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Ex-presidente egípcio é enterrado discretamente no Cairo

Ex-presidente egípcio é enterrado discretamente no Cairo

Mohamed Mursi durante seu processo em 8 de maio de 2014 no Cairo - AFP/Arquivos

O primeiro presidente eleito democraticamente do Egito, Mohamed Mursi, foi enterrado discretamente nesta terça-feira (18), enquanto aumentavam os pedidos por uma investigação sobre as causas de sua morte, depois que ele desmaiou durante uma audiência em um tribunal do Cairo.

A ONU pediu uma investigação “minuciosa e independente” sobre a morte, aos 67 anos, do ex-chefe de Estado islamita de modo súbito depois de passar seis anos na prisão.

“Toda morte repentina na prisão deve ser seguida de uma investigação rápida, imparcial, minuciosa e transparente por um órgão independente para esclarecer a razão do falecimento”, declarou o alto comissário da ONU para os direitos Humanos, Rupert Colville.

“É preciso verificar se as condições de detenção tiveram impacto em sua morte”, considerou.

Mursi foi sepultado nesta terça-feira em Medinat Nasr, um bairro da cidade do Cairo.

“Foi sepultado em Medinat Nasr (…) na presença de sua família. As orações fúnebres ocorreram no hospital da prisão de Tora”, para onde Mursi foi levado após desmaiar no tribunal, disse o advogado Abdelmoneim Abdel Maksud.

O advogado explicou que parentes lavaram o corpo de Mursi e rezaram os últimos ritos na manhã de terça-feira no Hospital Leeman Tora.

O centro médico fica perto da penitenciária na qual o primeiro presidente civil do Egito, uma figura de destaque da Irmandade Muçulmana, ficou preso durante seis anos em regime de isolamento, o que deteriorou sua saúde.

Maksud disse à AFP que o enterro contou com a presença de apenas 10 membros da família e de algumas pessoas muito próximas a Mursi.

Os jornalistas foram impedidos de entrar no cemitério, que fica na mesma área em que aconteceu o maior massacre da história moderna do Egito, a repressão de agosto de 2013 de um protesto islamita na Praça Rabaa, semanas depois da destituição de Mursi pelo exército. Mais de 800 pessoas morreram em apenas um dia.

A imprensa egípcia mencionou nesta terça-feira o tema de forma mínima. Alguns jornais não mencionavam nem mesmo que seu chefe de Estado entre junho de 2012 e julho de 2013.

Em um país onde a oposição é brutalmente reprimida, pouca gente comentava abertamente sobre a morte do ex-chefe de Estado.

A Irmandade Muçulmana da Jordânia organizou uma cerimônia nesta terça-feira na sede do movimento em Amã, onde foi exibido um grande retrato de Murso. Centenas de partidários participaram.

Na Turquia, onde o governo apoia a Irmandade Muçulmana, milhares de pessoas participaram em Istambul de uma oração coletiva em sua memória.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, juntamente com outras autoridades do país, foram vistos entre outros fiéis, em um ato fúnebre na mesquita histórica de Fatih, em Istambul, segundo um fotógrafo da AFP.

Erdogan, aliado do ex-presidente islamita, havia dito dele na véspera que era um “mártir” e culpou os “tiranos” no poder no Egito por sua morte.

– Parada cardíaca –

Mursi, que pertencia ao movimento Irmandade Muçulmana, primeiro presidente eleito democraticamente do Egito, em 2012, destituído em 2013 pelo atual chefe de Estado, o general Abdel Fatah al Sisi, morreu durante uma audiência em um tribunal do Cairo.

Segundo fontes das forças de segurança e judiciais, o ex-presidente depôs no tribunal antes de desmaiar. Ele chegou a ser levado para um hospital, onde faleceu.

A rede de televisão estatal informou que a morte foi causada por parada cardíaca.

“O tribunal concedeu o direito de falar durante cinco minutos. Ele caiu no chão e foi levado rapidamente para o hospital, onde morreu”, afirmou o Ministério Público em um comunicado.

“Chegou a o hospital exatamente às 16H50 e não tinha ferimentos visíveis no corpo”, completa a nota.

Mursi, um engenheiro de 67 anos procedente de uma família de agricultores, foi preso após sua destituição e julgado em vários casos, incluindo um de espionagem em favor do Irã, Catar e grupos militantes, como o Hamas, em Gaza.

Ele também foi acusado de fomentar atos de terrorismo.

– HRW e AI pedem investigação –

A Anistia Internacional (AI) pediu às autoridades egípcias a abertura de uma “investigação imparcial, exaustiva e transparente” sobre a morte.

A Human Rights Watch (HRW) fez o mesmo pedido e afirmou que Mursi sofreu com anos de “acesso insuficiente ao atendimento médico”.

“O Conselho de Direitos Humanos da ONU deveria estabelecer uma investigação sobre as graves violações dos direitos humanos que estão acontecendo no Egito, incluindo os maus-tratos generalizados nas prisões e a morte de Mursi”, afirmou a HRW.

Em março de 2018, um grupo de parlamentares britânicos advertiu que as condições de detenção de Mursi não cumpriam com as normas internacionais e poderiam levar a sua “morte prematura”. Outros líderes da Irmandade Muçulmana também faleceram sob custódia.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan Erdogan, aliado do ex-presidente, imediatamente prestou homenagem ao colega, chamando-o de “mártir”.

“A História não esquecerá dos tiranos que o levaram à morte, prendendo-o e ameaçando executá-lo”, disse Erdogan em um discurso na televisão em Istambul.

E nesta terça, Erdogan participou com outras autoridades do país de um cortejo fúnebre na mesquita de Fatih em Istambul.

O Partido da Liberdade e da Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, também acusou as autoridades egípcias de “lento assassinato”, denunciando as “más condições” de detenção de Mursi.