Economia

Eles vão convergir para o centro?

Discursos radicais de candidatos extremistas afastam eleitores que não se identificam com os polos de esquerda e de direita. Versão “paz e amor” deve entrar em campo num eventual segundo turno para buscar uma composição com mais correntes e garantir a vitória nas urnas

Ao tornar pública, pela primeira vez, a intenção de concorrer ao Palácio do Planalto de novo, o ex-presidente Lula avisou, em janeiro, que não repetiria a sua versão “paz e amor”, o perfil moderado que o consagrou vencedor no pleito de 2002. “Eu dei amor para cacete (sic) e só tomei porrada”, afirmou o petista num evento em São Paulo. Naquela época, Lula ainda não havia sido preso pela Lava Jato, a previsão do PIB de 2018 estava próxima de 3% e o dólar rondava a casa dos R$ 3,00. Detido em Curitiba, o ex-presidente não está mais no páreo. A eleição caminha para o segundo turno com duas candidaturas consideradas radicais (PT e PSL), o dólar já superou os R$ 4 e o País se vê diante de mais um ano de crescimento pífio. A dúvida permanece no ar: nos dois espectros ideológicos, de esquerda e de direita, Haddad e Bolsonaro decidirão atenuar os discursos carregados num eventual segundo turno entre eles?

A tendência mais provável é de uma remodelação na estratégia no segundo turno. Para o petista Fernando Haddad, as mudanças envolvem a economia. O ex-prefeito de São Paulo carrega uma trajetória mais moderada do que a do seu partido e uma gestão econômica responsável à frente da capital paulista. Como indicado de Lula, ele vinha repetindo o discurso mais radical da sigla, construído como uma voz de oposição ao governo de Michel Temer. Haddad já deu indicações de que está disposto a atenuar o tom. Chegou a minimizar as falas do coordenador econômico do partido, Marcio Pochmann, visto como mais radical, e sinalizou a importância de uma reforma da Previdência, na contramão do que prega a sua sigla. O nome de Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica de Lula, foi especulado como um perfil adequado ao Ministério da Fazenda de um governo Haddad, pelo trânsito que tem no mercado e na academia – Lisboa negou o convite e o interesse.

#Alcirina: movimento independente na internet defendeu a união das principais candidaturas de centro para ter chances de enfrentar os dois extremos no segundo turno. Geraldo Alckmin (PSDB) , Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) têm juntos cerca de 20% das intenções de voto

Só isso não bastará. Para convencer o mercado de que não repetirá o desastre econômico do governo de Dilma Rousseff, que levou o País à maior recessão da história, Haddad terá de explicar melhor – ou até renunciar – as políticas consideradas heterodoxas contidas no plano de governo e que se mostraram ineficientes no passado, como a redução forçada dos juros e o estímulo excessivo ao crédito. Precisará ainda deixar claro a intenção de fazer reformas que resolvam o problema fiscal, considerado o maior entrave do crescimento atualmente. A desconfiança aumentou nos últimos dias com declarações desastrosas dos integrantes do partido, como as de José Dirceu, defendendo a “tomada do poder” e de Jilmar Tatto, candidato ao senado pelo PT em São Paulo, reforçando que a reforma da Previdência não é prioridade.

A percepção é de que o sentimento de vingança exacerbe um governo mais aguerrido, tanto no plano econômico como no trato institucional. “Quando se junta tudo isso num pacote, não se vê a disposição de Haddad em defender as reformas. Não há zelo pela questão fiscal”, afirma Jason Vieira, economista-chefe da gestora de recursos Infinity. “O medo é de que a heterodoxia seja pior do que a do governo Dilma.” A desconfiança do mercado se reflete nas projeções. Num eventual governo do PT, a maioria dos investidores acredita que o dólar subiria ainda mais, para além de R$ 4,60, e os juros ficariam acima de 10%, segundo a sondagem feita pela XP Investimentos com 168 gestores entre os dias 1 e 2 de outubro (leia quadro abaixo). Uma versão “paz e amor” de Haddad seria uma maneira de estancar a disparada desses índices, que retratam uma piora do sentimento econômico, e um esforço para angariar apoio de eleitores que prezam a sustentabilidade das contas públicas e rejeitam a candidatura do PSL.

Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp: “Há um problema para o Bolsonaro porque o vice dele não é alguém que passaria por uma metamorfose ambulante de se transformar em Mourãozinho paz e amor”

Na política, a convergência ao centro se daria, por exemplo, com uma composição com Ciro Gomes (PDT). Seria uma forma de angariar votos e começar o trabalho para a governabilidade em caso de vitória. “O radicalismo, tanto para a esquerda, como para a direita, é necessário para garantir a passagem para o segundo turno”, afirma o cientista político César Alexandre Carvalho, da CAC Consultoria. Ele acredita numa mudança de tom de ambos os candidatos na segunda etapa. “Se o Haddad não faz um discurso mais paz e amor, as chances deles são mais restritas.” A rejeição do candidato petista avançou com rapidez nas últimas pesquisas e hoje está próxima de 40%, menos distante de seu adversário, que tem cerca de 45% de reprovação.

