Estatais: entenda por que o lucro extraordinário no último ano não é mérito do governo

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Lucro da Petrobras no ano passado disparou com a alta do dólar, da cotação do petróleo e da demanda internacional. Resultados de petroleiras de fora do País cresceram quase 400% na comparação com 2020 (Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)



Petrobras, Banco do Brasil, Correios e várias outras estatais brasileiras estão bombando: ponto para o presidente Jair Bolsonaro. No passado, elas davam prejuízo: culpa do governo do Lula. Essa retórica é tão distorcida quanto equivocada – e, mesmo assim, tem sido propagada como bandeira pré-eleitoral em um ambiente de Fla-Flu entre “patriotas” e “esquerdistas”. Comparar o lucro de R$ 135 bilhões das 187 empresas da União em 2021, sob o governo Bolsonaro, com os R$ 32 bilhões de prejuízo das estatais em 2015, sob gestão petista, é uma forma mal-intencionada de obter dividendos do dinheiro que não investiu e de tentar colher o que não plantou.

Apesar de ainda não ter divulgado o balanço de 2021 consolidado, o lucro recorde de R$ 75 bilhões da Petrobras de janeiro a setembro do ano passado ficou 44,2% superior ao lucro de R$ 52 bilhões no mesmo período de 2019.  Excelente! No outro lado do mundo, porém, a PetroChina fechou o ano com crescimento de 395% na comparação com o ano anterior. A petrolífera estatal Saudi Aramco, da Arábia Saudita, fechou o ano com lucro de US$ 328,8 bilhões, alta de 45,8% em relação a 2020.

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Com a atual cotação do barril de petróleo a US$ 95 (alta de 375% em dois anos), as produtoras de petróleo em todo o mundo estão surfando nessa maré. Basta olhar para o preço da gasolina ou do diesel nos postos de combustíveis, e para a cotação do dólar acima de R$ 5, para entender a origem da atual exuberância dos números do setor. Em fevereiro de 2020, o petróleo era negociado a US$ 20 o barril.




Os mais apaixonados podem interpretar que a Petrobras é beneficiada pela combinação de dólar alto, petróleo caro e Bolsonaro no governo, mas eles acertam só nos dois primeiros casos. Se olharmos para os Correios, a leitura não é muito diferente. O inédito lucro estimado em R$ 2,5 bilhões no ano passado, o melhor resultado da companhia em mais de uma década, não é resultado da suposta honestidade de Bolsonaro e de seus discípulos palacianos. A estatal que, além de cartas, entrega encomendas em todo o País, multiplicou seus negócios, numa velocidade jamais vista, durante a pandemia. Com o comércio fechado, trabalhadores em home office e isolamento social quase que generalizado, o jeito de tocar a vida foi comprar e vender pela internet. A receita do Mercado Livre, de US$ 6,1 bilhões, ficou 114,3% acima de 2020. DHL, UPS, Fedex… Todas mais do que dobraram de tamanho.

O mesmo vale para o Banco do Brasil. No acumulado de 2021, o lucro líquido chegou a R$ 21 bilhões, crescimento de 51,4%. Com a economia em crise, o banco abriu a torneira do crédito, especialmente para o agronegócio (+15%) e a indústria (+9%). Mais empréstimos, mais crise, mais clientes significam mais retorno sobre o capital. Como comparação, o lucro do Itaú subiu 45% em 2021, com R$ 26,9 bilhões. Já o Bradesco, com alta de 34,7%, lucrou R$ 26,2 bilhões. Bradesco e Itaú não estão, obviamente, sob a gestão do governo federal.

A realidade dos fatos e da história mostra que a atual pujança dos balanços das estatais não tem relação direta com a gestão de Bolsonaro. Nem muito menos com o suposto choque de honestidade da gestão atual. Assim como os prejuízos do passado não podem ser associados apenas à corrupção. Tanto Lula quanto Bolsonaro, cada um a seu modo, fazem mal para as estatais. Ambos pela ingerência e pela incompetência.








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