Entrevista

Zeina Latif, secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo

Enquanto a economia não se acomodar lá fora, a gente vai sofrer as consequências aqui

Karime Xavier

Enquanto a economia não se acomodar lá fora, a gente vai sofrer as consequências aqui

A economista avalia que os efeitos da Selic de dois dígitos vão começar a surtir efeito nos próximos meses e diz que é preciso urgência na reforma tributária.

Jaqueline Mendes
Edição 03/06/2022 - nº 1276

Uma das mais influentes e respeitadas economistas do País, Zeina Latif assumiu recentemente a Secretaria de Desenvolvimento Eco­nômico de São Paulo com a missão de aprimorar as políticas públicas de qualificação de mão de obra e melhoria do ambiente de negócios. Zeina, que é doutora em economia pela USP, ex-economista-chefe da XP Inves­timentos e sócia da Gibraltar Con­sultoria, disse à DI­NHEIRO que a volta do crescimento depende das reformas e do compromisso fiscal do próximo governo.

DINHEIRO – Qual o seu maior desafio à frente da Secretaria de Desenvolvimento Econô­mico de São Paulo?
ZEINA LATIF – Estou pegando uma casa bem arrumada. Meu papel é ajudar a identificar e aprimorar políticas públicas, além de avaliar em qual área vale a pena investir mais, como em inovação e fomento de tecnologia, em sinergia com universidades. A missão é aumentar a efetividade das políticas, envolvendo outros órgãos públicos e o setor privado.

Algum cômodo dessa casa bem arrumada precisa de atenção especial?
Temos que melhorar o ambiente de negócios para voltar a gerar em­­pregos. O ponto principal é que o País teve uma mudança de patamar na taxa de desemprego por causa de duas recessões severas. Apesar da força econômica do estado, São Paulo não é uma ilha isolada do Brasil. A gente sentiu as dificuldades também. É muito difícil se blindar dos ciclos econômicos que têm sido tão acidentados, em um País que está crescendo tão pouco.

Como o ambiente de negócios vai reduzir o desemprego?
Uma parte do desemprego está associada à falta de qualificação. No jargão dos economistas, essa é uma taxa de desemprego natural ou estrutural elevada. É a pessoa que gostaria de trabalhar, mas não tem capacitação para isso. Ainda mais nesse mundo em que a tecnologia cresce. E esse avanço foi mais rápido ainda no pós-pandemia. Então, se a gente conseguir identificar bem as demandas do setor produtivo, traduzir isso em cursos de boa qualidade, para que a evasão não seja alta e o interesse seja grande, conseguiremos inserir essa pessoa no mercado de trabalho.

Do atual contingente de desempregados, qual porcentual se enquadra nesse perfil da baixa qualificação?
Não existe um estudo que faça esse recorte. Olhando os números e conversando com os colegas economistas, creio que seja algo entre 10% e 12% do total de desempregados. Mas isso varia de setor para setor. Na área de tecnologia, esse problema está escancarado. Falta gente para tudo. Há casos em que a ocupação não é tão sofisticada, mas, mesmo assim, as empresas têm dificuldades de encontrar alguém que esteja realmente preparado, que tenha produtividade compatível com a remuneração da vaga.

“Quando a gente olha a produtividade, a nossa performance é 25% da do trabalhador americano” (Crédito:Istock)

Historicamente, o estado de São Paulo é descolado do restante do Brasil no desempenho econômico. A pandemia mudou essa realidade? Todos se igualaram nas dificuldades?
As dificuldades atingiram a economia como um todo, mas cada um reagiu de forma diferente. Na linha do tempo, São Paulo cresce mais do que a média do País. O desemprego é um pouco menor do que a média nacional. Mas também não dá para blindar São Paulo do Custo Brasil. Há muita coisa que precisa ser resolvida e que não depende apenas do estado. Também é fato que São Paulo tem algumas vantagens competitivas. Na hora de atrair investimentos, ter um nível de educação mais elevado e uma infraestrutura consolidada ajudam muito. Essas vantagens comparativas ou competitivas não foram bênçãos. Foram construídas com investimento estatal e uma boa dose de sucesso nessa intervenção.

Quais são os caminhos possíveis para a economia brasileira sair da crise?
Não existe bala de prata para recuperar a economia e acelerar o crescimento. Olhando para a frente, o que pode puxar o crescimento são as reformas e o compromisso fiscal. A reforma da Previdência foi um passo importante. A educação também é um ponto nevrálgico.

Com reformas, compromisso fiscal e educação, os problemas estarão resolvidos?
Parte deles. Precisamos fazer logo as reformas para pelo menos ter um IVA [Imposto sobre Valor Agregado] no ano que vem, seja qual for o governo. O Brasil está com o crescimento do PIB desde a década de 80 inferior à média da América Latina, que já não é grande coisa. Quando a gente olha a produtividade, a nossa é 25% da produtividade do trabalhador americano. Nessa questão, o Brasil está crescendo muito lentamente, praticamente estagnado.

