Economia

Entenda como a cannabis pode impulsionar um mercado de até R$ 14,4 bi

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A cannabis sativa permite exploração para diversas finalidades industriais e medicinais e pode movimentar no Brasil um mercado estimado em até R$ 14,4 bilhões (Crédito: Pixabay)

Se há uma certeza que pode ser constatada no início de cada ano é: as drogas irão vencer, de novo, a guerra às drogas. A falta de regulamentação da cannabis, no entanto, vai além da repressão e das balas perdidas ao afetar diretamente um mercado promissor: a maconha, como é popularmente conhecida, tem potencial para impactar setores turísticos, medicinais, culturais, de pesquisa e educação, alimentícios, bebidas e até de beleza e cuidados pessoais.



Um levantamento feito pela Kaya Mind, empresa brasileira de inteligência sobre o mercado canábico, estima que o mercado brasileiro de cannabis medicinal pode chegar a R$ 14,4 bilhões quatro anos após a liberação do plantio.

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Segundo a Prohibition Partners, empresa americana de marketing especializada no setor, o mercado global de cannabis legal é estimado em U$ 55,3 bilhões até 2024. O mercado Europeu está estimado em U$ 2,63 bilhões; a América do Norte, sobretudo Estados Unidos e Canadá, respondem por U$ 35,17 bilhões até 2024, sendo que U$ 27,08 bilhões sejam apenas do uso adulto (recreativo). Já o mercado latino americano girou U$ 168 milhões em 2020, dominado principalmente pelas vendas de CBD, o óleo de cannabidiol utilizado em tratamentos medicinais.

“O mercado brasileiro tem seu ecossistema de cadeia produtiva em pleno desenvolvimento. Há centenas de empreendedores com iniciativas em andamento, nos mais diversos campos, além dos que se voltam às vertentes em torno do uso medicinal da cannabis. De qualquer forma, mesmo sem os avanços na regulamentação que deixam o Brasil atrasado globalmente, é possível evoluir”, diz Alex Lucena, sócio e CIO da The Green Hub, aceleradora que chega a 14 empresas impulsionadas no final deste mês.

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Lucena argumenta que a centralização da regulamentação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) atrapalha a discussão de diversos produtos relacionados à cannabis, como a indústria têxtil em relação à fibra de cânhamo e a geração de biomassa e biocombustível do cânhamo, que poderia ser avaliada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

“É preciso haver diálogo mais amplo com a sociedade no sentido de conscientizar a população sobre as inúmeras aplicações que a planta possui tanto no que diz respeito ao uso medicinal, quanto ao industrial. Isso é fundamental para a formação do mercado brasileiro”, defende Lucena.

Cannabis medicinal

A cannabis sativa tem mais de 120 fitocanabinoides registrados, sendo os mais conhecidos o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) – este último responsável pelo efeito psicoativo. Quando o índice de THC é inferior a 0,3%, a planta não causa qualquer efeito psicoativo, como nos medicamentos regulamentados no Brasil.

Há diversos compostos que têm sido pesquisados pela área médica: CBN, CBG, THCV (inibidor de apetite e redutor de glicose no sangue, associado ao tratamento de diabetes), CBN (associado ao tratamento de insônia), o CBG (anti-inflamatório), entre outros.

A partir do momento que Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou em 2018 o valor terapêutico da cannabis, iniciou-se uma corrida pela pesquisa da cannabis medicinal.

No Brasil, a Anvisa permitiu o primeiro tratamento de saúde canábico em 2014, mas apenas em 2019 liberou a venda de remédios em farmácias. Neste ano, a agência autorizou mais dois medicamentos importados à base de canabidiol (CBD), muito em função da portaria de produtos derivados de cannabis, em vigor desde março deste ano. Para ter acesso é preciso uma receita médica de controle especial.

