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Ex-presos políticos são proibidos de deixar Arábia Saudita

A ativista saudita Lujain al Hathlul pode, enfim, desfrutar um piquenique no deserto depois de passar quase três anos na prisão, mas ela não recuperou totalmente a liberdade. Como outros ex-presos políticos, está proibida de deixar a Arábia Saudita.

Lujain al Hathlul e dois ativistas de nacionalidade saudita e americana foram libertados da prisão este mês, no que é visto como um gesto de boa vontade para o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que mais uma vez levantou a questão das violações dos direitos humanos.

A família postou fotos da ativista sorrindo ao lado de uma mesa de piquenique no deserto, alguns dias depois de ter sido libertada da prisão, mas insiste em que Lujain não está livre.

Um tribunal especializado em terrorismo a proibiu de viajar por cinco anos depois de deixá-la em liberdade condicional, o que sua família diz que significa que ela pode ser presa novamente.

Seus pais também não podem viajar para o exterior desde 2018 e, segundo eles, não têm como recorrer à Justiça contra essa restrição.

“Ninguém sabe quem ordenou a proibição de viagens (para a família). Não há expediente, não há notificação oficial”, disse a irmã da ativista, Alia al Hathlul, que mora na Europa.

– “Coleira invisível” –

As autoridades sauditas não responderam às perguntas da AFP sobre quantos cidadãos estão proibidos de viajar para o exterior.

Segundo ativistas, milhares de sauditas são afetados por essa prática, que eles descrevem como uma “coleira invisível” para conter a dissidência.

Segundo eles, a medida é cada vez mais utilizada para atingir parentes de detidos, ou de dissidentes, que vivem no exterior.

“A proibição de viagens é um dos instrumentos de intimidação e pressão do governo saudita”, diz à AFP Abdullah al Awdah, diretor de pesquisas do Democracy for the Arab World Now (DAWN), com sede nos Estados Unidos.

“Muitas vezes é usada para manipular a esfera pública e manter todo mundo sob controle”, aponta o filho de Salman al-Awdah, um clérigo detido desde 2017 por pedir o fim do conflito diplomático com o Catar.

Pelo menos 19 de seus parentes, incluindo uma criança de um ano, estão proibidos de deixar o reino desde 2017 “sem procedimento legal”, de acordo com Abdullah al-Awdah.

Da mesma forma, dezenas de magnatas e membros da família real, como o príncipe bilionário Al Walid bin Talal, não podem viajar após uma campanha “anticorrupção” lançada em 2017, de acordo com várias fontes e ativistas sauditas.

“As autoridades puniram seus parentes, impondo-lhes proibições de viagens arbitrárias, ou congelando seus bens e seu acesso a serviços governamentais”, denunciou a Human Rights Watch em um relatório de 2019.

– “Prisão a céu aberto” –

Simpatizantes do regime consideram que a proibição de viagens se justifica. É uma “medida de precaução legítima”, explica o jurista Dimah Talal Alsharif, em artigo publicado no ano passado no jornal pró-governo Arab News.

“Essa proibição só pode ser imposta por um período determinado e limitado”, alega.

Muitos nem sabem que estão proibidos até serem parados no aeroporto, ou em um posto de fronteira.

“Quando um funcionário me parou no aeroporto, ele me perguntou: ‘Por que você foi proibido de viajar? Você foi para a Tailândia?'”, conta à AFP um professor universitário saudita que não poderá viajar por anos. Sua esposa e três filhos também não.

A Arábia Saudita proíbe seus cidadãos de visitarem a Tailândia, devido a um litígio diplomático de décadas.

“Eu respondi: ‘Não, não sei mais do que você'”, acrescenta.

O professor tentou suspender a proibição, mas diz que as autoridades não responderam. Ele até deletou suas contas nas redes sociais, caso tivesse postado algo que pudesse ter incomodado as autoridades.

“A lógica sombria das proibições de viagens parece ser esta: ‘Por que colocar pessoas na prisão quando você pode aterrorizá-las em uma prisão a céu aberto?'”, estima.

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