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Eu quero seus reais

Gestores de recursos internacionais buscam uma fatia maior dos investimentos brasileiros. Saiba se isso compensa

Eu quero seus reais

O investidor brasileiro é pouco globalizado. Os números mostram isso. No fim de julho, dado mais recente disponível, o total de recursos investidos em fundos “off-shore”, ou seja, localizados fora do País, era de R$ 43 bilhões. Cifra significativa, mas que representa apenas 1% dos R$ 4,24 trilhões do investimento total em fundos, segundo dados da Anbima, associação que representa o setor. Mesmo não considerando o capital investido em empresas e imóveis, o percentual pequeno mostra a exposição pequena aos mercados internacionais. Há várias causas.

Algumas, normativas, como a política deliberada das autoridades, que durante décadas dificultaram os investimentos lá fora para manter aqui o capital. Outras, de mercado. Com juros elevados, era mais interessante investir em ativos brasileiros. Porém, ambas as causas perderam força. As restrições da legislação, como a que exigia que o investidor tivesse R$ 1 milhão aplicado para poder cacifar um fundo dedicado ao mercado externo, deixaram de existir. A queda da taxa Selic para 6,5% ao ano equiparou o ganho real das aplicações com o de suas congêneres internacionais. Por isso, gestores americanos e europeus já contemplam, cobiçosos, o US$ 1 trilhão em recursos aplicados nos fundos e que estão em busca de rentabilidades mais polpudas.

Erik Keller, da gestora holandesa Robeco: “O sistema financeiro internacional está mais resiliente e permite investimentos mais seguros” (Crédito:Claudio Gatti)

Uma delas é a holandesa Robeco, que anunciou, no fim de agosto, um acordo com o BTG Pactual para a distribuição de seus produtos. A gestora administra € 167 bilhões (R$ 808 bilhões) e sua especialidade são fundos de ações e fundos dedicados a títulos de renda fixa de grandes empresas. Segundo Erik Keller, executivo responsável pela gestão dos ativos de crédito, há boas oportunidades à disposição do investidor. Keller avalia que eventos como a aprovação do Brexit em 2016 e a elevação dos juros nos Estados Unidos aumentaram a rentabilidade dos títulos de renda fixa de empresas de primeira linha e dos bancos, e reduziram o risco. “Com as maiores exigências de capital, o sistema financeiro está mais resiliente e permite investimentos mais seguros”, diz ele. Para Keller, haverá um gradativo aumento da volatilidade dos países emergentes devido ao aperto monetário nos Estados Unidos.

Isso deve provocar choro e ranger de dentes nas empresas mais endividadas, criando oportunidades de compra. “E esses ativos, em geral, não são facilmente acessíveis aos investidores individuais brasileiros”, diz ele. A parceria costurada com o BTG Pactual permitirá os investimentos internacionais por meio de um fundo brasileiro, denominado em reais e listado no Brasil, que vai investir 100% dos ativos nos fundos da Robeco. A gestora holandesa não é a única a tentar fisgar os reais brasileiros. Em meados de julho, a americana Oaktree Capital Management também anunciou uma parceria com uma gestora local, a Itajubá Investimentos, para vender fundos com o mesmo perfil. “Buscamos títulos de renda fixa de empresas de primeira linha que estejam pagando remunerações superiores à média do mercado”, diz o gestor Howard Marks, fundador da empresa.

Marks, da Oaktree: oferecendo fundos com títulos de empresas internacionais de primeira linha (Crédito:Divulgação)

Na ponta do lápis, essa aplicação faz sentido. Segundo o empresário Leonardo Freitas, sócio fundador da Hayman-Woodward, especializada em aconselhamento para brasileiros que pretendem investir nos Estados Unidos, é possível obter um retorno ao redor de 3% ao ano, em dólares, investindo US$ 100 mil em um bônus de uma empresa de primeira linha. Essa rentabilidade não é muito diferente dos 2% a 3% acima da inflação obtidos por um investidor brasileiro que compra um papel denominado em reais e que paga juros próximos de 100% da taxa referencial Selic.

Há duas vantagens nessa estratégia. Uma delas é garantir uma aplicação em moeda forte, que tende a se apreciar em relação ao real em momentos de crise. A outra é diversificar. No Brasil, o comportamento dos ativos financeiros costuma ser unidirecional. Quando a situação melhora, dólar e juros caem e as ações sobem. Em momentos mais adversos, o movimento é rigorosamente o contrário. “É difícil montar uma estratégia consistente que vá contra as tendências da macroeconomia”, diz o consultor financeiro independente Fernando Costa. Ele diz que esses investimentos dão um pouco de trabalho na hora de acertar as contas com o Leão, pois é preciso declarar mensalmente os ganhos provenientes da valorização do dólar, que serão tributados assim como o ganho de capital do investimento em si. No entanto, avalia, a diversificação compensa, até mesmo como proteção contra futuros solavancos da economia brasileira.