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Fábrica de talentos

Em menos de três anos, a Comunidade Empodera se tornou uma das mais vibrantes startups da área de RH, focada em diversidade

Fábrica de talentos

Leizer Vaz Pereira, fundador e CEO, usou sua trajetória de vida como inspiração para o negócio

No dicionário Aurélio, empoderamento é descrito como um substantivo masculino que significa “o ato de conceder poder a si próprio ou a outro”. Este neologismo criado pelo educador brasileiro Paulo Freire, a partir de empowerment, se converteu numa das palavras mais buscadas no Google. Também é parte indissociável do discurso de ativistas dos diretos humanos. Mas para o empreendedor Leizer Vaz Pereira, 43, o neologismo sintetiza seu desejo de transformar a face do capitalismo brasileiro. Pelo menos é isto que ele espera fazer a partir da empresa social Comunidade Empodera, uma das principais consultorias de RH focada em diversidade.

Graças à startup, cerca de 200 jovens ingressaram em empresas de primeira grandeza, como White Martins, Ambev, JP Morgan, Grupo Boticário, Google e Bayer, em processos seletivos de trainees e de primeiro emprego. Para entender melhor essa história é preciso recuar no tempo. Mais precisamente ao mês de junho de 2014, quando o account manager da subsidiária da americana Cisco, no Rio de Janeiro, entrou numa jornada de autoconhecimento. “Estava desmotivado na minha carreira executiva e passando pela crise da meia idade”, conta. “Neste processo, cheguei à conclusão que faltava um propósito maior em minha vida”.

É durante a Conferência Empodera que ocorre a maioria dos processos seletivos. Em três anos, mais de 200 jovens foram recrutados

A inspiração para ingressar na trilha do empreendedorismo foi a sua própria história. Nascido e criado na periferia de Duque de Caxias, o principal município da Região Metropolitana do Rio, Leizer sempre se mostrou um ponto fora da curva. A deficiência do ensino ofertado pela escola pública do bairro era suprida por conta própria. O pai, Seu Luis – que concluiu o primário aos 25 anos, e foi o primeiro da família a obter um diploma superior, em letras – era um grande companheiro nos estudos. O caçula de três irmãos fez curso técnico de eletrônica e se graduou em engenharia de telecomunicações, na CEFET-RJ, em 2002. Com isso, conseguiu ingressar em empresas de ponta, como a Embratel e a chinesa Huawei. “Dei sorte por ter nascido numa família estruturada. Apesar da falta de condições financeiras, nunca nos faltou nada”.

Mas estudar e se preparar para enfrentar o mundo do trabalho não se constituem em garantia de sucesso profissional. Levando-se em conta que competência é piso, a inserção muitas vezes depende de uma boa rede de contatos e de pré-requisitos comuns apenas de herdeiros da burguesia: domínio do inglês e a passagem por instituições de ensino consideradas de primeira linha. Reside aí uma das razões que explicam porque a taxa de desemprego entre os jovens continua sendo o dobro da verificada entre os demais brasileiros. Inclusive entre os cerca de 12,8 milhões de universitários que se graduaram a partir de 2010.

Credenciamento de Conferência Empodera SP

E este quadro é mais perverso para os integrantes da comunidade afro-brasileira e àqueles que vivem nas periferias. Não faltam estatísticas que mostram o enorme fosso social e econômico entre brancos e negros, quer sejam homens ou mulheres. Neste processo de exclusão sistêmica, muitos talentos vão ficando pelo caminho. Foi aí que veio o estalo: por que não ajudar a desenvolver novos Leizer? O primeiro passo neste sentido foi se tornar professor-voluntário no cursinho Educafro, fundado em Caxias por Frei David e pioneiro na preparação de jovens de baixa renda para o vestibular. As aulas de matemática, às quartas-feiras à noite, se estenderam por dois anos. A partir daí o fundador da Comunidade Empodera foi convidado, e aceitou, se tornar coordenador-voluntário do cursinho.

Foi nesta função que, no final de 2015, ele visitou a sede da Coca-Cola Company e da White Martins, interessadas em implantar projetos de diversidade. “Eles esperavam receber um dirigente de ONG, mas se surpreenderam ao deparar com uma pessoa que falava a língua do mundo corporativo”, recorda. Desta interlocução nasceu um processo de troca mútua de aprendizados e experiências sobre o tema.

Platéia na Conferência Empodera SP

Para lançar a Comunidade Empodera, Leizer investiu R$ 400 mil de seu próprio bolso. Os recursos faziam parte do pé-de-meia que ele amealhou ao longo de sua trajetória como executivo e integravam o “colchão de liquidez” montado para bancar as despesas no período de transição para o setor social. A mulher Keiry, a enteada Nauhana, 19 anos, e o filho Kael, 4 anos, lidaram bem com a perda de poder aquisitivo. Segundo Leizer, o apoio da família foi fundamental para que ele pudesse se concentrar no desenvolvimento do negócio.

A curta, e exitosa, trajetória da Comunidade Empodera já dá o que falar. Tanto que a startup foi selecionada no processo de aceleração da Oi Futuro em parceria com a Startup Farm. As ambições, que nunca foram pequenas, assumiram uma dimensão ainda maior. “Queremos triplicar as receitas e posicionar a marca como referência na atração de talentos em iniciativas focadas em diversidade empresarial”, diz. Para isso, Leizer pretende ir além das fronteiras do eixo Rio-São Paulo, expandindo a atuação para as capitais das regiões Sul e Nordeste.

Leizer Vaz Pereira fala durante a conferência

Hoje, o modelo de negócios da consultoria está baseado em uma plataforma de aprendizagem e troca de experiências. Todos os serviços são gratuitos para os jovens e a conta é paga pelas empresas conveniadas e aquelas que demandam serviços avulsos. O ápice dessa interlocução acontece uma vez por ano, durante a Conferência Diversidade Empodera. Na terceira edição, realizada em outubro, em São Paulo, os profissionais de RH tiveram a chance de interagir com 350 jovens devidamente capacitados e treinados, a partir de dinâmicas presenciais e por meio de e-learning.

Como a equipe da startup se limita a nove pessoas, incluindo seu fundador e CEO, muitas das atividades são realizadas com o auxílio de voluntários. Incluindo as mentorias e as aulas online oferecidas para universitários e recém-formados. Na lista de parceiros figuram gigantes do setor de tecnologia, além de expoentes na função de “olheiros”, como o Instituto Ismart e a Fundação Estudar, que têm entre seus fundadores e mantenedores o trio de bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, mais conhecidos como donos da Ambev. Concorrentes? Leizer apressa-se em dizer que não. Na visão do empreendedor que nasceu e cresceu na invisibilizada e empobrecida Baixada Fluminense, quanto mais pessoas estiverem garimpando talentos, melhor. “Quero servir meu país como um olheiro. Não de futebol, mas de talentos que estarão daqui a cinco ou 10 anos com a caneta na mão, comandando grandes empresas e decidindo o futuro do Brasil”, destaca.


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