Entrevista

Humberto Casagrande, superintendente-geral do CIEE

Estagiários e aprendizes dão um novo gás aos funcionários mais velhos

Divulgação

Estagiários e aprendizes dão um novo gás aos funcionários mais velhos

Com 35 mil clientes e mais de 5 milhões de jovens já preparados para o mercado de trabalho, o Centro de Integração Empresa-Escola presta um serviço fundamental para o País — onde é cada vez mais difícil conseguir o primeiro emprego. Agora, o CIEE utiliza Inteligência Artificial para seguir evoluindo

Klester Cavalcanti
Edição 25/11/2019 - nº 1148

Pode-se dizer que o engenheiro Humberto Casagrande, 61 anos, coordena uma instituição sem fins lucrativos, cuja missão é auxiliar na formação de jovens e adolescentes do Brasil e inseri-los no mercado de trabalho. Também seria correto afirmar que Casagrande dirige uma empresa com 3 mil funcionários, uma cartela de 35 mil clientes — entre os quais gigantes como Bradesco, Magazine Luiza e Souza Cruz, além de diversos órgãos públicos —, que já beneficiou mais de 5 milhões de pessoas e deve fechar 2019 com receita líquida de R$ 320 milhões, cerca de 10% acima do resultado do ano passado. Paulista de Dois Córregos, cidade com cerca de 30 mil habitantes, Casagrande ocupa, há dois anos, o cargo de superintendente-geral do Centro de Integração Empresa-Escola (CIIE), mas já atua na instituição há 16 anos. Em entrevista à DINHEIRO, ele destaca a importância social do CIEE, que completará 56 anos em fevereiro e auxilia principalmente jovens carentes a conseguir algum tipo de qualificação profissional e uma vaga de trabalho. A seguir, fala das carreiras do futuro, de como as novas tecnologias influem nas profissões, da carência do mercado nacional por gente qualificada e conta que reinveste toda a sua receita em programas do próprio CIEE. “Como não temos acionistas, não precisamos pagar dividendos a investidores. Gosto de dizer que pagamos dividendos sociais ao País”, diz. “Nossos acionistas são os cidadãos brasileiros.”

DINHEIRO — O CIEE é uma instituição sem fins lucrativos, mas que faz mais dinheiro do que muitas empresas. Como vocês geram receita?

HUMBERTO CASAGRANDE – Nós andamos com nossas próprias pernas. Não recebemos doações de empresas, subsídios do governo nem colaboração de entidades patronais. Este ano, devemos chegar a R$ 320 milhões de receita líquida, cerca de 10% a mais do que no ano passado. Algumas pessoas pensam que somos ligados ao chamado Sistema S (que inclui, entre outras entidades, Senai, Senac e Sesc) ou que recebemos ajuda do governo. Isso não existe. Somos uma instituição totalmente independente. Nossas receitas vêm dos nossos dois programas: o de Estagiários, para universitários, sem limite de idade; e o de Aprendizes, para jovens de 14 a 24 anos, mas que não podem estar na universidade. Quando uma empresa contrata um estagiário nosso, ela paga uma bolsa a esse jovem (que pode ir de R$ 500 a R$ 2.500 por mês) e nos paga uma taxa mensal de R$ 90. No caso do aprendiz, funciona da mesma forma, só que os valores são outros, porque esse é um programa de formação mais complexa, com salas de aula, professores, transporte, material didático próprio. Para o programa Aprendiz, o jovem recebe salário mínimo e a taxa mensal que a empresa paga ao CIEE fica em torno de R$ 200. E ambos os contratos, de estágio e de aprendiz, têm dois anos de duração. Eu sempre digo que somos uma instituição de alma beneficente e mente empresarial. Precisamos fazer dinheiro para continuar ajudando os jovens e adolescentes do Brasil.

DINHEIRO — Além do valor pago ao CIEE, quais outras diferenças há entre o programa de estagiários e o de aprendizes?

CASAGRANDE – O estagiário recebe uma bolsa, trabalha por um dado número de horas e não tem os direitos trabalhistas previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Já o aprendiz é contratado como funcionário e tem todos os direitos assegurados pela CLT. Trabalha seis horas por dia e recebe 13º, férias, FGTS. Para a empresa, a grande vantagem é que o aprendiz, por lei, tem encargos sociais reduzidos. O Fundo de Garantia, que para os empregados em geral é de 8%, para o aprendiz é de 2%. Resumindo, a empresa contrata um profissional que custa menos. Em ambos os casos, é um excelente negócio para a empresa, já que tanto estagiários quanto aprendizes são jovens muito dedicados ao trabalho, ávidos por serem contratatos após o período de dois anos do contrato. Como muitos desses jovens e adolescentes são de origem humilde, em situação de vulnerabilidade social, eles enxergam essa oportunidade como algo muito precioso, uma chance rara de conseguir o primeiro emprego, que é algo cada vez mais difícil no Brasil.

