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Esfriamento global

Sinais econômicos americanos mostram que o crescimento está perdendo o ritmo e isso pode, indiretamente, beneficiar os países emergentes

Crédito: Chris Hondros/Getty Images/AFP

Touro em Wall Street: confiança do consumidor e criação de empregos estão abaixo das expectativas (Crédito: Chris Hondros/Getty Images/AFP)

Um levantamento entre os profissionais de mercado dos Estados Unidos mostra que há poucas dúvidas sobre o que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) vai fazer na reunião marcada para o dia 18 de setembro. Segundo os entrevistados, há 91% de probabilidade que Jerome Powell, presidente do Fed, corte novamente os juros nos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual. Em outras pesquisas, os profissionais de mercado acreditam que os juros deverão estar entre 1% e 1,75% ao ano em março do ano que vem. Atualmente, a taxa média de juros está na faixa entre 2% e 2,25% ao ano.

Tanta certeza de corte nos juros está baseada nos sinais crescentes de que a economia americana está esfriando mais depressa do que se imaginava. Semana após semana, os indicadores da economia real dos Estados Unidos mostram uma lenta e gradual desaceleração.

Indicadores de expectativas do consumidor, que são importantes para mostrar quanto os compradores estão dispostos a abrir as carteiras no futuro, vieram pior do que o esperado. O dado mais recente, relativo a Michigan, um estado americano menos importante, mostrou que a expectativa do consumidor de agosto havia caído para 79,9, ante 82,3 em julho. As expectativas eram de que a taxa permaneceria inalterada.

Powell, do Fed: expectativa de corte de juros é de 91% (Crédito:Takanori Yamamoto)

A expectativa do consumidor é um clássico indicador antecedente, ou seja, ele mostra o que se espera que aconteça, sem garantir que vá ocorrer de fato. Porém, os indicadores mais tradicionais, que revelam o que já ocorreu, vão na mesma toada. Em agosto, o Departamento do Trabalho anunciou que haviam sido criados 130 mil novos empregos, abaixo dos 150 mil novos empregos esperados, um resultado 13% inferior à expectativa. “Na média, a economia americana criou 158 mil novos empregos por mês neste ano, ante 223 mil no mesmo período de 2018”, diz o gestor de recursos americano Victor Dergunov, fundador da gestora Albright Investment Group. Dergunov avalia que mesmo esse número tem de ser visto com uma parcela adicional de cautela. Segundo ele, muitas das vagas abertas foram para trabalhos de meio período ou de baixa qualificação. Além disso, 34 mil vagas foram abertas pelo governo. “O setor privado criou apenas 96 mil empregos, o número mais baixo desde fevereiro”, diz ele. “Tudo isso mostra que há sinais cada vez mais claros de desaceleração da economia à frente.”

CHINA Segundo o gestor Avi Gilbert, especializado em administrar carteiras de renda fixa, a confiança do consumidor pode estar chegando ao fim. Parte dessa mudança de humor é provocada pelo aumento dos preços dos produtos chineses. Além das tarifas comerciais, a elevação dos preços pressiona a inflação e reduz o espaço para o Fed baixar os juros. E há um efeito colateral ainda mais adverso. Os americanos estão bastante endividados. “A dívida do consumidor, sem considerar hipotecas, está agora em um nível histórico, superior a US $ 4 trilhões, o que parece ser uma bomba-relógio”, diz Gilbert. Somando-se o total devido em hipotecas e os demais financiamentos imobiliários, somam-se US$ 9,4 trilhões a esse passivo. Com quase US$ 14 trilhões a pagar, os consumidores americanos, que representam 70% do Produto Interno Bruto americano, têm pouco espaço para manter seu ritmo de compras, diz Gilbert.

Com tudo isso, os recordes dos índices americanos, como o Standard & Poor’s 500 (observe o gráfico) parece mostrar mais um fim de ciclo de crescimento do que um momento vigoroso da economia. O que pode ser um sinal positivo para o Brasil. Com rendimentos em baixa, os investidores americanos poderão sentir-se mais propensos a correr um risco adicional em mercados emergentes.