Entrevista

Ingo Plöger, presidente do Conselho Empresarial da América Latina

“A equipe econômica é muito forte, inspira confiança”

Gabriel Reis

“A equipe econômica é muito forte, inspira confiança”

Paula Bezerra
Edição 21/07/2017 - nº 1028

Beneficiados com o ‘boom’ das commodities na década passada, os principais países da América Latina viram suas economias despencarem nos últimos três anos. A queda drástica no preço de insumos como petróleo e minério de ferro fez com que antigos líderes saíssem do poder com altos índices de rejeição. Culminou, também, com o colapso social e econômico da Venezuela. Enquanto os produtos, responsáveis por grande parte das economias da região, voltam a valorizar, países como Argentina, Brasil e Chile passam por uma agenda dura de reformas, para colocar a região na rota do crescimento. Presidente do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), Ingo Plöger, brasileiro de origem alemã, se diz otimista com o futuro da região. Formado em engenharia mecânica e pós-graduado em economia, ambos os cursos realizados na Alemanha, o líder empresarial enxerga as reformas como um processo de amadurecimento da região. “O continente nunca deixou de ser atraente para os investidores pela grande gama de oportunidades”, indica. Leia, a seguir, sua entrevista à DINHEIRO:

DINHEIRO – As projeções de crescimento econômico para a América Latina foram reduzidas para 2017 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. O sr. acredita que o continente continua atraente para investidores, ou estamos perdendo espaço para o sudeste asiático?

INGO PLÖGER – A América Latina reúne US$ 9 trilhões com o PIB de nove países. Os resultados decrescentes atuais são decorrentes, principalmente, pelo desempenho de países como Brasil, Venezuela, um pouco da Argentina e da desaceleração do Chile. Sem dúvidas, isso afeta o PIB da região como um todo, porque são países que têm em sua composição um peso muito relevante para toda a América Latina. Em compensação, você tem o México, o Peru, e, na América Central, Panamá, com crescimento razoável. Até mesmo a Bolívia e o Paraguai. Quando eu digo razoável é um PIB crescendo em torno de 2% a 4%. Mais um ano, o Brasil, pelo seu peso, puxa a região para baixo. O que vai acontecer, porém, é que o Brasil vai parar de cair e isso vai iniciar uma lenta recuperação, com a exportação do agronegócio. Contaremos, também, com a Argentina, que já tem dado sinais mais claros de recuperação. Não podemos esperar a mesma coisa da Venezuela, por exemplo. O país continuará em crise por, no mínimo, os próximos dois anos. O que é importante ressaltar é que a América Latina nunca deixou de ser interessante para investidores. E ela continua sendo uma região com grande foco de Investimento Estrangeiro Direto (IED). Mesmo com a queda nos últimos dois anos, continuamos atraindo um montante considerável. A relação de IED na região latino-americana é hoje de 1,7% do PIB. O valor é maior que o da União Europeia, Estados Unidos e China. E grande parte disso vem das possibilidades de investimento da infraestrutura.

DINHEIRO – A crise política na região não inibe investimentos em infraestrutura?

PLÖGER – A crise política não é de hoje. Apenas no Brasil, temos mais de quatro anos de crise política, com manifestação nas ruas. Isso tem pautado o Congresso, que revisou as leis anticorrupção, por exemplo. O que não devemos deixar de considerar é, se você olhar o passado brasileiro, no início da crise política e, posteriormente, com a queda da presidente, tínhamos indicadores de estagnação fortíssimos. O que não está acontecendo agora. Se você olhar para o dólar, não há muita variação. A bolsa de valores, também. Outro indicador forte é a de pressão política. O que começamos a perceber é que há uma precificação do mercado e que a equipe econômica brasileira é muito forte, inspira confiança. Bem ou mal, as privatizações estão caminhando de alguma maneira. O que está claro agora é que a economia está se descolando da crise política. A grande pergunta é por que não há uma conjuntura mais forte? Isso para mim é o que ainda está faltando. Os juros estão bons. A Selic baixou, mas ainda não é o suficiente, pode baixar mais dois pontos. Não há consumo. O brasileiro não está gastando para não se endividar.

