Ciência

Estudo mostra segurança da terapia com plasma de convalescentes da covid-19

Crédito: Divulgação/Hospital Albert Einstein

Voluntários com covid-19 tratados precocemente, nos primeiros dias após o início dos sintomas, evoluíram melhor do que os que receberam o plasma depois (Crédito: Divulgação/Hospital Albert Einstein)

Cientistas de todo o mundo correm contra o tempo em busca da cura contra a covid-19. Nesta terça-feira (19), a divulgação do resultado de um estudo brasileiro pode trazer uma opção de tratamento contra a doença.

Dados de uma pesquisa feita com 104 portadores de covid-19 indicam que a terapia com plasma sanguíneo de convalescentes da doença é uma alternativa segura e pode trazer benefícios principalmente se aplicada nos dez primeiros dias de sintomas.

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O estudo foi conduzido por pesquisadores dos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês, em colaboração com um grupo do ICB-USP (Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo) e apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo).



“Do ponto de vista da segurança, mostramos se tratar de um procedimento de baixo risco, equivalente ao de qualquer transfusão sanguínea. No que diz respeito aos benefícios, observamos que evoluíram melhor os pacientes tratados mais precocemente. Mas, como foi um estudo de braço único (sem grupo controle tratado com placebo), nossa capacidade para avaliar a eficácia é limitada”, explica o hematologista José Mauro Kutner, docente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e um dos autores do artigo.

O ensaio clínico foi desenhado em março do ano passado, quando ainda se conhecia pouco sobre a covid-19 e a segurança da terapia, desenvolvida em 1891 para o tratamento de difteria e usada experimentalmente em surtos de infecções respiratórias, como gripe H1N1 (2009-2010), síndrome respiratória aguda grave causada pelo SARS-CoV-1 (2003) e síndrome respiratória do Oriente Médio causada pelo MERS-CoV (2012).

O método consiste em transfundir nos doentes um componente do sangue rico em anticorpos contra o patógeno a ser combatido, obtido de doadores que já se recuperaram da infecção. A ideia é que os anticorpos doados ajudem a reduzir a carga viral no organismo, evitando que o quadro se agrave. No Brasil, foi autorizado apenas o uso compassivo ou no âmbito da pesquisa clínica.

Por se tratar de um estudo de braço único, todos os participantes receberam o tratamento, mas em diferentes quantidades e fases da doença. Ao final, os pesquisadores compararam a evolução do quadro nos subgrupos. Foram incluídos apenas voluntários com mais de 18 anos e que apresentavam comprometimento respiratório importante – parte já estava em unidade de terapia intensiva e os demais em vias de serem internados.

“Como esperado, os pacientes com mais idade, os obesos e os portadores de comorbidades evoluíram pior, mas isso não tem relação com o tratamento. O que nos chamou a atenção foi que os voluntários que já apresentavam anticorpos próprios contra o SARS-CoV-2 antes de receberem a transfusão de plasma foram mais beneficiados pela terapia do que aqueles que não tinham anticorpos próprios. Esse achado parece ser inédito na literatura científica”, conta Kutner.

Contrariando as expectativas dos cientistas, os participantes que receberam plasma com concentrações mais altas de anticorpos neutralizantes – um tipo específico capaz de bloquear a infecção das células – não necessariamente evoluíram melhor que os demais.

“O principal achado é que os voluntários tratados precocemente, nos dez primeiros dias após o início dos sintomas, evoluíram melhor do que aqueles que receberam o plasma depois desse período”, comenta Kutner.

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