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EUA tenta manter processo de paz no Afeganistão

EUA tenta manter processo de paz no Afeganistão

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, durante coletiva de imprensa em Washington - AFP


Os Estados Unidos pediram o fim da violência no Afeganistão depois que o acordo histórico com o Talibã foi assinado, além de solicitar a superação dos obstáculos na abertura das negociações de paz interafegãs.

Apesar da piora da situação, o secretário de Estado reafirmou sua confiança nos chefes do grupo islâmico retirado do poder em 2001 por Washington, depois que se negou a romper com a Al Qaeda após os atentados de 11 de setembro.

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“Seguimos pensando que os dirigentes talibãs estão trabalhando para cumprir com o seu compromisso”, disse durante uma coletiva de imprensa no Departamento de Estado, quatro dias depois de ter acompanhado a assinatura do acordo em Doha e cinco dias antes do teórico início das negociações diretas inéditas entre os rebeldes e o governo de Cabul.

O documento prevê que as forças americanas e estrangeiras iniciem de imediato sua retirada progressiva e que todos os soldados tenham deixado o território afegão em até 14 meses, na condição de que os talibãs respeitem seu compromisso com o antiterrorismo e que o diálogo interafegão avance.

Pompeo não negou o aumento de ataques dos talibãs, que levou aos EUA a bombardear suas posições.

“O aumento da violência nas zonas do Afeganistão nos últimos dois dias é inaceitável”, disse.

“A violência deve cessar de imediato para que o acordo de paz possa avançar”, acrescentou.

Após uma semana de “redução da violência”, os talibãs retomaram os ataques contra as forças afegãs.

Os diplomatas americanos esperavam que essa trégua parcial fosse consolidada antes da abertura das negociações interafegãs, previstas para o próximo 10 de março, provavelmente em Oslo.

-“Intercâmbio de prisioneiros” –

Na última segunda, os talibãs anunciaram que retomariam os combates com as forças afegãs, ao mesmo tempo que confirmaram que respeitariam a trégua parcial com o exército americano.

Na quarta, Cabul recebeu 30 ataques talibãs nas últimas 24 horas, nos quais quatro civis e onze membros das forças de segurança morreram.

Os EUA sabiam que “o caminho está cheio de armadilhas”, disse Mike Pompeo. O secretário de Estado reproduziu as palavras do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, que na quarta disse em entrevista à AFP que o processo seria “longo e difícil” e com momentos de “decepção”.

Os EUA têm como objetivo superar cada um dos obstáculos para chegar à pacificação da região. Se a paz não estiver consolidada, o presidente Donald Trump afirmou que não poderia cumprir uma de suas promessas: a retirada das forças americanas da região e o fim da mais longa guerra da história do país, com mais de 18 anos de luta.

Em um evento até então inédito, Trump falou por telefone com o chefe político do Talibã, Abdul Ghani Baradar, e até se vangloriou de ter uma “boa relação” com ele.

Atualmente, o principal obstáculo para o diálogo interafegão é a libertação de prisioneiros prevista no acordo. O documento indica que, antes de 10 de março, deve ocorrer uma troca que pode incluir até cinco mil rebeldes detidos por Cabul e mil prisioneiros mantidos pelos rebeldes.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, cujo governo não participou das negociações em Doha, recusou qualquer possível libertação no último domingo, antes de se sentar à mesa para negociar com o Talibã.

“Todas as partes sabem que é hora de prosseguir para a troca de prisioneiros”, respondeu Pompeo, acrescentando que o seu enviado para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, estava em Cabul nesta quinta, como forma de ultrapassar esses obstáculos.

Por outro lado, Pompeo descreveu como “insensata” a decisão dos juízes do Tribunal Penal Internacional de autorizar uma investigação sobre abusos durante a guerra no Afeganistão, o que poderia incluir possíveis atrocidades cometidas pelas forças americanas.

“Trata-se de uma ação realmente impressionante vinda de uma instituição política irresponsável que se apresenta como um órgão legítimo”, disse ele após a decisão da CPI, em Haia.

“É ainda mais insensato que essa decisão venha à tona alguns dias depois dos Estados Unidos assinarem um acordo histórico de paz no Afeganistão, que é a melhor oportunidade de paz em uma geração”.