DINHEIRO – Existe a possibilidade de um novo boom das commodities?

PLÖGER – Não podemos deixar de lado a volta da recuperação das commodities, puxada pela retomada da China, aquecimento das economias dos Estados Unidos e da Europa. Isso tem, sim, ajudado nessa parte. Mas não é o ponto chave. O que se percebe na América Latina é que os países aumentaram o esforço de integração entre si. As negociações Mercosul com a Aliança para o Pacífico estão andando. Há, também, negociações bilaterais, como a do Brasil e com o Peru; Brasil e México. Tudo isso é muito favorável para os negócios da região. Por outro lado, há a enorme possibilidade de atrair investimento para as privatizações. Como citei, o Brasil tem andado com as concessões. Temos as concessões dos aeroportos regionais que estão para sair. Há a pauta dos portos. A mesma coisa está acontecendo no Peru, na Argentina e no Chile, que está expandindo seu principal aeroporto. Então, você percebe que a América Latina está até indo na contramão da Europa e de países como Hungria, República Tcheca e Eslováquia, que são altamente resistentes à privatização.

DINHEIRO – Além da Aliança do Pacífico, o sr. acredita que o acordo Mercosul e União Europeia sairá até o final deste ano?

PLÖGER – Nos últimos dez anos, passamos por frustrações sem precedentes. Em 2004, tínhamos a melhor oferta e posição e o acordo não saiu. Porém, tanto a Europa quanto os países do Mercosul precisam de um acordo como esse. A Europa não conta mais com grandes parceiros para fazer acordos. Não há um grupo de países como o Mercosul para fazer um acordo, por exemplo. E o Mercosul é o gancho que eles precisavam. E agora os países do Mercosul estão mais alinhados. O Uruguai talvez seja o único um pouco mais descolado dos outros, mas está dentro do jogo. E pelas negociações que já ocorrem em Bruxelas, tudo vem caminhando bem. Tudo isso nos dá otimismo para fechar até o final do ano. O acordo só não será executado antes, por conta das eleições da Alemanha. Os dois lados estão maduros.

Maior cooperação: líderes da Aliança para o Pacífico se reúnem
com presidente da Argentina, Maurício Macri (Crédito:Divulgação )

DINHEIRO – Alguns países da América Latina estão estruturando uma agenda de reformas. Como o sr. avalia essa tendência?

PLÖGER – A grande campanha presidencial deste ano no Chile hoje é exatamente em cima das reformas. Em cima do que a Michelle Bachelet não fez. Na Argentina, a mesma coisa (em relação ao governo anterior). Com os argentinos, porém, como eles terão eleições nas províncias ao final deste ano, e a província de Buenos Aires é a mais importante, a expectativa é que Mauricio Macri não dê continuidade a uma pauta muito forte, para que o partido dele não perca no local. Se o partido dele perder em Buenos Aires, a reeleição dele estará comprometida, e ele está fazendo esforços para acalmar ânimos para captar votos. Além desses dois países, o Peru tem uma agenda reformista. Temos, também, o Paraguai, que vai muito bem. Está atraindo investimento e atuando como o menino bonito da América do Sul: inflação baixa, altas taxas de investimento e o juro na ponta muito baixo.

DINHEIRO – E no Brasil? As reformas vão passar mesmo com a crise política e possível mudança no comando?

PLÖGER – Como eu disse, a equipe econômica se descola da crise política. Porém, não acredito que todas as reformas passarão. Tudo, não. Mas o mais importante é ter uma data limite. E, a partir de 2018, com o novo presidente, é possível fazer a reforma da previdência onde ela tem maior rombo, que é com o servidor público. A primeira ação que o novo presidente terá que fazer é, sem dúvida, a reforma da previdência.

DINHEIRO – As instituições no Brasil hoje estão mais fortes?

