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Educação em recuperação

As manifestações dos estudantes paulistas contra a reforma do ensino médio mostram que a mobilização faz milagres

Crédito:  Eduardo Anizelli

Os resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2016, tabulados pelo jornal Folha de S. Paulo, mostram um resultado catastrófico para a educação pública. Os dados são, a um tempo, estarrecedores e desanimadores. Segundo cálculos do jornal, só uma em cada dez escolas com as maiores médias do Enem são públicas.

E mesmo esse laivo de esperança se desvanece com a informação de que poucas delas são escolas comuns. Os melhores colégios são técnicos, federais ou de aplicação, ligados a cursos preparatórios para universidades públicas, com poucas vagas disponíveis.

Outro ponto desanimador é que dinheiro, apenas, não resolve o problema. São Paulo, Estado mais rico da Federação, tem o maior orçamento para a educação. Para 2017, a Assembleia Legislativa aprovou gastos de R$ 29,8 bilhões só com essa secretaria. No entanto, ainda segundo a Folha de S. Paulo, a nota média das escolas públicas paulistas no Enem foi de 525,7. Está acima da média nacional, de 488,23 pontos, mas São Paulo está abaixo de cinco outros estados: Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais.

O retrato da educação pública é um espelho fiel da sociedade brasileira. Nota-se uma enorme desigualdade entre escolas localizadas a poucos quilômetros de distância. Em algumas unidades educacionais a qualidade é elevada e os alunos apresentam um bom desempenho nos vestibulares. Em outras, os padrões são abaixo da crítica.

Como explicar tanta distorção? Há alguns argumentos velhos, porém verdadeiros. O salário inquestionavelmente baixo dos professores. A pequena valorização da carreira docente. O mau uso dos recursos, devido à falta de gestão. O desvirtuamento das escolas nas regiões mais carentes, que acabam se transformando em fornecedoras de merenda em vez de distribuidoras de conhecimento. A gestão ruim – quando chegam ao topo das carreiras gerenciais, os burocratas do setor já estão, há anos, sem saber o que é uma lousa, muito menos um aluno.

Há saída para a educação pública? Sim. Não é uma saída fácil. Nem rápida. Muito menos milagrosa. Não passa por maiores gastos. Nem mesmo por propostas revolucionárias para melhorar a gestão. A chave para a recuperação da educação pública é a maior participação de todos os envolvidos, especialmente os mais próximos. Essa solução requer uma atuação conjunta da escola e da comunidade em que ela está inserida. As escolas de sucesso são aquelas onde diretores, professores, pais e alunos se unem para suprir as deficiências, para garantir que nenhum aluno fique à deriva, perdido entre as enferrujadas engrenagens do processo. Os fatos provam que isso não é uma fantasia. As manifestações dos estudantes paulistas, que ocuparam escolas em outubro de 2016 para protestar contra a reforma do ensino médio, mostram que a mobilização faz milagres. O governo do Estado, que planejava fechar escolas, foi obrigado a repensar o processo. Teoricamente, cuidar da escola deveria ser um dever do Estado. Porém, os números do Enem mostram de maneira indubitável que a escola pode até estar em recuperação, mas que o poder público, como gestor, está reprovado.