O discurso de Michel Temer de limitar as possibilidades de negociação entre a Boeing e a Embraer prejudica a fabricante brasileira de aeronaves, avaliou nesta quarta-feira, 31, a economista Elena Landau. “Essa discussão vai trazer enormes prejuízos, porque vai fazer a Embraer perder competitividade para as suas concorrentes. Não sei se é discurso político, mas está prejudicando a Embraer”, disse.

Para a economista, que participou de diversas privatizações durante a gestão Fernando Henrique Cardoso, inclusive a da própria Embraer, a golden share que dá ao governo poder de veto para algumas questões relacionadas à fabricante foi criada para superar problemas de resistência com relação a temas estratégicos.

“Mas passados 20 anos, não é possível que tenha segredo militar”, afirmou, salientando que quando foi privatizada a Embraer estava “acabando” e “não tinha futuro nenhum” e o sucesso da privatização foi por “sorte”, reflexo de movimentações no setor no exterior.

Por isso, ela sugere uma reflexão sobre a necessidade de Golden share nas privatizações das empresas, ao considerar que o estabelecimento dessas ações de classe especial também acaba limitando o valor das companhias.

Privatização

Apesar do tema da privatização ainda gerar debates calorosos e até disputas judiciais, Elena avalia que a sociedade atualmente entende que não se trata só de uma necessidade de reforma do Estado. “Acho que tem uma evolução positiva de que precisa fazer escolhas”, disse. Para ela, essa evolução pode ser reflexo da Lava Jato e uma maior percepção sobre a ineficiência do Estado e de que os recursos poderiam ser melhor utilizados para outras funções.

Na visão de Elena, todas as estatais deveriam ser revisitadas e colocadas à venda ou encerradas. “Dizem que a Petrobras é estratégica. Por quê? Ela vende commodities”, disse. “Não tenho mais vaca sagrada, tem de adaptar o Estado, a nossa Constituição, à nossa realidade”, completou, sugerindo que a criação de estatais deveria ser proibida porque se cria e depois não se fecha. Ela citou a Valec, a Telebras e a Infraero como exemplos de ineficiência. Ela defendeu que a liquidação e o fechamento das estatais também deveriam estar na pauta do governo.

No caso específico da Infraero, ela considerou que a empresa é reflexo hoje de uma “privatização mal feita”, referindo-se ao fato de que alguns dos seus principais ativos foram concedidos à iniciativa privada, com a obrigação da Infraero, como acionista, de acompanhar chamadas de capital. Ela lembrou que o modelo foi utilizado a partir da ideia de que a Infraero seria importante para administrar aeroportos regionais, mas considerou que com o valor que teve de aportar nas concessões “poderia ter 20 aeroportos”.