Com essas práticas, a Anvisa estabelece os dois principais problemas do setor de cannabis medicinal: o preço dos medicamentos importados e o acesso ao tratamento. Para suprir a lacuna, iniciativas como a da Santa Cannabis, Associação Catarinense de Cannabis Medicinal, organização sem fins lucrativos, fornece o acesso ao tratamento médico, auxílio em processo de importação de medicamentos junto à Anvisa e assessoria jurídica para orientar advogados, como por exemplo dois habeas corpus por plantio pessoal. Em quase três anos, a Santa Cannabis já auxiliou 2 mil pessoas.

“As associações fazem um trabalho que era pra ser do Estado, que é o acolhimento dos pacientes, encaminhamento ao médico e acesso ao tratamento e correndo risco, que parece que a gente comete um crime quando resolve um problema da sociedade, que é garantir o direito à saúde, o que é institucional”, diz Pedro Sabaciauskis, presidente da Santa Cannabis.

Quem realizou o acolhimento em evento recente da associação é o neurocirurgião Pedro Pierro, que também atende pelo Centro de Excelência de Canabinoides (CEC), em São Paulo. O médico explica que derivados da cannabis podem auxiliar no tratamento contra sintomas de epilepsia, esclerose múltipla, doenças inflamatórias intestinais, neurodegenarativas (Alzheimer e Parkinson).

No entanto, ele alerta aos preços dos remédios vendidos legalmente: chegam até R$ 1.300, tornando-se inviáveis a tratamentos longo prazo.

“O acesso ao produto só conseguiremos resolver quando houver produção nacional do medicamento. Ainda falta muito para o mercado avançar no Brasil. A lei que estabelece nomes genéricos dificulta empresas de patrocinarem estudos clínicos. Uma legislação mais abrangente e com segurança jurídica conseguiria fazer o mercado evoluir”, diz Pierro, que lembra de dois pontos fundamentais quanto à medicina canábica: é importante saber a origem da planta, sua qualidade e que “fumar maconha não é tratamento”.

“A gente tem que resolver esse problema para que as pessoas de baixa renda tenham acesso ao remédio, como o rico tem hoje. Hoje, quem tem dinheiro e pode pagar um bom médico, consegue um remédio na farmácia. A demora na regulamentação coloca em risco a saúde de milhões de brasileiros. O Brasil é um dos países com mais atraso na regulamentação”, finaliza Sabaciauskis.

Uso recreativo e riscos à saúde

Se o mercado da cannabis medicinal explora seus benefícios à saúde, outros mercados giram em torno de seu uso recreativo e exploram iniciativas de países que começaram a regulamentação da planta, como o Uruguai.

Vale ressaltar que fumar maconha pode ser prejudicial ao coração, de acordo com a Associação Americana de Cardiologia, que estima que há mais de 2 milhões de pacientes com problemas cardíacos que fazem uso recreativo da cannabis nos EUA.

Alguns estudos analisados pela Associação Americana do Coração, entidade sem fins lucrativos, associaram o uso recreativo da cannabis com alterações no ritmo cardíaco, como taquicardia e fibrilação atrial.

O THC, a substancia psicoativa, pode desequilibrar as artérias e aumentar a pressão sanguínea. Além disso, a fumaça da cannabis contém monóxido de carbono e alcatrão, que prejudicam o pulmão. Já o CBD não foi associado a danos ao coração.

O jornal inglês Independent lançou em 1997 uma campanha pela descriminalização da cannabis, mas, dez anos depois, arrependeu-se. A publicação argumenta que mais de 22 mil pessoas foram tratadas por “adição canábica” em 2006, que a droga pode ser tão impactante à saúde quanto a cocaína e que pode levar ao desenvolvimento de doenças mentais.

Já a Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM) diz que a cannabis pode matar neurônios em desenvolvimento principalmente em jovens. Em pessoas mais velhas, no entanto, a planta pode desenvolver um papel benéfico de proteção a Alzheimer, por exemplo.

