Economia

Especialistas recebem com ceticismo anúncio saudita de neutralidade de carbono

Especialistas recebem com ceticismo anúncio saudita de neutralidade de carbono

Plantas da gigante petroleira Aramco em Dhahran, leste da Arábia Saudita, em 11 de fevereiro de 2018 - Saudi Aramco/AFP/Arquivos

A promessa da Arábia Saudita de alcançar a neutralidade de carbono até 2060 gerou ceticismo em especialistas e organizações ambientalistas, que consideram que este objetivo só poderá ser alcançado se o reino eliminar progressivamente o uso de energias fósseis.



Segundo a organização ecologista Greenpeace, o fato de o príncipe-herdeiro saudita, Mohamed bin Salmán, fazer este anúncio no sábado não é um acaso, por ter ocorrido praticamente uma semana antes do início da COP26, em Glasgow (Escócia).

Embora Riade demonstre certas ambições ecológicas, continua sendo o maior produtor mundial de petróleo e não tem a intenção de diminuir suas exportações petrolíferas.

A gigante petroleira Aramco expressou este mês o desejo de aumentar sua capacidade produtiva de 12 para 13 milhões de barris até 2027.

“Duvidamos seriamente deste anúncio (no sábado), pois ao mesmo tempo o reino tem a intenção de incrementar sua produção de petróleo”, explicou à AFP Ahmad al Drubi, encarregado do Greenpeace na região do Magreb e do Oriente Médio.



– Uma “manobra” antes da COP26 –

A promessa saudita “parece ser só uma manobra estratégica para diminuir a pressão política frente à COP26”, a edição deste ano da conferência climática da ONU, celebrada no Reino Unido, acrescentou.

A Arábia Saudita não é o único país do Golfo que prometeu uma conversão verde nas últimas semanas.

Em 8 de outubro, os Emirados Árabes Unidos, aliados de Riade, anunciaram buscar a neutralidade de carbono até 2050, enquanto o Bahrein anunciou neste domingo que quer alcançar o mesmo objetivo até 2060.

O reino saudita não só usa petróleo e gás para atender à sua demanda de eletricidade, como também para dessalinizar água.

Com uma população de 34 milhões de habitantes, o país emite anualmente 600 milhões de toneladas de CO2, um número superior às emissões da França, que tem quase o dobro dos habitantes.

Bin Salman prometeu em várias ocasiões nos últimos anos que reduziria a dependência do ouro negro de seu país.

Mas estes planos foram dificultados pela pandemia de covid-19 e a queda do preço do petróleo, que continua representando 70% das exportações da monarquia waabita.

– “Aumentar seus esforços” –

As autoridades sauditas “deveriam aumentar seus esforços em relação à descarbonização do setor energético”, disse à AFP Ben Cahill, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

“A combustão direta do petróleo cru na produção de energia deveria ser progressivamente eliminada e as energias renováveis deveriam substituir progressivamente o gás”, acrescentou.

Segundo a BBC, um importante vazamento de documentos revelou que vários países, como Arábia Saudita e Japão, pediram às Nações Unidas que minimizassem a necessidade de reduzir rapidamente o uso de energias fósseis.

Durante sua intervenção no sábado, Bin Salman disse que queria investir “em novas fontes de energia, como o hidrogênio”.

Mas, segundo Al Drubi, do Greenpeace, o hidrogênio “mantém o statos quo de dependência em energias fósseis”, necessárias para a produção deste tipo de energia.

“Sinto-me honrado em anunciar estas iniciativas no setor energético, que reduzirão as emissões de carbono em 278 milhões de toneladas anuais até 2030, o que praticamente dobra os nossos objetivos anunciados até agora”, afirmou o príncipe-herdeiro.

Ele também prometeu plantar 450 milhões de árvores.

Mas não informou como tornaria realidade esta promessa em um país majoritariamente desértico.


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