Negócios

Ele herdou bilhões e está preocupado com isso

Com a morte de Edson de Godoy Bueno, fundador da Amil, cerca de R$ 8 bilhões passarão para o controle dos dois filhos. Aos 26 anos, Pedro, CEO da Dasa, terá a missão de tocar os negócios do pai, mas com seu estilo próprio de gestão

Menos de uma semana depois da morte repentina do empresário Edson de Godoy Bueno, o fundador da Amil que sofreu infarto fulminante em fevereiro, aos 73 anos, enquanto jogava tênis em sua mansão em Búzios (RJ), o herdeiro Pedro de Godoy Bueno, de 26 anos, e Dulce Pugliese, a primeira mulher de Edson que vive nos Estados Unidos, convocou uma reunião a portas fechadas com os principais executivos das empresas da família, na sede do fundo DNA Capital, no bairro do Itaim, em São Paulo.

A pauta do encontro era discutir caminhos para promover a sucessão de comando de Edson, principalmente na rede de laboratórios Dasa (empresa da qual adquiriu o controle depois de negociar, em 2012, a Amil com os americanos da UnitedHealth), sem comprometer a saúde dos negócios e preservar o seu estilo de gestão. Ainda tomados pelo clima de tristeza, os executivos prometeram colaborar com cada mudança que será apresentada. Dulce, parceira de Edson em muitos negócios, mesmo após o divórcio, também garantiu ao Pedro apoio incondicional nessa fase difícil.

“Todos estão unidos em promover uma transição tranquila aos herdeiros, com a ética e companheirismo que o Edson sempre demonstrou por todos nós”, afirmou um executivo ligado à família, que pediu para não ter seu nome revelado. “Estamos falando em negócios em um momento de muito pesar, mas sabemos que a dor da perda dará lugar à força que precisaremos para fazer as coisas continuarem, como Edson gostaria que fosse.” Procurada pela reportagem, a família não quis conceder entrevista. A preocupação em torno da sucessão de Edson se justifica.

O empresário, considerado um dos 20 homens mais ricos do Brasil, pelos rankings da Bloomberg e da Forbes, deixou uma fortuna estimada em R$ 8 bilhões para seus dois filhos, Pedro e Camila Grossi, que adotou o sobrenome do marido. Além de toda a burocracia em torno de um imenso inventário, que inclui participações na Dasa e na UnitedHealth, nove hospitais e centenas de imóveis, que precisam ser levantados (leia quadro ao final da reportagem), Pedro ainda vive um momento de consolidação como executivo.

Ele assumiu o comando da Dasa há pouco mais dois anos, quando tinha apenas 24 anos de idade. Uma tarefa e tanto. A companhia, com as marcas Delboni Auriemo, Sérgio Franco e Lavoisier, faturou R$ 3 bilhões no ano passado e atingiu valor de mercado de mais de R$ 6,8 bilhões. “Pedro convive com o desafio de provar ser capaz de administrar uma grande empresa sem a sombra de seu pai”, afirma Nicholas Heinen, consultor especialista em sucessão familiar da FGV-SP.

Pai e filho, de fato, eram conhecidos por estilos de gestão opostos. “Temos motivações muito diferentes”, admitiu Pedro Bueno à DINHEIRO, em entrevista no ano passado. “Ele (o Edson) veio de uma infância pobre. Apesar de termos estilos e visões de mundo diferentes, ele me ensinou o valor do trabalho.” Enquanto Edson sempre demonstrou ser expansivo e comunicativo, Pedro é mais discreto, de poucas palavras. O filho também é percebido como alguém mais centralizador nas decisões, e enfrentou resistência de alguns executivos quando assumiu a Dasa.

Já o pai, por confiar em profissionais que o acompanhavam desde os tempos em que Pedro sequer era nascido, costumava delegar funções e endossar as decisões de seus executivos. Por esta razão, sem a intermediação do pai, Pedro terá de saber conquistar a simpatia e a confiança dos altos executivos. “O Pedro precisará usar muita diplomacia, uma das principais características de seu pai, para equalizar os frequentes conflitos com sócios e executivos”, afirmou uma fonte ligada à Dasa.

Dias felizes: Edson de Godoy Bueno(ao lado de sua última esposa, a arquiteta Solange Medina) administrava pessoalmente cada uma de suas empresas e imóveis
Dias felizes: Edson de Godoy Bueno(ao lado de sua última esposa, a arquiteta Solange Medina) administrava pessoalmente cada uma de suas empresas e imóveis

Processos como esses costumam trazer muito desafios para os herdeiros, e não será diferente para Pedro Bueno. “Quando ocorre a perda inesperada de um líder exuberante, é importante que a empresa tenha um conselho profissional, capaz de manter os negócios em andamento, pelo período necessário, de um a dois anos, para a família encontrar o seu caminho e tomar as decisões importantes”, diz Herbert Steinberg, sócio da Mesa Corporate Governance, especialista em sucessão familiar. “A complexidade da sucessão familiar é que envolve três aspectos diferentes: o patrimonial, o de gestão e o de legado, que tem relação com o estilo e valores do líder.”

