Edição nº 1048 08.12 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz na América Latina

A economia está no caminho certo

João Castellano / Agência Istoé

A economia está no caminho certo

Hugo Cilo
Edição 12.10.2017 - nº 1040

Desde 2013, quando assumiu a presidência da Mercedes-Benz na América Latina, o alemão Philipp Schiemer se reúne com jornalistas na sede da empresa, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, com dois objetivos principais: fazer um balanço do desempenho da empresa e traçar cenários para o futuro. Excluindo o encontro de seu ano de estreia, quando a montadora ainda desfrutava de números recordes, os três seguintes foram carregados de reclamação e pessimismo. Com razão.

Desde que entrou, as vendas do setor desabaram 70%, a reboque da maior recessão da história da economia brasileira. Mas o tradicional encontro deste ano, na segunda-feira 9, mostrou um clima diferente. Sorridente, Schiemer anunciou investimento de R$ 2,4 bilhões e afirmou que o pior da crise ficou para trás e que suas vendas neste segundo semestre endossam as teses de que a economia está em trajetória de recuperação. “O Brasil voltou a ter uma chance de estabelecer um caminho para crescer de forma gradual e sustentável.”

DINHEIRO – Não é cedo para afirmar que a crise acabou?

PHILIPP SCHIEMER – Estamos cautelosos, mas otimistas. Pela primeira vez em mais de três anos, temos motivos para comemorar. O segundo semestre está mais aquecido do que o primeiro, num claro movimento de recuperação das vendas. Poderíamos fechar o ano com números bons, se esse reaquecimento tivesse começado mais cedo.

DINHEIRO – O crescimento é consistente?

SCHIEMER – Sim, mas gradual. Entre 2013 e a primeira metade de 2017, o setor de caminhões viveu uma das fases mais dramáticas da história. As vendas acumularam uma queda de cerca de 70%. As quedas de alguns setores importantes da economia puxaram para baixo nosso setor também. Agora que toda a economia começa a se recuperar, recuperamos junto.

DINHEIRO – Mas alguns setores, como o agronegócio, conseguiram se segurar na crise…

SCHIEMER – A agricultura tem apresentado um desempenho muito positivo, sim. Além disso, as empresas do agronegócio conseguiram, graças a uma situação financeira melhor, preservar seu acesso ao crédito. O mercado de caminhões é muito dependente do crédito. Os bancos só emprestam para quem comprova condições de pagar. A combinação de bom desempenho do setor e a bom acesso a financiamento mantém o agronegócio com perspectivas muito otimistas.

DINHEIRO – O agronegócio não tem sido o único, certo?

SCHIEMER – Sim, o setor de logística também dá sinais de recuperação. Temos percebido uma alta de cerca de 25% nos negócios para essa atividade. Além disso, acredito que 2018 será o ano do início da recuperação da construção civil, uma indústria que demanda investimentos em veículos pesados e extrapesados. Há no horizonte também boas perspectivas para a renovação das frotas urbanas de ônibus, as frotas rodoviárias e até de ônibus escolares. Estamos observando com atenção cada um deles para poder suprir as demandas específicas de cada atividade.

DINHEIRO – Além da queda nas vendas, como a crise afetou os números da operação brasileira?

SCHIEMER – O volume de vendas despencou, mas conseguimos avançar em participação de mercado. Em 2013, quando a crise começou para valer, a Mercedes-Benz respondia por 19% das vendas nacionais. Neste ano, nosso market share está em 25,4%. Outro bom indicador é o volume de emplacamentos diários, que cresce mês a mês. A nossa média em outubro está maior do que a média registrada em setembro. A recuperação é gradual, mas está acontecendo.

Declaração de Philipp Schiemer sobre a política económica conduzida por Henrique Meirelles, ministro da Fazenda (Crédito:José Cruz/Agência Brasil )

DINHEIRO – Quais são os indicadores macroeconômicos que sustentam esse otimismo?

SCHIEMER – Acredito que a estabilidade do câmbio é um sinal de que a economia está no caminho certo. Quando há pouca variação do dólar, é possível ter mais previsibilidade e, consequentemente, isso ajuda a restaurar a confiança. Somos sempre cautelosos, mas não temos dúvidas de que o crescimento do setor de caminhões em 2018 será impulsionado pela combinação positiva dos fatores macroeconômicos.

DINHEIRO – A crise não gerou um trauma nas empresas?

SCHIEMER – Se a confiança voltar, as empresas voltam a investir. O potencial do Brasil é enorme. O caminho da recuperação não está andado, mas estamos na rota certa.

DINHEIRO – Mas, para compensar a queda interna, o setor apostou na exportação. A Mercedes fez isso?