É portanto recomendável pesquisar os efeitos e estar ciente dos danos da maconha à saúde antes de seu uso recreativo. Veja alguns dos mercados em que já são explorados, legalmente, o uso recreativo da cannabis, como o turismo e a gastronomia.

Turismo canábico

Turismo canábico é uma realidade em países que não só descriminalizaram o uso da planta, mas incentivam toda uma cultura, o que impacta diretamente no turismo. O Mi Casa 420 é uma agência de turismo que se especializou no turismo canábico quando percebeu um nicho de mercado em 2016.

Larissa Uchida, dona da agência, explica que há bastante procura de brasileiros para viagens à Califórnia (principal destino), Canadá, Amsterdã e principalmente Uruguai, pela proximidade e preço. Ela conta que seu público busca uma experiência completa em relação à experiência canábica: além de degustar uma variedade de espécies da erva, gastronomia, museus, coffee shops, grow shops (lojas de e para cultivo), farmácias e marcos históricos ligados à cultura canábica.

“A gente busca oferecer uma experiência sensorial completa, buscando os melhores profissionais e pacotes únicos. Quando a gente faz o turismo fora do Brasil, a ideia é mostrar que a cannabis é parte da cultura daquelas pessoas. No Brasil, acaba sendo alguns eventos apenas”, afirma Uchida.

A Mi Casa 420 ainda oferece um aplicativo com pequenos guias turísticos locais com foco na cannabis sativa. Além disso, um dos pontos turísticos da cultura canábica uruguaia, ilustra como a regulamentação pode ajudar na guerra às drogas: o que antes era uma prisão com 70% de detentos relacionados à posse e venda de maconha hoje é um shopping em Montevidéu.

“Os brasileiros estão percebendo os benefícios da planta. Há muito o que explorar com a regulamentação no Brasil: ecoturismo canábico, público que prefere natureza e se preocupa com o meio ambiente e a sustentabilidade”, diz Uchida, que enfatiza também a importância da educação canábica. “Se acontecer a legalização, não tem profissional para atender o mercado”.

Gastronomia canábica

Outro passeio turístico possível na capital uruguaia é visitar o Larica Uruguai, onde a chef brasileira Marcela Ikeda proporciona o que chama de experiência sensorial completa desde 2016. Quem chega ao jantar depara-se geralmente com três entradas, um prato principal, sobremesa e outras surpresas durante o jantar – todos os pratos com técnicas gastronômicas que valorizam ingredientes canábicos. Mas o cliente pode optar por uma comida que altere seu estado de consciência ou não.

“Depende da experiência que a pessoa pede no restaurante: eu educo, dou uma aula através do alimento. O cliente vai sentir o azeite (com infusão canábica), vai aprender a sair daqui com informações a mais se quiserem consumir. Geralmente infusiono na comida, trabalhando com extrações”, diz Ikeda.

“O mercado já fatura com um mercado ilegal. Mas também tem muita empresa que educa, artigo de tabacaria, livro, cursos. A educação é a melhor maneira de trazer a ideia da cannabis. O mercado da cannabis é valioso e tem tudo para dar certo no Brasil, uma pena ainda não ter essa liberdade”, argumenta Ikeda.

Política
As casas legislativas, de acordo com o Instituto de Pesquisas Sociais e Econômicas da Cannabis (Ipsec), têm um total de 27 projetos de lei que envolvem a cannabis, entre Câmara Federal (25%), Senado (14%), Câmaras estaduais (57%) e Câmaras Municipais (4%).

O mais conhecido é o Projeto e Lei 399/2015, aprovado em junho deste ano, com muita polêmica, pela Comissão especial da Câmara dos Deputados. Além do uso medicinal, que já está em vigor, o PL regulamenta cultivo, processamento, pesquisa, produção e comercialização de produtos à base de cannabis para fins medicinais e industriais.

