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Eppur si muove

Falta um ano e meio pro fim do desastre. Mas viveremos o restante do governo militar que comanda o País entre a montanha russa e a roleta russa.

Eppur si muove

Poucas coisas são mais estúpidas que lutar contra um porco. Fazê-lo na lama dentro de um chiqueiro é uma delas. Assim está o Brasil. Para completa surpresa de ninguém. No liquidificador da economia já temos os ingredientes. Inflação em alta, desemprego elevado, crescimento incapaz de resgatar o País. O nome disso é estagflação. (Vai piorar). Antes nos iludiremos. Porque as altas recentes da Selic, que fizeram a taxa crescer 75%, continuarão. O mercado quer 5,50% no fim do ano, diz o Focus de segunda-feira (10). Salto de 175% em nove meses. Nada ruim para quem tem uns trocos a remunerar. Trará dinheiro de fora? Sim. Vai segurar a inflação? Duvido. A previsão é de IPCA em 5,06%. O teto (5,25%) deve estourar. Porque há uma desinteria fiscal que não vai parar. Devido à constrangedora fragilidade do comandante, a ser alimentada não apenas pela CPI, mas também por filhos, vazamentos e meio milhão de mortos por Covid em julho. Estancar a lambança exigirá muito dinheiro. Apertou 17? Ele veio. Ou alguém acreditava em viés liberal num funcionário público político-militar?

O problema de ter um presidente tão ruim é que ele nos fez esquecer por um tempo que temos um Congresso também deprimente. Corporativista, refratário a qualquer reforma e pronto para o pior. As instituições jurídicas completam o cenário. Estão na mesma régua de mediocridade. Tem juiz de primeira instância que se acha pronto para tomar decisão que não faz sentido nem de forma colegiada no Supremo. Essa mistura de alto egoísmo e baixa capacidade intelectual nos leva ao momento montanha russa atual. Ficamos felizes com leilões da Infraestrutura e paralisados com o Orçamento do Pânico, sem falar do modelo Secreto. Da montanha russa para a roleta russa. O Brasil está tão zoado que juiz que rouba no julgamento e polícia que mata sem deter são personagens vistos como efeitos colaterais necessários.

Para dar pimenta ao baile flertamos com uma arma desmontada há quase 30 anos, no Plano Real. Na barriga de Rosemary está o genoma descontrole fiscal+insanidade institucional. Ele punirá os de sempre. O lado pobre. Por baixo, uns 100 milhões. Aí está o maior erro macroeconômico sob o nosso nariz. Num mundo paradoxalmente mais conectado e desglobalizado (vide produção de veículos elétricos), a desigualdade será um handicap assustador. Tanto que a China tratou de combatê-la a todo custo. Entre 2002 e 2017, o número de pessoas que vivia com menos de US$ 5,50 por dia no país caiu de 1 bilhão para 300 milhões.

Ou você acha que o PIB lá decola apenas porque Alibaba, Huawey e Xiaomi são incríveis? É a Desigualdade, stupid! foi o lema. Sacou o que os chineses sacaram? Para resolvê-la é preciso desconstruir uma burrice lastreada na falácia brasileira do Antes-É-Preciso-Fazer-o-Bolo-Crescer. Se isso já foi verdade no economismo militar, e duvido que tenha sido, não é mais. Temos forte déficit em três frentes: (a) Dados, (b) Conceitos e (c) Soluções Inovadoras. O Brasil Produtivo precisará assumir a nova narrativa. Um primeiro grupo já faz isso muito bem. Pessoas à frente de consultorias de ponta, institutos de pesquisa e organizações de ensino que geram dados utilizando ferramentas e leituras modernas – na estatística, na sociologia, na economia. Bom-senso no País sem censo.

Um segundo movimento é atualizar a literatura. É fato que nossa elite pública (duas ou três exceções) está defasada. Os últimos quatro vencedores do Nobel de Economia podem nos auxiliar. Os de 2020 ajudam a fazer preço em leilão. Os de 2018 juntam impactos ambientais ao mundo econômico (Salles, que tal?). O de 2017 trata de colocar fatores comportamentais e subjetivos num universo de decisões nem sempre racionais. Mas os de 2019 têm mais a contribuir. Eles olham as políticas públicas com novas abordagens. Lirinha, dê uma olhada. Spoiler: não se fala de trator ali.

O terceiro movimento é buscar soluções baseadas em ferramentas da tecnologia. Blockchain impediria, por exemplo, aquele edital malandro em que laptops serão comprados para escolas públicas, mas com brechas em que certa unidade “receberia” mais de 100 aparelhos por aluno. Inteligência Artificial montaria em poucos dias cercos mais eficientes numa CPI ou contra desvios no crime de rachadinhas. Machine Learning ajudaria o dinheiro chegar a microempresas na pandemia. Ou a definir o horário em que cada comércio poderia abrir – cruzando tíquetes eletrônicos sem invadir privacidade. Eu prefiro até exagerar: acredito que sorteio decidiria melhor nossos representantes. Já que o voto nos gerou essa 5a Série C de elite disfuncional, será preciso inundar a população com dados e vencer pela Opinião Pública.

O Brasil não sacou que está na beira do abismo – um que nos jogará na Idade Média. É imprescindível que alguém diga que a Terra gira em torno do Sol. E tudo bem.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.