Jair Bolsonaro (PSL) vai começar praticamente uma nova campanha. Ele passará a ter tempo de TV e pode ainda ser liberado para ir às ruas. Seu desafio maior será abrandar a retórica violenta nas questões de costumes, acenando ao eleitorado feminino, por exemplo. Entre as mulheres, a intenção de votos do deputado é 13 pontos percentuais mais baixa do que em relação ao público masculino. Como é a primeira vez que um candidato com o perfil do Bolsonaro – de extrema direita – chega ao segundo turno, há mais dúvidas se ele realmente reduziria o tom. “A despeito desse discurso mais radical, ainda tem eleitores que apoiam o Amoêdo, o Alckmin e o Meirelles, e que estariam mais dispostos a migrar para Bolsonaro”, afirma Lara Mesquita, cientista política e pesquisadora do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp), da FGV.

Tom elevado: o general Mourão, vice de Bolsonaro, já defendeu uma nova Constituição e fez críticas ao 13º salário

Na economia, o deputado terá menos problemas. Entre os dois nomes na disputa, ele foi o escolhido como preferido do mercado. Ao longo da última semana, o crescimento dele nas pesquisas de intenções de voto puxou um avanço da Bolsa e um recuo do dólar. Na terça-feira 2, o Ibovespa subiu quase 4%, como reflexo da surpresa do mercado com o avanço do candidato do PSL. A expectativa era de que Haddad estivesse cada vez mais próximo. “O mercado está dando o benefício da dúvida ao Paulo Guedes”, afirma Sabrina Cassiano, analista da Coinvalores, em referência ao assessor econômico da campanha. O guru de Bolsonaro traçou um plano ultraliberal para a candidatura, apoia as reformas e defende uma agenda ambiciosa de privatizações. Na sondagem da XP, a maioria dos investidores indicou que uma vitória do militar levaria o dólar para um nível entre R$ 3,80 e R$ 4 e os juros para uma faixa entre 7,5% e 8%.

Apesar da preferência, o mercado nutre certa desconfiança e muitas dúvidas sobre a dupla. A principal delas é a real convicção de Bolsonaro em abraçar a agenda econômica. Em sua trajetória de militar e de deputado, o candidato reúne posições intervencionistas que conflitam com a cartilha liberal elaborada por Guedes. O presidenciável também contradisse o guru econômico após o vazamento de uma conversa reservada com investidores em que Guedes citou a volta da CPMF, o imposto sobre movimentações financeiras. O assessor recebeu um pedido para evitar declarações públicas e, desde então, se recolheu, sem participar de eventos, dar entrevistas e comparecer a debates. A privação acaba prejudicando o detalhamento do plano e contribui para as dúvidas. “O mercado já rejeita totalmente o PT, mas há um desconforto sobre qual é postura reformista de Bolsonaro”, afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

#Elesim x #Elenão: posições polêmicas de Bolsonaro levaram às ruas manifestantes contra e a favor do deputado. Tom deve ser moderado para ampliar alcance

A mesma solicitação para evitar falas polêmicas foi feita ao vice na chapa, general Hamilton Mourão. Suas declarações vêm confundindo os eleitores e aprofundando o sentimento de incerteza. Em mais de uma ocasião, o militar mostrou uma reprovação ao benefício do 13º- salário aos trabalhadores. Ele chegou ainda a defender a elaboração de uma nova Constituição a ser feita por um conselho de notáveis, expondo as convicções autoritárias da candidatura. “Numa boa engenharia política, no segundo turno, seria a hora de atenuar as arestas”, afirma o professor de ética e filosofia da Unicamp, Roberto Romano (leia a entrevista completa aqui). “Aí há um problema na campanha de Bolsonaro porque o vice dele não é alguém que passaria por uma metamorfose ambulante de se transformar em Mourãozinho paz e amor.”

Os desencontros não impediram o avanço do deputado na reta final do primeiro turno, mas podem lhe causar problemas na disputa direta com Haddad. Por enquanto, o número de apoios vem crescendo. O candidato recebeu o endosso da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que reúne 261 parlamentares, além de deputados das bancadas da bala e evangélica. No mundo empresarial, a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (Cacb) declarou oficialmente apoio ao deputado. Do outro lado, ganhou força o grupo dos que rejeitam o ex-capitão. A aversão mobilizou um movimento nas redes sociais clamando por uma união no centro, no que ficou conhecido como Alcirina, o acrônimo para uma possível composição entre Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Somados, os três reúnem cerca de 20% das intenções de votos. É esse público que ficará desassistido e terá de ser conquistado no segundo turno. Dependerá da capacidade dos dois polos em amplificar os discursos. Seria o melhor não só para o resultado da eleição, mas a todo o País.