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Enguia, uma espécie de 70 milhões de anos ameaçada pelo homem

Crédito: AFP

Sua forma de serpente provocou uma reputação ruim na Europa e foi acusada, equivocadamente, de comer os salmões (Crédito: AFP)

Abundante durante muito tempo no mundo inteiro, a ponto de ser considerada prejudicial, e enguia se vê ameaçada, em perigo de extinção, pela ganância do homem por este peixe, alvo de um importante mercado clandestino.

Como a enguia é percebida?

Em poucas décadas, “passamos de pensar que a enguia era prejudicial a temer por seu futuro”, disse o ecologista marinho francês Eric Feunteun.



Nos anos 1960, “a enguia era abundante em todos os cursos de água, estuários”, afirma o especialista.

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E as enguias, suas crias, não tinham valor. “Minha avó tinha um café em Nantes, perto de Loire, e às vezes os clientes com menos dinheiro traziam para ela um balde de enguias para pagar o café”, lembra.

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Sua forma de serpente provocou uma reputação ruim na Europa e foi acusada, equivocadamente, de comer os salmões.

Apenas em 2007 a União Europeia obrigou os países membros a adotar planos de gestão da enguia. Em 2010 proibiu a exportação das enguias.


Embora suas capturas tenham caído para menos de 10% dos números registrados na década de 1960, a enguia europeia é a espécie mais ameaçada, à frente da japonesa e da americana.

O que provoca a queda da população?

“A pesca profissional foi acusada de estar na origem deste declínio (…) mas os motivos são múltiplos”, diz Feunteun, que cita a poluição ou a mudança das correntes devido ao aquecimento global.

“Destruímos o habitat da enguia, foi isso que realmente a matou”, afirma Andrew Kerr, presidente do grupo Susteinable Eel (Enguia Sustentável). A Europa perdeu três quartos de suas zonas úmidas em menos de um século e tem várias represas hidrelétricas que afetam suas migrações”.

Como salvar a espécie?

Vários sistemas foram testados: de programas de restauração do habitat, repovoamento, adaptações de barragens hidrelétricas ou sistemas para melhorar a rastreabilidade da enguia, cuja escassez alimenta um lucrativo tráfico ilegal para a Ásia, onde é muito valorizada.

“Há esforços, mas às vezes mal orientados”, disse Feunteun, que critica que muitos são voltados para a pesca. “É um erro. Como este animal é pescado e existe uma economia por trás, a espécie nos interessa. Se ninguém pescar, quem dará o alarme?”.

Como funciona o negócio ilegal?

O tráfico anual de enguias da Europa para a Ásia equivale a três bilhões de euros (3,4 bilhões de dólares), de acordo com alguns cálculos.

A Susteinable Eel calcula que 23% das enguias europeias são exportadas ilegalmente a cada ano para a Ásia, principalmente a China. “É o maior crime contra a fauna do planeta”, afirma Andrew Kerr.

Além disso, é um negócio com “muito mais margem do que o tráfico de drogas ou de armas”, indica. A enguia comprada por 0,1 euro de um pescador europeu acaba sendo vendida depois de desenvolvida como enguia por 10 euros na Ásia.

Reprodução artificial?

Pesquisadores japoneses tentam desde 1960 reproduzir artificialmente enguias, que não se reproduzem em cativeiro.

“Atualmente, quase 100% das enguias que consumimos são enguias capturadas na natureza e criados em aquicultura”, diz Ryusuke Sudo, especialista da Agência Japonesa de Pesca.

Mas o custo de criá-las artificialmente é “muito alto” devido às baixas taxas de reprodução e ao longo tempo de desenvolvimento, afirma Sudo.

A enguia pode desaparecer?

“É uma família que existe há 60-70 milhões de anos, que sobreviveu aos dinossauros e que, paradoxalmente, é muito pouco diversificada”, com apenas 19 espécies e subespécies, explica Feunteun.

Mas a sobrevivência da espécie está “ameaçada pela pressão humana: 70 milhões de anos de existência e 40 anos de declínio”, resume o especialista.

Mas ele mantém as esperanças: “é uma espécie que mostrou nas crises climáticas anteriores que conseguiu retornar a partir de poucos indivíduos”.