DINHEIRO — Nesses 16 anos em que o senhor está no CIEE, que mudanças conseguiu perceber na postura desses jovens e das empresas?

CASAGRANDE – Os estagiários e aprendizes estão cada vez mais empenhados em mostrar serviço, são mais voluntariosos, têm atitude. Há 20 anos, esses garotos e garotas aceitavam fazer qualquer coisa dentro das empresas, até servir cafezinho. Isso não existe mais. Eles querem conhecer a empresa, colaborar de verdade, saber o que a companhia espera deles e que planos tem para eles. Outra coisa muito interessante é a mudança que esses jovens provocam dentro da empresa. Recebemos feedback de muitos dos nossos clientes afirmando que a presença desses jovens no ambiente de trabalho produz um novo ânimo na equipe, dá um novo gás aos mais velhos. Fica evidente que nossos programas não geram benefícios apenas aos estagiários e aprendizes, mas também às empresas.

“Todos os estagiários do Supremo Tribunal Federal saíram do CIEE. Há até uma brincadeira nos corredores da corte, de que sem os nossos estagiários o STF pararia” (Crédito:Gervásio Baptista/SCO/STF)

DINHEIRO — Para chegar a uma receita líquida anual de R$ 320 milhões, vocês devem ter uma cartela bastante sólida de clientes.

CASAGRANDE – Sim. Hoje, temos cerca de 35 mil clientes, desde empresas imensas, como Bradesco, Itaú, Magazine Luiza, Pão de Açúcar e Souza Cruz, a firmas pequenas, com uma dúzia de funcionários, e órgãos públicos. Além disso, temos 3 mil instituições de ensino cadastradas. Ao todo, são 320 mil jovens atualmente beneficiados pelo CIEE, sendo 220 mil estagiários e 100 mil aprendizes. Nos nossos quase 56 anos de atuação, já formamos cerca de 5 milhões de pessoas. Então, mesmo sendo pequenos os valores individuais pagos ao CIEE pelas empresas por jovem, como o número total de estagiários e aprendizes é muito grande, nossa receita fica significativa. Para você ter uma ideia, nosso maior cliente na iniciativa privada é o Itaú, que possui quase 5 mil jovens — entre estagiários e aprendizes — contratados pelo CIEE. Na esfera pública, nosso principal contratante é a Prefeitura de São Paulo, com 6 mil estagiários. No Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, todos os estagiários saíram do CIEE. Há até uma brincadeira que o pessoal faz nos corredores do Supremo, de que sem os nossos estagiários o STF pararia (risos).

DINHEIRO — E o que o CIEE, uma instituição sem fins lucrativos, faz com todo esse dinheiro?

CASAGRANDE – Toda a nossa receita é investida no próprio CIEE. Temos de pagar os salários dos nossos 3 mil funcionários, manter nossas 52 unidades por todo o Brasil, fazer investimentos em novas tecnologias e equipamentos. Apenas com as nossas instalações, gastamos quase R$ 30 milhões por ano, com aluguel, segurança, limpeza, água, energia. Nosso maior objetivo é atender melhor aos jovens que buscam formação profissional e uma vaga no mercado de trabalho e melhorar o serviço que oferecemos à sociedade e aos nossos clientes. Investimos na formação das nossas equipes, na melhoria das nossas estruturas e dos cursos que ministramos, na automação de processos, em programas sociais. Hoje, por exemplo, nós damos aula de português a refugiados de várias partes do mundo. Temos um núcleo de cidadania, no centro de São Paulo, no qual atendemos a refugiados de 21 nacionalidades. Além disso, oferecemos assistência jurídica à população carente, realizamos oficinas de arte para jovens e adultos. E tudo gratuito. Como não temos acionistas, não precisamos pagar dividendos a investidores. Daí, podemos aplicar toda a nossa receita em benefício das pessoas mais necessitadas. Gosto de dizer que pagamos dividendos sociais. Nossos acionistas são todos os cidadãos brasileiros.

DINHEIRO — Quais os índices de empregabilidade dos jovens e adolescentes formados pelo CIEE e encaminhados às empresas?

CASAGRANDE – Temos ótimos resultados nesse sentido. Para você ter ideia, quase 100% dos nossos aprendizes chegam aqui com o perfil do que chamamos de “nem-nem”: nem trabalha, nem estuda. Fizemos uma pesquisa com o DataFolha que mostrou que 76% desses jovens e adolescentes, ao concluir o nosso programa, estão estudando ou trabalhando ou até mesmo fazendo as duas coisas. É algo realmente transformador na vida desses garotos. E sobre empregabilidade, 58% dos nossos estagiários e 53% dos aprendizes terminam o curso empregados. Outro dado interessante é que 25% dos estagiários são contratados pela própria empresa onde fizeram o estágio.