Na esteira do debate, o governo lançou uma cartilha pública neste ano chamada Argumentos Contra a Legalização da Maconha. Entre os argumentos citados, além dos riscos à saúde associados ao uso recreativo, estão a preocupação que a disponibilidade aumente o número de usuários, critica a publicidade da legalização e que “a simples aprovação da lei faria com que diminuísse a percepção social da droga como prejudicial”.

A Agência Nacinal de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que tecidos feitos com cânhamo são ilegais, mesmo sem qualquer teor de THC – um limbo jurídico pela falta de regulamentação.

“O fato de essa roda não girar pode fazer com que o Brasil comece a exportar tecnologias e projetos relacionados ao cânhamo, como já acontece em alguns casos. Isso pode comprometer a retenção de talentos e empreendimentos que podem gerar frutos por aqui”, avalia Lucena, do Green Hub.

No Estados Unidos, a Amazon anunciou, por meio de Dave Clark, que vai apoiar e disponibilizar recursos para fazer lobby pela legalização da maconha, conhecida como Lei de Oportunidades da Maconha (“More”, na sigla em inglês). A ideia, segundo a Reuters, é construir desde já uma hegemonia em relação aos produtos canábicos.

 

Segmentos de mercado*

– Cultivo
Há expectativa de que a Europa se torne o maior mercado legal de cultivo do mundo em 2024, liderado pelo precursores da canábis medicinal: Alemanha, Itália, Holanda, Dinamarca, Portugal e Grécia.

– Manufatura e produção
O mercado é dominado por produtores canadenses, embora o programa estadounidense Farm Bill 2018, que prevê suporte, seguro e apoio aos agricultores, possa mudar o cenário. Pesam contra as diferentes legislações estaduais nos EUA – a maioria dos estados ainda proíbe o cultivo de cannabis.

Umas das pioneiras na pesquisa de cannabis medicinal, a canadense Canopy Growth foi adquirida pela alemã German C3 Cannabinoid Compound Company por U$ 253 milhões, um dos maiores negócios do mercado.

– Pesquisa
Os Estados Unidos lideram a pesquisa de novas terapias derivadas da cannabis e de novos medicamentos – foram 343 testes em 2019. Há pesquisas feitas na China, Europa e Austrália, onde, em julho de 2019, o governo estadual de Nova Gales do Sul destinou 9 milhões de dólares australianos para avaliar a segurança e a eficácia de medicamentos feitos com cannabis.

– Alimentos
Estimado em U$ 1,2 bilhão em 2019, o mercado global alimentício de cannabis tem expectativa de chegar a U$ 4,7 bilhões em 2024. Apesar da liderança dos EUA, a legalização de comestíveis no Canadá, em 2019, catalisou as atividades, mas com limite estabelecido de 10mm de THC para alimentos ou bebidos com infusão de cannabis. Na Califórnia, Colorado e Washington é possível comprar comestíveis com até 100 mm de THC.

– Tabaco
O declínio do consumo de tabaco levou muitas empresas a investirem no mercado canábico. A Imperial Brands gastou U$ 123 milhões em parceria de pesquisa com o Auxly Cannabis Group. O Altria Group, fabricante da Marlboro, fez acordo de U$ 1,95 bilhão com a canadense Cronos. Já a Philip Morris investiu U$ 20 milhões na israelense Syqe Medical, que fabrica inaladores de cannabis impressos em 3D.

– Bebidas
Mercado global estimado em U$ 1,4 bilhão em 2024, impulsionados por investimentos de grandes cervejarias e novas bebidas derivadas da infusão canábica.

Beleza
Há diversos produtos de beleza e cuidados pessoais sendo pesquisados a partir da infusão com a cannabis. A Canopy Growth comprou a britânica This Works por 43 milhões de libras em 2019 para lançar produtos à base de CBD para cuidados com a pele.

* As informações da segmentação de mercado foram extraídas do relatório Pesquisa, Inovação e Tendências de Mercado 2021 da Green Hub.


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