Artigo

Estado versus Google

Na tarde de segunda-feira, as ações da Alphabet Inc, a empresa sobre as marcas Google e YouTube, fecharam a US$ 1.534,61. Depois de 48 horas, eram vendidas a US$ 1.593,31. Valorização de 3,8%. No ano, a alta bate 12%.

Crédito: Evandro Rodrigues

Há várias maneiras de ler a disputa que começa entre o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o Google. Olhar os números me parece a mais precisa delas. E aqui se faz necessário um disclaimer, patrocinado por Fernando Pessoa: “Navegar é preciso”. Por isso é emblemático que o preço dos papeis tenha subido nos dois dias seguintes ao mais contundente ataque em sua história de apenas 22 anos. Perguntar por que o Google incomoda é saber que o Google incomoda. A questão crucial é: quem ele incomoda.

Para o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, “o Google é hoje o porteiro do monopólio da internet e uma das empresas mais ricas do planeta”. Ser rico não deveria ser motivo de queixa, em especial de uma instituição americana, mas vivemos tempos irônicos e de sinais trocados. Sobre o monopólio, a empresa respondeu dizendo que o processo é falho e “as pessoas usam o Google porque querem, não porque são forçadas ou não conseguem encontrar alternativas”. Isso é um fato. Pelo menos 90% do mercado de buscas na web é dominado pela corporação, mas qualquer ser humano fora da China pode recorrer ao Bing (Microsoft) ou ao serviço similar do Yahoo (que desde o ano passado é da Verizon), só para citar dois buscadores de outros gigantes.

Um mergulho aos números dá as pistas. As receitas totais do grupo em 2019 (Busca, YouTube, Cloud) somaram US$ 161,8 bilhões. Dois anos antes, em 2017, eram de US$ 110,8 bilhões. Em 2010, de US$ 29,3 bilhões. Crescer 46% entre dois anos ou 450% em uma década é para poucos. A empresa hoje vale acima de US$ 1 trilhão. Isso dá 40% mais que o valor de mercado das 339 empresas listadas na brasileira B3 em setembro (US$ 711 bilhões). As receitas anuais do grupo Alphabet ficam acima do PIB de 140 países. Um posto acima da Hungria. No YouTube, há pelo menos 2 bilhões de usuários por mês – maior população do planeta –, que sobem 500 horas de vídeos a cada 60 segundos e ficam na plataforma mais de 11 minutos por dia, em média. E 70% do que assistem vem de recomendações algorítmicas de Inteligência Artificial do próprio YouTube. É muito poder. E tudo concentrado.

Em sua defesa, a Alphabet diz que apenas no ano passado o investimento em P&D foi de US$ 26 bilhões, “financiamento que foi direcionado a melhorias de produtos e garantindo que os Estados Unidos liderassem o mundo em tecnologias de ponta, incluindo carros autônomos, aprendizado de máquina e computação quântica”. Além disso, “as ferramentas Google ajudaram empresas americanas a vender produtos e serviços ao redor do mundo, movimentando mais de US$ 385 bilhões”. Em outras palavras, a companhia diz que produz conhecimento e movimenta a economia, como Washington.



O que incomoda os Estados Unidos – assim como ocorreu na Europa – é que o Google parece um Estado. Desde que começaram a ser caracterizados os estados modernos (há 500 anos) e suas versões contemporâneas (de 200 anos para cá), quatro dispositivos são inegociáveis: um só poder, um só exército, uma só moeda, um só arrecadador de impostos. Mas ninguém previa que o planeta internet nasceria. E nele o monopólio ocupa outros gabinetes. A discussão não é sobre a legalidade do modus operandi Google. O que se discute é sua legitimidade. O Estado Google ameaça a essência (ser dono de todos os monopólios) do Estado americano. Essa é a briga. Viver, decididamente, não é preciso.

* Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO

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