DINHEIRO — O senhor falou em automação e em novas tecnologias. Como o CIEE tem utilizado as ferramentas tecnológicas?

CASAGRANDE – A tecnologia chegou com uma força devastadora. Quem não souber usar com inteligência, vai ficar de fora. E nós não somos exceção. No CIEE, tínhamos um processo em que uma funcionária levava três dias, por mês, para fazer a conciliação bancária das nossas contas, calculando tudo. Hoje, utilizamos um programa de Inteligência Artificial (IA) que faz toda essa tarefa em 40 minutos e sem nenhuma possibilidade de erro. Além de otimizar esse trabalho, nossa funcionária ganhou três horas mensais para realizar outras funções. Outra coisa muito importante foi como a tecnologia mudou nossa forma de atendimento. No passado, 80% dos nossos atendimentos eram feitos de forma presencial. O jovem tinha de ir a alguma unidade nossa, pegar senha, esperar na fila. Hoje, isso mudou completamente. Agora, apenas 20% dos nossos atendimentos são feitos presencialmente e 80% são realizados pela internet. O jovem só precisa entrar no nosso site e preencher o cadastro. Nesse mesmo sistema, o candidato informa suas habilidades técnicas e humanas, as chamadas hard skills e soft skills. A partir desses dados, o programa de IA indica a pessoa certa para determinada vaga de trabalho, de acordo com suas competências, se é um jovem mais ou menos audacioso, se tem espírito empreendedor, se tem atitude propositiva.

DINHEIRO — Nos últimos anos, que profissões o senhor percebeu que perderam espaço e quais as que ganharam força?

CASAGRANDE – Com as novas tecnologias, profissões que envolvem atividades repetitivas ou que podem ser executadas por robôs ou Inteligência Artificial (IA) tendem a acabar. Podemos citar como exemplos operários de linhas de montagem, professores de línguas, bancários. Hoje, já há programas de IA capazes de ensinar idiomas. No passado oferecíamos o curso de embalador. Não temos mais. Na Amazon e em muitas outras empresas, todos os produtos são embalados por robôs. Há 30 anos, o Brasil tinha 1 milhão de bancários. Hoje, são 250 mil. Até em profissões da área de Humanas a IA está sendo utilizada. No Direito, já há programas que decidem pequenas petições, com base em precedentes, sem a necessidade de levar o assunto a um advogado. Por outro lado, tudo o que tem a ver com informática está em alta.

DINHEIRO — E o Brasil está preparado para atender a essa demanda?

CASAGRANDE – Infelizmente, não. Recentemente, recebi a informação de que há 15 mil vagas de trabalho para programador de computação na linguagem Java e não há gente qualificada. Com mais de 12 milhões de desempregados no Brasil, há 15 mil excelentes postos de trabalho em aberto, mas não temos pessoal para preencher. E olha que nosso estágio em Ciência da Computação é um dos mais procurados! Por outro lado, Direito é uma área que segue muito forte. Dos nossos 220 mil estagiários, 50 mil (23%) são de Direito, porque ainda há a ideia de ser uma carreira promissora e que paga bem. Outro setor em alta é o agronegócio. Este ano, montamos um novo módulo de cursos especialmente para profissões do segmento agro e que está indo muito bem, superando todas as nossas expectativas. Também estamos registrando alta na busca por cursos de programação de computador e engenharias. Ocorre que a maioria dos jovens ainda prefere áreas tidas como mais humanas e amigáveis, como Marketing, Ciências Sociais e Relações Internacionais. O fato é que muitas profissões estão desaparecendo e muitas outras ainda vão surgir. E nós precisamos estar sempre atentos a esses movimentos.

DINHEIRO — Quais são as metas do CIEE para os próximos anos?

CASAGRANDE – Meu maior sonhor é poder atender a todos os jovens brasileiros que precisam simplesmente de uma oportunidade para se capacitar ao mercado de trabalho. Mesmo com todo o esforço que temos empenhado, ainda há 3 milhões de jovens na fila de espera por uma chance. E esse não é um número estimado. É um dado concreto. Temos 3 milhões de jovens e adolescentes devidamente cadastrados no nosso sistema, com nome, endereço e CPF. Em outras palavras, podemos dizer que hoje o CIEE atende a apenas 10% da demanda nacional. Meu grande objetivo é conseguir atender a toda essa garotada. Mas isso só será possível, obviamente, se houver emprego para toda essa gente. E para isso, o Brasil precisa retomar o crescimento econômico e voltar a gerar vagas de trabalho.

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