A mesma pandemia que teve efeitos dramáticos sobre os preços das companhias aéreas, dos bancos e da Petrobrás na Bolsa é a responsável por quase dobrar o valor de mercado da B2W (dona de marcas como Submarino e Shoptime), estender as valorizações dos frigoríficos Marfrig e Minerva e manter a empresa de celulose Klabin com o nariz fora d’água.

Empresas de comércio eletrônico e exportadoras são os destaques da lista das companhias que conseguem valer mais agora do que no início do ano, apesar da crise que paralisou a economia do País. Entre as principais razões para alta desses papéis, estão o dólar mais caro e o chamado “efeito Amazon”.

As ações das empresas de e-commerce ao redor do mundo bateram máximas durante a pandemia com a aceleração das vendas online, tendo como referência o desempenho da gigante americana. O e-commerce parece ter vencido resistências de consumidores mais tradicionais. Isso fez com que balanços de empresas como Magazine Luiza arrancassem adjetivos como “impressionante” dos analistas. Já os frigoríficos viram a China buscar mais carne processada, paga com um dólar que furou a barreira dos R$ 5 – e quase a dos R$ 6.

“O ano 2020 tem sido marcado por dois fatores: a digitalização e a alta do dólar”, diz Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos. “Nas varejistas, o resultado da Amazon puxou as empresas listadas aqui. Para os frigoríficos, o dólar deixou o produto brasileiro mais competitivo. E alimento é item de primeira necessidade.”

Na lista, há também há espaço para a própria B3. Embora o Ibovespa amargue uma queda de quase 19% no ano, o valor da Bolsa de São Paulo subiu 24%. Abaixo, as dez companhias que mais ganharam valor de mercado neste ano.

B2W

A varejista B2W Digital teve prejuízo de R$ 108 milhões no primeiro trimestre – e, mesmo assim, foi a campeã do Ibovespa em termos de valorização no ano. A preferência tem algumas razões de ser: os investidores veem valor na proposta digital e a empresa foi rápida para fechar parcerias estratégicas relevantes durante a crise.

“É uma questão de quem chega primeiro”, diz Daniela Bretthauer, co-head de Renda Variável da casa de análises Eleven Financial. “A Amazon deu prejuízo por muito tempo, mas quando essas empresas fazem a virada, o crescimento é rápido.”

Chamada de “digital puro sangue”, a empresa, dona de marcas como Americanas.com, Submarino e Shoptime, agiu rápido na crise, dizem os analistas. Uma das iniciativas foi a possibilidade de retirada de mercadorias nas Lojas Americanas, sua controladora. Outra foi ter atendido com agilidade ao crescimento da demanda, com parte dos consumidores em casa. Em abril, por exemplo, a B2W registrou alta de 78% no tráfego online e de 318% nos downloads do aplicativo. Os pedidos cresceram 83%, apesar de o tíquete médio ter caído 10%.

A empresa também fechou parceria para novos meios de pagamento nas lojas de conveniência da BR Distribuidora, por meio da Ame Digital. Depois de comprar o supermercado digital Now em janeiro, fez recentemente uma parceria com o Grupo Big, além de ter trazido lojistas de shoppings para sua plataforma.

Foi como se uma mãos lavasse a outra – ou, em tempos de pandemia, passasse álcool gel. A Americanas tem 70% das lojas na rua e sua controlada B2W Digital precisava de pontos físicos de retirada, para entregar as vendas online que cresceram durante o confinamento. Juntas, alavancaram mutuamente seus resultados.

“A empresa se saiu bem na estratégia de clique e retire em parceria com a B2W”, diz Marcel Zambello, analista da plataforma Necton. “Aumentou a capacidade do comércio eletrônico, em uma época de alta demanda pelo serviço.”

A Americanas também conseguiu aproveitar que boa parte das lojas ainda estavam abertas, em uma das datas mais importantes para seu negócio: a Páscoa. “A Lojas Americanas é a empresa que mais vende ovos de Páscoa no Brasil, com marcas exclusivas e muita variedade”, diz Daniela Bretthauer, co-head de Renda Variável da casa de análises Eleven Financial.

“Com presença maior em lojas de rua, eles puderam aproveitar bem a data e o Dia das Mães.” Segundo Daniela, a empresa tem boa combinação entre a capilaridade de lojas físicas bem localizadas e um portfólio com grandes marcas a preços baixos, o que deve fazer a diferença com a população tendo a renda reduzida, em função da crise.

