpa pela polarização não recai somente sobre a rede. Também na Europa, Zuckerberg passa por maus lençóis – aliás, ele já disse que 2020 será um “ano duro”. A comissária europeia para a Concorrência, Margrethe Vestager, não sai do seu pé. Na quinta-feira 7, na WebSummit Portugal, maior encontro mundial de empreendedores em tecnologia, ela mostrou mais uma vez por que é a reguladora mais temida pelas big techs dos EUA. “Temos de chegar no nível adequado de ter a democracia enquadrando a tecnologia e dizendo: ‘É assim que (as techs) devem nos servir’. Temos discutido a fundo, no mundo real, o que queremos aceitar e o que não vamos aceitar. Simplesmente não consigo entender por que não é assim no mundo digital.”

O Facebook diz estar fazendo sua parte. Na quarta-feira 13, informou ter eliminado 5,4 bilhões de contas falsas em 2019, número bem superior ao de 2,1 bilhões de contas cortadas no mesmo período do ano passado. Também pressionado, o Twitter anunciou, na segunda-feira 11, que vai seguir limpando a área, depois de ter proibido há duas semanas os anúncios políticos na plataforma. A vice-presidente de Confiança e Segurança, Del Harvey, disse querer conscientizar os usuários sobre compartilhamento de mídias manipuladas. O grande problema agora são os deepfakes, vídeos de cenas falsas com rostos reais – sofisticação tecnológica de alto poder destrutivo e fácil acesso.

Harvey apresentou um resumo das ações que o Twitter planeja adotar quando “mídias sintéticas e manipuladas” forem aplicadas para confundir usuários. A plataforma pode incluir avisos em tuítes que compartilhem esses vídeos e links para notícias que demonstrem a falsidade do material. No ano passado, a tecnologia dos deepfakes atraiu a atenção do Congresso americano: um grupo bipartidário de deputados escreveu pedindo aos legisladores que levassem a sério esse tipo de farsa.

Recursos contra a radicalização vêm sendo testados também pelo Instagram (empresa do Facebook). Há meses, a rede suprimiu em sete países (Brasil inclusive) a visualização de likes no feed. Esta semana começa a testar a manobra nos Estados Unidos. O Facebook, por sua vez, está testando a mesma tática somente na Austrália. Os concorrentes Twitter e Youtube já experimentaram remoção de métricas de engajamento. O que acontece, segundo estudiosos, é que os likes forçam os usuários a construir conteúdo com as mesmas características do post que teve mais engajamento, resultando numa radicalização do ambiente digital, o que torna difícil ter conversas salutares.

Há quem sustente que o modelo de métrica por likes, surgido há 10 anos, está esgotado – especialmente depois do advento de robôs que multiplicam audiência – e por isso as techs estariam buscando outros caminhos. Vale lembrar que esse ambiente tóxico também afasta os anunciantes. E, aí, o buraco é mais embaixo.

O recente relatório Freedom of the Net, da ONG Freedom House, investigou a liberdade na internet em 65 países, cobrindo 87% dos usuários do planeta. A conclusão é pesada: “O futuro da internet depende da nossa habilidade de consertar as mídias sociais”.