Se as perspectivas para a economia brasileira fossem anunciadas em formato de previsão do tempo, seria algo como céu nublado, risco de queda de temperatura e com possibilidade de chuva e ventos fortes. A comparação ajuda a exemplificar um estudo capitaneado pelo acadêmico Felipe Monteiro, professor do Insead na França, umas das mais respeitadas escolas de negócios do mundo. Nele é possível ver que o Brasil até avançou em alguns aspectos no cenário mundial, mas ainda patina em questões internas, como reformas estruturantes. O estudo foi coproduzido por Giovana Nahas, Letícia Penna e Victoria Meduna.

O levantamento foi realizado com base em indicadores do Banco Mundial e análises de entrevistas com empresários como Jorge Gerdau (chairman do grupo que leva seu nome), Carlos da Costa (representante do Ministério da Economia do Brasil em Washington), Diogo MacCord (líder da consultoria EY para a América Latina) e o francês Philippe Aghion (economista do College de France e da London School of Economics). A pesquisa Brazil in 2022: A (More) Business Friendly Country? concluiu que o Brasil melhorou muito em microquestões nos últimos anos — como na desburocratização para empresas e no combate ao Custo Brasil —, mas empacou em algumas reformas estruturantes, especialmente na tributária e na administrativa. No quesito ambiental, o País regrediu. “O lado positivo é que o Brasil identificou e reconheceu alguns de seus maiores desafios, o primeiro passo para começar a resolvê-los”, afirmou Felipe Monteiro, em entrevista à DINHEIRO. “A dificuldade em implementar grandes reformas fez com que o País avançasse pouco na melhoria do ambiente de negócios de forma geral.”

Claudio Belli

“É importante para o Brasil consolidar um projeto de esforço estrutural e sustentado em vez de medidas pontuais” Felipe Monteiro Professor da INsead.

A reflexão sobre o que tem dado certo ou errado no Brasil ganhou, na avalição de Monteiro, mais elementos nos últimos meses, com o acirramento dos debates entre os eleitores. Com base nos depoimentos dos participantes do estudo, o modelo econômico mais desejado para o Brasil é um meio termo entre a visão do presidente Jair Bolsonaro, um suposto liberal, e do ex-presidente Lula da Silva, de viés mais estatista. “O melhor dos cenários, do ponto de vista do ambiente de negócios é um governo mais liberal, com programas sociais eficientes e, principalmente, que gere estabilidade e previsibilidade.”

Para ele, o caminho para reduzir a volatilidade da economia e transmitir confiança a empresas e investidores internacionais é transformar planos econômicos em projetos de Estado, não programas de governo, como é hoje. A troca de governo a cada quatro ou oito anos, com idas e vindas para a direita e para a esquerda, cria um clima de dúvidas sobre os rumos econômicos e descontinuidade de iniciativas dos antecessores. “É importante consolidar um projeto de esforço estrutural e sustentado, em vez de um esforço pontual”, afirmou. O aprimoramento dos pilares econômicos do País deve ser fortalecido com a potencial adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), algo que, na avaliação de Monteiro, pode ajudar a avançar na agenda de reformas. Desde 2019, o Brasil aumentou de 81 para 106 os instrumentos (requisitos) para adesão à OCDE.

PONTO POSITIVO Diminuição da burocracia nos processos envolvendo importação e exportação ajudou o microambiente de negógcios no Brasil nos últimos anos. (Crédito:Shutterstock)

REFORMAS Distante dos pessimistas e dos ufanistas está a realidade dos números. E eles não inspiram tanta euforia. No tradicional ranking Doing Business, que mede a competitividade de 140 países, o Brasil despontava na posição 124 em 2019, o dado mais recente do indicador. Pelas projeções do Banco Mundial, o País pode ter avançado para a colocação 90, ainda muito distante do mínimo aceitável. Mas para o sempre otimista Ministério da Economia, pilotado por Paulo Guedes, a estimativa é que o País poderia chegar ao 49º lugar se mais reformas fossem aprovadas e implementadas. Resta esperar para saber se o próximo governo, seja com Lula ou com Bolsonaro, dará andamento às reformas, em vez de apenas valorizá-las. Assim, as perspectivas econômicas deixarão de ser como uma incerta e imprecisa previsão do tempo.