Mas não parece que há disposição política em se criar uma cadeia de impostos mais enxuta e abrir mão de receitas…
O IVA, claro, precisa de um período de transição. De fato, não dá para mudar uma regra da noite para o dia. Teremos de fazer uma transição com diferentes velocidades. Sei que a ideia de reduzir carga tributária hoje no Brasil é difícil. Mas com responsabilidade, respeito ao teto de gastos e simplificação da burocracia, seremos mais bem-sucedidos lá na frente. Não dá para fechar os olhos a isso.

Reduzir esse emaranhado tributário aumentaria a produtividade?
Dá para simplificar a estrutura tributária e distribuir os impostos de forma mais equânime, mais isonômica. É saudável em termos de produtividade a locação de recursos na economia. O problema é que a gente tem hoje várias legislações, isso não garante isonomia. São muitas regras especiais, que criam distorções alocativas, muitas vezes injustas. Então, a reforma tributária não é uma agenda fácil, mas é fundamental para o País. É uma agenda que requer muita capacidade de diálogo.

Os regimes especiais fizeram os empresários ficarem mal acostumados?
Ninguém quer que as reformas comecem por ele. Fica tentando calcular o que seria o impacto final, e se protege. A discussão é muito difícil. Às vezes, a preocupação é legítima. A empresa planeja, investe, constrói uma fábrica e contrata pessoas considerando o benefício tributário. Daí, de repente, muda. Claro que temos de to­­mar esse cuidado. No Brasil, as muitas intervenções do Estado na economia muitas distorções. Assim, o sistema só funciona com a presença do Estado.

Em termos fiscais, qual será o tamanho do abacaxi para o próximo governo?
Grande. Temos hoje um ambiente macroeconômico mais instável, mais desequilibrado. Afinal, a gente está falando de inflação de dois dígitos, de taxa de juros de dois dígitos. Nem tudo é fruto de erros nossos. Em parte, é resultado de um ambiente internacional e também fruto de erros de políticas econômicas.

Quais erros foram mais graves?
O mundo gastou muito na pandemia. Os estímulos foram em excesso. Claro que os Tesouros dos países e os Bancos Centrais enfrentaram uma situação inédita. Temos de ponderar. Mas nos Estados Unidos era nítido que estava havendo excesso. A inflação estava ficando com uma cara já preocupante nos primeiros meses da pandemia. E o mundo entrou em um quadro de negação do problema. Basta pegar o discurso do presidente do Fed [Banco Central americano], Jerome Powell, para ver que houve muito tempo de negação do problema.

“O BC deve parar de subir os juros, deixar a poeira baixar e ver como a economia reage” (Crédito:Raphael Ribeiro)

O Banco Central brasileiro teve a mesma postura de negação?
A gente foi mais ágil. O BC ajustou mais rapidamente o cenário, identificou que precisava usar a política monetária para neutralizar e normalizar as condições monetárias. Esse é o termo.

Mas, até agora, a alta da Selic não neutralizou e nem normalizou a inflação, por exemplo…
Sim. Depois que viu que só normalizar não foi suficiente, precisou testar as condições monetárias. Enquanto a economia não se acomodar lá fora, a gente vai sofrer as consequências aqui. Não tem jeito. Não dá para a gente absorver toda essa inflação, ainda que ela esteja também associada a excessos do lado fiscal.

Esse é um problema clássico de governos brasilei­ros, não?
O próximo presidente, quem quer que seja, vai ter que reafirmar o compromisso com a disciplina fiscal. Porque hoje a gente tem números que têm surpreendido positivamente do lado fiscal, mas lamentavelmente, muito em função da inflação. Com arrecadação em alta, parece que o número está bom. Não, não está bom.

Se a inflação e a Selic estão em dois dígitos, o BC está errando na dose?
A gente pode discutir a dosagem da política monetária e acho que, claramente, o esforço vai ser feito daqui para a frente. Mas o Banco Central deve parar de subir os juros, deixar a poeira baixar e ver como a economia reage com a Selic que está aí. A política monetária tem efeito defasado sobre a in­flação. Então, vamos ficar por um tempo olhando os sinais fracos da atividade econômica e ainda não colhermos os frutos da inflação mais baixa. É um período ingrato, é um período difícil.

Então o BC agiu certo…
Avalio que sim. Seria um erro o Banco Central não agir. Porque se o Brasil tem um enfraquecimento dessa âncora fiscal e se o Banco Central perder credibilidade quanto a sua capacidade de combater a inflação, vamos ter um problemão. Um duplo problema. Uma coisa é a gente discutir a calibragem, mas havia necessidade de fato de apertar a economia. Disso não há dúvidas.

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