PLÖGER – Quando se passa por um estresse de longo prazo, como o que nós estamos passando, sim. Não é fácil para nenhum país perder o presidente, viver em um cenário de instabilidade política, seguido de novos escândalos. Porém, as instituições se fortaleceram. Se você perguntar hoje a um brasileiro sobre os 11 jogadores de futebol, ele vai conhecer metade. Se você perguntar sobre os juízes do Supremo Tribunal Federal, possivelmente ele vai conhecer todos. E é essa mudança que estamos assistindo. É claro que todos os dias estão na televisão, o que facilita o acesso, mas são pessoas altamente gabaritadas, com maior responsabilidade. Nessa parte estamos dando exemplos positivos. E eu acho que isso fortalece nossas instituições.

DINHEIRO – As investigações da operação Lava Jato transcenderam o Brasil e hoje envolve pessoas de governos da Venezuela, Peru e Colômbia. Isso abalou a credibilidade e confiança dos investidores?

Manifestação: população da Nicaragua protesta contra corrupção da brasileira Odebrecht (Crédito:Erika Santelices)

PLÖGER – Os investidores hoje já estão olhando um pouco além dessa faixa de corruptos, porque os negócios continuam andando. Ainda mais em um País como o Brasil que está entre as dez principais economias mundiais. De uns tempos para cá, as empresas passaram a perceber que as dificuldades de operar aqui aumentaram, porém, melhoraram. Aumentaram no sentido de se exigir mais controle, mais ‘compliance’. Todas as empresas que atuam hoje aqui falam sobre ‘compliance’. Isso é um bom sinal. Uso a metáfora de quando você vai limpar a casa. Quando você inicia a faxina da cozinha até o porão, os vizinhos falam: nossa, essa casa é suja mesmo. Mas, conforme a sujeira vai saindo, eles falam: poxa, essa casa vai ficar muito bonita. E é isso que está acontecendo com o Brasil. Estamos passando o aspirador de pó.

DINHEIRO – Depois de a poeira baixar com o efeito Donald Trump e Brexit, a tendência protecionista no mundo tem diminuído?

PLÖGER – Olhando uma megatendência, não. Veja os Estados Unidos, o Japão, a Europa e a China. Eles têm um déficit populacional, com pessoas ficando mais velhas. No longo prazo, a tendência é uma atitude mais retraída, que preze valores como segurança, aposentadoria, conforto, comodidade. Isso é uma tendência de longo prazo. O que vimos nos Estados Unidos, um pouco na França e na Itália, é justamente esse medo do futuro e a questão da segurança, como avaliar pontos como migração, por exemplo. Já na América Latina e na Índia, ainda temos um superávit populacional. Países que de certo modo ainda estão passando pelo bônus demográfico. Então, as decisões são diferentes. Essas sociedades vão experimentar outro modelo, outra postura. Isso eu me refiro no longo prazo. No curto prazo, temos o Emmanuel Macron, na França, adotando um discurso mais pró-globalização. Na Alemanha, há a Angela Merkel. Quando ela for reeleita, ela manterá essa relação com o mundo. Mas se olharmos para frente, a tendência não é essa, não. A tendência é um mundo mais protecionista, mais conservador e mais cauteloso.

DINHEIRO – Quando falamos em protecionismo, é impossível deixar de mencionar as barreiras comerciais no Brasil. Como o sr. avalia nosso protecionismo?

PLÖGER – Todos os países têm setores que precisam ser protegidos, isso é normal e faz parte do jogo. A questão é: qual a política industrial que vamos executar, e em qual ponto podemos ser competentes? Nós temos setores industriais que somos muito bons, campeões. Como a aeronáutica. Já no setor automotivo, nós não somos competitivos. Então precisamos voltar o protecionismo para o que sabemos fazer bem, e não algo amplo. Por isso, falamos tanto da tributação e de uma política cambial. Se você deixa de tributar a base e focar só no produto final, você favorece. Mas no Brasil, isso não ocorre. Continuamos favorecendo a matéria-prima. Por isso que exportamos mais o grão, e não produtos de maior valor agregado. Por fim, acredito que temos que fortalecer a industria digital, os serviços digitalizados. Todos esses pontos prejudicam o nosso desenvolvimento. Por isso sempre é falado da revisão da questão cambial, para não termos um câmbio manipulado e, sim, um câmbio justo. O resto os empresários fazem.

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