A Americanas, porém, não deixou de sofrer com o isolamento. No primeiro trimestre, a empresa teve prejuízo de R$ 49,2 milhões, perda 8% menor do que o mesmo período de 2019. O resultado foi afetado diretamente pelos 30% de lojas em shoppings, além da redução do movimento. E também pelo aumento da velocidade do abastecimento dos estoques, o que reduziu as margens.

Magalu

O Magazine Luiza tem dado aula de agilidade, inovação e de comunicação durante a pandemia. A rede varejista entrou na crise com o caixa cheio, depois de ter colocado para dentro de casa R$ 4,7 bilhões em uma emissão de ações, no fim de 2019. Mesmo assim, tomou linhas de crédito e cortou salários de executivos e diretoria, entre outras despesas.

Durante a divulgação do balanço do primeiro trimestre, Frederico Trajano, presidente da empresa, disse ter dinheiro em caixa para aguentar por dois anos com as lojas físicas totalmente fechadas.

O Magalu também já era líder em comércio eletrônico, que evidentemente seria beneficiado com grande parte da população trancada em casa. Mesmo assim, desde a primeira semana do isolamento, saiu com campanhas agressivas de frete gratuito e chamando pessoas sem alternativa de renda a montarem lojas em seu marketplace, espécie de shopping virtual, antecipando um movimento que planejava fazer mais à frente. Aproveitou a deixa no discurso da manutenção dos rendimentos e também saiu à frente no movimento “Não demita”, que pedia aos empresários evitarem cortes na crise. Com tudo somado, o canal digital passou a responder por nada menos de 50% das vendas da companhia.

“O mercado já não lê o Magazine Luiza como empresa de varejo, mas sim de tecnologia”, diz o analista da plataforma Necton Marcel Zambello. Para ele, a empresa aposta na nova economia, que traz margens menores, mas ganha em volume de vendas.

Com tamanha valorização no ano, discute-se agora se as ações da companhia não estariam caras. “Hoje o Magalu é Top 10 da Bolsa, mas cada vez que achamos que pode ter chegado em um teto, o teto sobe”, diz Daniela Bretthauer, co-head de Renda Variável da casa de análise Eleven Financial. Ela diz que fatores não facilmente mensuráveis, como a capacidade de reagir rapidamente a momentos de tensão como o da pandemia, devem ser levados em conta na análise desta empresa. Para ela, porém, a empresa deve ter disciplina no uso do caixa que adquiriu.

Marfrig

Mudanças na gestão e o bom momento da pecuária global estão entre os motivos para a alta do valor de mercado da Marfrig, a segunda maior empresa de carnes bovinas do mundo, no ano. “A Marfrig concentrou todo o seu negócio no boi e, quando o próprio dono investe seu dinheiro na empresa, o mercado olha positivamente”, diz Gustavo Figueiredo, da consultoria AgriAgility.

Figueiredo se refere ao fato de Marcos Molina, fundador da Marfrig, ter feito uma grande movimentação no mercado financeiro, buscando recursos e colocando dinheiro do próprio bolso para aumentar sua participação e voltar a ser o maior acionista da empresa. De lá para cá, foram feitas várias mudanças na gestão da companhia.

A venda das ações da empresa por parte do BNDES, que era sócio da Marfrig desde 2007, também ajudou a movimentar e dar liquidez aos papéis. No fim de dezembro, o banco de fomento vendeu os 33,7% de participação da companhia, embolsando R$ 2,1 bilhões.

Lygia Pimentel, analista e proprietária da Agrifatto Consultoria, afirma que a liberação de várias fábricas para exportação ao Egito também impulsionou os resultados. “Há mais algumas no radar para aprovação e habilitação, em breve, pela China”, afirma ela.

Minerva

Especialista em exportações de carne bovina, o frigorífico Minerva ganhou com o câmbio, com o fato de atender a vários mercados pelo mundo em uma época de demanda em alta por alimentos e por ter uma gestão enxuta e ágil. Esses são os principais motivos vistos pelos analistas para que a empresa figurasse entre as maiores altas da Bolsa desde janeiro.

