Finanças

Em sessão instável, dólar ganha força na reta final e fecha a R$ 5,1771

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Segundo operadores, o vaivém da moeda ao longo da sessão reflete um mercado cauteloso (Crédito: Pixabay )



Em dia marcado por muita instabilidade e trocas de sinal, o dólar à vista se firmou em alta na reta final do pregão, em meio a uma deterioração dos índices acionários em Nova York, e fechou perto do teto de R$ 5,18. Segundo operadores, o vaivém da moeda ao longo da sessão reflete um mercado cauteloso e sem convicção para apostas mais contundentes, depois da forte reprecificação da moeda nos últimos dias, quando escalou da faixa de R$ 5,00 para trabalhar acima de R$ 5,15. Já teriam sido incorporados à formação da taxa de câmbio, em grande parte, tanto o ajuste mais rápido da política monetária americana quando o aumento da percepção de risco político e fiscal domésticos.

A cautela com o desenrolar das investidas do governo e de seus aliados no Congresso para conter os preços de combustíveis permanece no radar e impede apostas em uma rodada de apreciação do real, mas já não é capaz de sustentar uma arrancada do dólar para além de R$ 5,20. A avaliação é a de que a possibilidade de aumento de gastos públicos com ampliação do vale gás e de auxílio para caminhoneiros, embora ruins do ponto vista fiscal, assustam menos do que uma mudança na Lei das Estatais. Além disso, esfria a possibilidade de uma CPI da Petrobras, em meio ao arranhão na imagem do presidente Jair Bolsonaro com a prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro.

Aversão a risco externa atinge Bolsa em meio à continuidade de crise na Petrobras

Com oscilação de cerca de seis centavos entre a mínima (R$ 5,1285) e a máxima R$ (5,1820), o dólar à vista encerrou a sessão em alta de 0,45%, a R$ 5,1771, levando a valorização no mês a 8,93%. O dólar futuro para julho, que havia caído ontem abaixo da cotação à vista quando o mercado spot já estava fechado, passou a maior parte do dia em alta e alcançou o patamar de R$ 5,19 nas máximas.



“O mercado já vinha precificando o aumento de juros nos Estados Unidos e essa questão fiscal doméstica. Houve uma correção forte, com o dólar acima de R$ 5,15, e agora tem uma acomodação”, diz a economista Bruna Centeno, da Blue3, ressaltando que a indicação do Copom de manutenção da política monetária em campo restritivo por mais tempo mantém a atratividade da renda fixa local e oferece um colchão de proteção para o real.

No front político, Centeno observa que a prisão do ex-ministro da Educação “tomou os holofotes” e deixou em segundo plano os debates para mudança da Lei das Estatais e a instalação da CPI da Petrobras. Mas ainda há cautela com a novela em torno dos preços de combustíveis e a possibilidade de expansão dos gastos públicos. Fontes ouvidas pelo Broadcast afirmam que o governo já discute a possibilidade de auxílio-caminhoneiro de até R$ 1 mil. “É preciso ver o impacto fiscal desse voucher para caminhoneiros e da ampliação do vale gás”, diz Centeno.

As forças vindas do exterior foram opostas. O dólar se enfraqueceu contra pares fortes, em especial o euro e o iene, mas subiu na comparação com a maioria das divisas de países exportadores de commodities, cujos preços sofrem diante da perspectiva de desaceleração da economia global. Ao aperto monetário dos BCs mundo afora, em especial nos países desenvolvidos, se somam dúvidas sobre o fôlego da economia chinesa.


Não por acaso, o dólar chacoalhou mais pela manhã, marcada pela expectativa em torno de depoimento do presidente do BC americano, Jerome Powell, no Senado americano. Powell falou grosso contra a inflação e não descartou aceleração do processo de alta de juros, mas disse que o risco de recessão com o aperto monetário “não é elevado” dada a força da economia americana. Powell afirmou que será necessário levar os Fed funds acima do nível neutro, que seria de cerca de 2,5% no longo prazo. Pela tarde, o presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, disse que uma elevação de 75 pontos-base nos juros em julho “seria algo razoável de se debater”, mas pontuou que não vê necessidade de uma elevação e 100 pontos-base, como aventada por parte dos analistas.

O presidente do EUA, Joe Biden, pediu ao Congresso suspensão por três meses do imposto federal sobre gasolina e exortou as companhias a repassarem a economia com tributos para os preços ao consumidor. As cotações do petróleo tombaram, com o tipo Brent, referência para Petrobras, fechando em baixa 2,54%, a US$ 111,74 o barril. As taxas dos Treasuries caíram em bloco, com a T-note, principal ativo do mundo, recuando mais de 3%. Para economistas do Citi, a probabilidade de recessão global se aproxima de 50%.

“O discurso de Powell foi bem recebido pelos investidores. A percepção é que quanto antes esse cenário de inflação alta for revertido, mesmo que seja com aumento de juros, melhor”, afirma a economista chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack. “Já o cenário para commodities é mais complicado do que o do primeiro trimestre. Estamos flertando com o risco de que a dose de aperto monetário dos bancos centrais desenvolvidos possa abalar o ambiente econômico e a demanda por commodities”.