Economia

Estados unidos contra a crise

Em um momento ímpar da história econômica brasileira, governadores se articulam para superar a ausência de comando do governo federal e somam esforços para garantir a retomada.

Crédito: Evandro Rodrigues

TERRA À VISTA Governadores Wellington Dias (Piauí), Romeu Zema (Minas Gerais) e João Doria (São Paulo) fazem planos para uma saída sensata, e conjunta, da crise que assola o País. (Crédito: Evandro Rodrigues)

Durante a campanha eleitoral de 2018, um dos bordões mais proferidos pelo então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro era “mais Brasil, menos Brasília”. A promessa vem se cumprindo, mas muito mais pela incapacidade de sua gestão, que insiste em isolar a capital federal das decisões que de fato importam para permitir a retomada da economia. Não bastasse o descompasso entre os discursos do presidente e dos governadores, Bolsonaro tenta colocar nas costas dos mandatários estaduais a conta da recessão econômica, exigindo que a reposta deles venha rápida, e uníssona. Para surpresa do presidente, ela virá. Antes do que ele supunha. Um comitê de governadores começou a pensar soluções conjuntas para reativar a economia. Entre elas estão as reformas tributárias estaduais, a diminuição da folha de pagamento de servidores e estímulo a geração de emprego – tudo sem a interferência direta da União.

Até pouco tempo, os governadores corriam, cada um a seu modo, para controlar a pandemia da Covid-19 e minimizar os efeitos devastadores que ela impõe sobre as economias locais. Ao mesmo tempo em que andavam nessa corda bamba, os governadores ainda eram alvos preferenciais do presidente. No começo de setembro, ele chegou a dizer a apoiadores em Brasília que os governadores que impuseram isolamento eram “projetos de ditadores nanicos”. Com esse discurso, o presidente Bolsonaro tenta se eximir de duas contas de sua esfera: a das vidas perdidas e a do PIB recessivo.

Na linha de frente na oposição estadual a Bolsonaro aparece o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Defensor do isolamento social e gerenciando o estado com maior número de casos confirmados e mortes por Covid-19 (até 23 de setembro eram 945 mil infectados e 34,2 mil óbitos), Doria tem se mostrado habilidoso no equilíbrio entre saúde e economia. Boa parte disso em função da proximidade com prefeitos e com a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com quem negocia uma reforma tributária estadual e redução no número de servidores. Na saúde, São Paulo também deve ser pioneiro no recebimento da vacina da Covid-19. Na quarta-feira (23), Doria confirmou um aporte de
R$ 80 milhões do governo federal para construção da fábrica que produzirá a Coronavac no Brasil. O valor, no entanto, representa apenas 4% do total orçado para o pátio fabril, que gira em torno de R$ 1,9 bilhão. Ao agradecer o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, pela liberação dos recursos, Doria aproveitou para cutucar o presidente. “Agradeço ao ministro por ter uma visão que não é vinculada a nenhuma questão partidária, política ou ideológica. Como deve ser.”

“Os governadores e prefeitos que falam sobre isolamento social e querem deixar a população em casa não passam de ditadores nanicos” Jair Bolsonaro Presidente da Repúplica.

SOLUÇÕES CONJUNTAS Sem um projeto claro de retomada por parte da União, os governadores, principalmente dos estados com menor capacidade de arrecadação ou com fortes problemas fiscais, começaram a pensar em soluções conjuntas com seus pares. O objetivo é trocar projetos, experiências e unificar discursos. No dia 20 de setembro, o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), deu início a esse flerte conjunto. De acordo com ele é chegada a hora de os governadores pensarem em uma rota de saída da crise que dialogue com estados e municípios, além do setor privado, o Congresso Nacional e, “posteriormente, com o governo federal”.

Para Dias, hoje o País não possui um plano que envolva os entes públicos e privados. “Quando acabar o auxílio para que as empresas complementem o salário de seus empregados, o País pode enfrentar uma onda de desemprego. Precisamos pensar no dia seguinte da pandemia.” Segundo o petista, diferentemente do que o presidente afirma, nunca houve pedido para que a União “sustente” os estados e municípios. “Mas é nítida a falta de um plano anticíclico e permanente para incentivar a iniciativa privada a investir”, afirmou Dias.

Opinião similar é partilhada por João Doria, que credita parte da evasão do capital de investimento (principalmente o estrangeiro) no Brasil a “questões ambientais e do negacionismo”. Segundo dados do Tesouro Nacional, entre 2017 e 2020 a participação dos agentes externos nos títulos de dívida pública caiu de 18,8% para 9%. “Parte da queda desses investimentos é a falta de cuidado e de atenção com as questões ambientais e infelizmente também com as questões relativas à saúde e à proteção de uma nação contra a Covid-19”, disse o governador.

Tentando organizar a casa sem esperar o governo federal, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também tem agido sozinho, mas é um dos que seriam beneficiados com a aproximação dos entes federativos. Na primeira semana de setembro o governador lançou o Avança Minas, projeto que visa, entre outras medidas, atrair investimento para o estado por meio de desburocratização e simplificação tributária. “Não vamos mais deixar aquele empreendedor que quer investir aguardando meses ou anos para ser analisado”, disse.

Na avaliação do governador mineiro, não crítico a Bolsonaro, o estado precisa se movimentar pensando no pós-pandemia e isso envolve diálogo com todos. “Tentamos falar com o governo federal, com governadores e prefeitos. Estamos todos no mesmo barco”, afirmou. Talvez os governadores e prefeitos estejam no mesmo barco, mas Bolsonaro prefere seguir no bote salva-vidas dizendo que a culpa do naufrágio é de quem ficou na embarcação que afundava.

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