De todo o volume de carne processada pela empresa, entre 70% a 80% vão para o exterior. “É uma empresa boa em exportação”, diz Hyberville Neto, analista da Scot Consultoria.

Lygia Pimentel, da Agrifatto, afirma que o fato de o Minerva não estar atrelada apenas ao mercado chinês é um diferencial. “Não só o chamado ‘Boi China’ traz dividendos, mas também sua capacidade de exportar para vários mercados em um momento de dólar em alta, beneficiando os resultados da empresa”, diz ela.

Para Gustavo Figueiredo, da consultoria AgriAgility, a dependência das exportações, porém, nem sempre é garantia de bons resultados. “Isso hoje responde muito bem para o frigorífico, mas pode também ser um risco de mercado caso haja algum problema que refreie as exportações”, diz.

Alcides Torres, da consultoria Scot, afirma que a Minerva é reconhecidamente uma “empresa muito enxuta, dinâmica e de gestão profissional”, se colocando entre as três maiores indústrias frigoríficas do País, tendo a Marfrig e a JBS um pouco mais à frente no que se refere a volume.

Via Varejo

De modo geral, sempre que uma empresa já com capital aberto emite novas ações, elas tendem a cair. O motivo é simples: o investidor precisará comprar mais papéis dessa companhia para ter a mesma fatia em mãos. Portanto, ele perdeu o valor que detinha. Há exceções.

A Via Varejo fez uma emissão neste mês de junho e colocou R$ 4 bilhões no caixa. eus papéis, porém, subiram antes, durante e depois da emissão.

Além de certo otimismo do mercado com a rede, uma série de fatores impulsionou o movimento. Os investidores já tinham boas expectativas com a Via Varejo, depois da troca de comando e da volta da família fundadora, os especialistas em varejo Klein. “Nos primeiros seis meses da nova gestão da Via Varejo, a empresa basicamente recuperou a relação com fornecedores, a motivação dos vendedores e outros valores”, diz Daniela Bretthauer, co-head de Renda Variável da casa de análise Eleven Financial.

Só que veio a crise. E a Via Varejo mostrou, na prática, que já tinha outra agilidade. No primeiro trimestre, a empresa reverteu o prejuízo de R$ 50 milhões do mesmo período de 2019, em lucro de R$ 13 milhões. Roberto Fulcherberguer, presidente da empresa, aproveitou a ocasião para adiantar os dados do comércio eletrônico: até 12 de maio, havia 12,5 milhões de usuários ativos nos apps da empresa e as vendas de Dia das Mães haviam sido 10% maiores do que no ano anterior, mesmo com 80% de lojas fechadas. “Apesar de ser muito mais dependente do canal físico, a empresa avançou muito no digital”, afirma Daniela.

Para o analista da Necton Marcelo Zambello, a expectativa dos investidores com a Via Varejo está na retomada no quarto trimestre. “A empresa tem muito volume (de vendas)”, diz ele. Segundo ele, linha branca deve retomar vendas a partir do fim do ano, no quarto trimestre.

Weg

Como outras exportadoras, a Weg foi beneficiada pelo câmbio este ano. Mas a valorização de seus papéis na Bolsa foi apoiada também por outros fundamentos sólidos: presença em vários países que diluíram os impactos da pandemia do novo coronavírus, a atuação em diversos segmentos e a capacidade reconhecida de sua gestão. Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos, diz que a empresa foi um porto seguro para os investidores.

“É uma companhia com fábricas em vários países e foi impactada pelo novo coronavírus em períodos diferentes”, diz ele. “Primeiro na China, depois na Europa e mais para a frente nos Estados Unidos, o que fez com que a produção e as exportações fossem impactadas aos poucos.”

Segundo Bruna Pezzin, analista da XP Investimentos, a Weg é conhecida por seu alto grau de eficiência na gestão, “fator importante em um cenário de incertezas”. A analista do BB-BI Catherine Kiselar diz que o investidor coloca a Weg como uma das favoritas pelo potencial e, principalmente, pela consistência histórica dos resultados.

A continuidade da valorização das ações daqui para a frente, porém, será difícil. “Não que não haja potencial para a continuidade de entrega de resultados sólidos, mas sim porque o preço da ação já aumentou significativamente”, diz Catherine. “Se olharmos para o curto prazo, são muitos os desafios, dentre eles a monetização de suas recentes aquisições e a expectativa limitada para produtos de ciclo longo, em que as receitas são geralmente mais altas.”

