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“Estamos interagindo menos com as pessoas no mundo real”

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Pai do Orkut: criador da rede social "queridinha dos brasileiros", o turco Orkut Buyukkokten não teme o domínio do Facebook (Crédito: Divulgação)

O turco Orkut Buyukkokten é um dos precursores das redes sociais quando criou, na época em que trabalhava no Google, em 2004, um site que levava o seu nome e permitia que as pessoas se conectassem e compartilhassem opiniões. Dez anos depois, o Google desistiu do Orkut, numa batalha que perdeu para o Facebook, de Mark Zuckerberg. Mas Buyukkokten não desistiu e criou a Hello, sua própria rede social. Nesta entrevista, ele explica como enxerga o atual momento da internet e fala sobre a epidemia de notícias falsas. Confira:

As redes sociais mudaram a forma como utilizamos a internet?
Com certeza. Passamos nelas a maior parte do tempo em que não estamos trabalhando nas redes sociais. A maneira como compartilhamos, interagimos e nos comunicamos mudou tremendamente por conta das relações baseadas nessa tecnologia. A maioria de nós possui smartphones, está conectado o tempo inteiro e interage com outras pessoas em diversas redes sociais. Agora, com os vídeos e as transmissões ao vivo tornando-se cada vez mais populares, estamos começando a ver uma nova mudança na maneira em que utilizamos a internet.

O senhor chegou a afirmar que as redes sociais incentivavam um comportamento cada vez mais narcisista. Mantém essa opinião?
Com certeza. As redes sociais trouxeram muita ansiedade, solidão, depressão e isolamento às nossas vidas. Estamos interagindo menos com as pessoas no mundo real. Nos preocupamos mais com o que o mundo quer ver de nós, do que o que realmente somos. As redes sociais não foram desenvolvidas para nos ajudar a nos aproximar de forma significativa uns dos outros, mesmo com o grande tempo que passamos conectados. Elas precisam criar conexões que fortaleçam nossas amizades e nos ajudem a conhecer outras pessoas que possuem algum interesse em comum conosco. Devem nos inspirar a explorar o mundo.

A sua rede social, a Hello, é diferente?
Percebi que as redes sociais precisavam de uma mudança. A missão da Hello não é apenas conectar o usuário a pessoas que ele já conhece, mas facilitar a criação de novas conexões baseadas em interesses mútuos. A Hello nasceu com uma proposta diferente de outras redes, como o Facebook.

Um dos grandes desafios das redes sociais nos últimos anos tem sido o combate à disseminação de notícias falsas. Como o senhor enxerga essa luta?
As notícias falsas costumam viralizar por conta dos usuários que as compartilham em razão de títulos sensacionalistas ou agressivos, que têm o objetivo de conseguir mais cliques. Tornar as conexões sociais mais autênticas e não conduzidas por métricas de vaidade poderia ser uma forma de resolver esse problema. Um algoritmo gerado por computador não é tão capaz de distinguir realidade de ficção como um humano. Mas os humanos, sem o acesso às tecnologias, também não conseguem resolver essa propagação. A solução é combinar a percepção humana com a velocidade dos algoritmos.

Como as redes sociais podem impedir que os discursos de ódio se disseminem?
É preciso ponderar o que é liberdade de expressão. O importante é promover uma comunidade que tenha bons valores, autenticidade, compaixão e amor. Para isso, é necessário que as redes ofereçam ferramentas para que seus usuários lidem com conteúdos indesejados.

As gigantes do Vale do Silício estão investindo em novas tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas e realidade virtual. Esse é o caminho?
Essas tecnologias permitem a criação de serviços que não existiam. Os computadores estão aprendendo a processar dados de uma maneira que eles possam nos ajudar a obter mais informações. Isso acarreta na evolução da sociedade.