O consultor compara dois casos similares, com desfechos opostos, as mortes em acidentes aéreos de Matias Machline, presidente da Sharp, e do comandante Rolim Amaro, da TAM. “Mesmo com filhos bem preparados, a família Machline não evitou que a Sharp desaparecesse, depois de ser a líder do mercado de tevês e vídeos cassetes”, diz. “Já a TAM continua até hoje, depois de uma fusão com a LAN, por ter contado com um processo maduro de governança quando perdeu o seu controlador.”
Na Dasa, apesar do comando da gestão executiva ser familiar, o conselho de administração já está profissionalizado e os seus representantes foram confirmados em março deste ano em suas posições.

Braço direito: o presidente do conselho de administração da Dasa, o médico radiologista Romeu Cortês Domingues, dá apoio à gestão de Pedro na empresa dona das marcas Delboni Auriemo, Lavoisier e Sérgio Franco
Braço direito: o presidente do conselho de administração da Dasa, o médico radiologista Romeu Cortês Domingues, dá apoio à gestão de Pedro na empresa dona das marcas Delboni Auriemo, Lavoisier e Sérgio Franco

O médico radiologista mineiro Romeu Cortês Domingues, braço direito de Pedro, é o presidente do conselho. Também fazem parte do comitê o independente Oscar Bernardes Neto, ex-CEO da Bunge e ex-sócio da Booz-Allen & Hamilton, e Alexandre de Barros, ex-diretor de tecnologia do Itaú, que veio para estruturaR os sistemas da Dasa. Nos corredores da empresa, há a sensação de que o interesse dos executivos mais próximos de Pedro está em ajudá-lo no momento difícil. O jovem executivo e, agora empresário bilionário, por sua vez, se comprometeu a manter as diretrizes nas quais seu pai acreditava. Também não teria interesse em afastar as pessoas que eram mais próximas de Edson, mesmo as mais resistentes ao seu comando. Torna ainda mais difícil o processo atual o fato de a partida de Edson ter sido inesperada.

O empresário, apesar de septuagenário, geria pessoalmente cada uma de suas empresas e imóveis. Apesar de cardiopata, ele mantinha uma energia invejável, a ponto de ser motivo constante de brincadeiras com seus executivos, que não conseguiam acompanhá-lo em sua agenda de negócios e nas atividades esportivas. Nos seus últimos dias, ele passava um período de descanso em Búzios (RJ). Depois, ele rumaria para uma agenda de reuniões pelo Nordeste e para a Califórnia. Também há rumores de que o empresário conduzia a negociação de seus nove hospitais. Os interessados que disputavam os ativos eram a própria UnitedHealth e a Rede D’Or – controlada pelo fundo soberano de Cingapura GIC. A venda poderia atingir R$ 5 bilhões de valor e daria à empresa compradora a liderança com folga do setor brasileiro de hospitais.

As negociações foram interrompidas com a morte de Bueno, e, como todos os negócios que controlava, agora os ativos passam por um momento de análise por parte da família. O grupo de sócios e executivos mais próximos da família se preocupava sobre como a gestão das empresas poderia ser afetada, uma vez que Pedro teria pela frente tantas decisões difíceis a tomar. Por isso, a chegada de Dulce foi vista como um fator estabilizador. A empresária e médica, que conheceu Edson em 1972, e foi casada com ele durante o período de consolidação da Amil, nas décadas de 1980 e 1990, teve direito a parte do valor de venda da companhia. Com isso, acumulou uma fortuna própria estimada em R$ 2,6 bilhões. Mesmo depois do divórcio, o casal ainda fazia negócios em conjunto.

A compra do controle da Dasa foi realizada pelos dois, o que garantiu à família 98% do controle da empresa de diagnósticos e a retirou da listagem no Novo Mercado da Bovespa. Segundo amigos da família, mesmo quando discordavam de tudo mais, Edson e Dulce sempre respeitaram o tino empresarial um do outro e tinham grande confiança mútua como pessoas de negócios. A ponto de Edson deixar claro que, caso algo acontecesse com ele, seria ela a pessoa certa a se procurar, por conhecer bem os negócios da família e ser uma boa administradora. É de se esperar que seja, com a sua ajuda, que o jovem Pedro complete a sua preparação para tomar a frente de uma das maiores fortunas do Brasil, e garantir um futuro próspero aos negócios da família de Godoy Bueno. Como Edson gostaria.

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Correção: Ao contrário do que foi publicado, Dulce Pugliese, não é mãe de Pedro de Godoy Bueno

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