Sediada em Santa Catarina, a companhia atua em quatro grandes segmentos: industrial e eletrônico, energia, tintas e vernizes e motores para uso doméstico (piscina e geladeira, por exemplo). Historicamente, o doméstico é o que reage mais rápido a alguma mudança na economia.

B3

A B3 foi clara ao afirmar que o forte crescimento de receitas do primeiro trimestre não deve se repetir: o volume negociado no mercado de ações, especialmente no tumultuado mês de março, levou a números difíceis de bater. O mercado parece não se importar: no ano, a B3 é uma das 10 empresas do Ibovespa que mais ganharam valor de mercado.

Apesar de a B3 oferecer mais serviços do que apenas a administração da Bolsa, é o desempenho do mercado de renda variável que, em geral, faz a ação se mexer. Não chega a ser um exagero, dado que quase metade das receitas da companhia no primeiro trimestre veio do mercado de ações e instrumentos de renda variável. Outros 13% foram provenientes do fornecimento de dados, tecnologia e serviços. E, dia após dia, o que enche os olhos dos compradores do papel é o volume negociado no mercado à vista.

Em maio, por exemplo, o giro financeiro nos pregões foi, em média, de R$ 25,4 bilhões. Um ano antes, havia ficado em R$ 14,6 bilhões, alta de 73,9% no período. A grosso modo, isso significa mais receitas entrando no caixa. “A B3 também pode ganhar na queda, com a volatilidade”, diz Julia Monteiro, analista da corretora MyCap. “Temos visto uma volatilidade enorme em um grupo de ações, não em uma ou duas. É algo nunca visto.”

O que poderia limitar esse volume, mesmo com os aportes crescentes de quem está fugindo da renda fixa, é o baixo número de empresas listadas na Bolsa brasileira – eram 391 em maio. De lá para cá, duas saíram do mercado: a CPFL Renováveis e a Elekeiroz. A forte injeção de liquidez global e o juro zero, porém, começam a destravar a fila de aberturas de capital que a covid-19 congelou, e as empresas podem tornar a captar dinheiro no mercado.

Klabin

Uma mistura de mix de produtos variados com a alta no câmbio e o crescimento do comércio eletrônico impulsionou a valorização da Klabin na Bolsa neste ano. “É uma combinação de sua exposição ao dólar e a um segmento mais resistente a turbulências no mercado doméstico”, diz Daniel Sasson, analista do Itaú BBA.

“Em momentos de volatilidade, a Klabin é vista como um investimento mais resiliente. É uma característica histórica da empresa”.

Desta vez, porém, até o crescimento nas vendas pelo comércio eletrônico na pandemia ajudou a fabricante. Para chegar nas casas das pessoas em isolamento, as compras exigem mais papelão – exatamente um de seus principais produtos. As vendas cresceram, mas, em maio, começaram a recuar, refletindo, segundo o analista, o retorno à normalidade. Dados preliminares de maio da Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO) indicam queda de 6,69% nas vendas do produto em relação a abril.

De acordo com Isabella Vasconcelos, analista do Bradesco BBI, outro ponto a favor da Klabin é o amplo leque de setores que atende. Cerca de 80% dos produtos da empresa vão a indústrias alimentícias, de higiene, farmacêuticas e supermercados, entre outros.

O fato de metade de sua operação ser voltada às exportações e o mesmo porcentual de sua geração de caixa vir de celulose – também dolarizada – obviamente ajudou nos resultados. O câmbio foi de R$ 4 para perto de R$ 6 nos últimos meses e agora tem oscilado em torno de R$ 5. “A depreciação do câmbio faz com que os investidores procurem ações ligadas a esse cenário”, diz Sasson.

Notredame

A alta no valor de mercado de uma companhia do setor de saúde pode surpreender em meio a uma pandemia. Havia expectativa de riscos tanto pelo tipo de negócio (aumento da sinistralidade) quanto pelo receio de que o desemprego diminuísse o número de clientes.

Segundo relatório do analista do Itaú BBA Thiago Macruz, com 75% da base de clientes em planos empresariais e uma estrutura verticalizada são pontos positivos da Notredame. Na sexta-feira, a empresa anunciou a aquisição do Grupo Santa Mônica, de MG. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.