SCHIEMER – As exportações aceleraram 25,9% no acumulado deste ano. É um resultado muito bom. A Argentina tem nos surpreendido, com um aumento significativo das compras. Lá, a economia ainda tem grandes desafios pela frente, mas está no caminho certo. Houve estabilidade nos últimos dois anos. Estamos com boas exportações também para Chile, Peru, Colômbia e Equador. Vamos exportar motores M460 para a Alemanha. Enfim, precisamos ser competitivos não apenas no Brasil, mas também lá fora. Temos concorrentes muito fortes, como a China e a Índia, e há grandes oportunidades no mercado internacional.

DINHEIRO – O que é preciso fazer para resgatar a confiança?

SCHIEMER – A gente tem que comprar a ideia das reformas para crescer de verdade. O Brasil voltou a ter uma chance de estabelecer um caminho para crescer de forma sustentável.

DINHEIRO – Mas os investidores levarão tempo para se convencerem de que o Brasil é um bom local para investir…

SCHIEMER – O investidor internacional só coloca dinheiro em alguma empresa brasileira se ele tem confiança de as contas serão pagas. Por isso, as reformas são essenciais para criar um ambiente de confiança no futuro. Nesse contexto, os juros precisam cair. Com uma Selic alta, o investimento deixa de ser atrativo. É melhor deixar o dinheiro render em títulos do governo, sem nenhum trabalho e quase nenhum risco. Quando a Selic cair mais, o dinheiro que está parado em papéis entra na economia para reativar a produção e o consumo.

Construção de edifícios comerciais em São Paulo (Crédito:iStock)

DINHEIRO – Os novos investimentos da Mercedes-Benz simbolizam esse movimento?

SCHIEMER – Com certeza. Conseguimos aprovar junto ao board da Mercedes, na Alemanha, um investimento de R$ 2,4 bilhões para o período de 2018 e 2022. Esse dinheiro, complementar aos R$ 750 milhões do ciclo 2015 e 2018, será direcionado à modernização das fábricas em São Bernardo do Campo e em Juiz de Fora, em Minas Gerais, além de lançamento de novos produtos. Entre 2010 e 2015, já havíamos investido outros R$ 2,5 bilhões. Está muito claro na cabeça de todos nós que não adianta termos as melhores fábricas, se não temos os melhores produtos. Temos de ter classe mundial em processos de produção e produtos.

DINHEIRO – A fábrica de São Bernardo está defasada em termos tecnológicos e de produtividade?

SCHIEMER – A unidade de São Bernardo, com 7.700 funcionários, já é considerada uma das mais modernas da Mercedes-Benz no mundo, mas há o que melhorar. A unidade foi inaugurada em uma época em que o País não oferecia uma cadeia completa de fornecedores. Por isso, muitas partes do caminhão, além do nosso ‘core business’ eixo, motor e câmbio, era produzida internamente. Hoje, não faz mais sentido. Tínhamos 56 armazéns. Agora, unificamos para apenas 6. Com a implementação de várias mudanças, desde o início da crise, aumentamos em 15% nossa produtividade em São Bernardo.

DINHEIRO – Está nos planos antecipar a produção de motores Euro 6 no Brasil?

SCHIEMER – Não adianta ter o Euro 6 (a mais rígida norma europeia de emissão de poluentes), se metade da frota brasileira é ‘Euro Zero’. O custo de se trazer esse motor será pago por todos, e não acho que seja o momento mais apropriado para fazer isso.

DINHEIRO – A reclamação do setor, nos últimos anos, não foi exagerada?

SCHIEMER – Nós todos reclamamos muito nos últimos anos, é verdade. Mas não era uma reclamação sem causa. Havia problemas reais que resultaram na maior recessão de todos os tempos. Mas, agora que enxergamos que o caminho está correto, precisamos falar e demonstrar confiança.

DINHEIRO – E se o País der marcha à ré?

SCHIEMER – Existem riscos, é claro. Não há garantias de que a recuperação será real pelos próximos anos. Mas existe uma postura de clareza da equipe econômica. O déficit fiscal é conhecido. O plano de reação também é amplamente divulgado. A caixa preta do governo foi aberta e, mesmo que os números não sejam aqueles que gostaríamos, o jogo é mais claro e aberto.

  • Dólar Comercial
    R$3,29600 +0,27%
  • Euro Comercial
    R$3,87740 0,00%
  • Dow Jones
    24.329,20 +0,49%
  • Nasdaq
    6.840,0800 +0,40%
  • Londres
    7.393,96 +1,00%
  • Frankfurt
    13.153,70 +0,83%
  • Paris
    5.399,09 +0,28%
  • Madrid
    10.321,10 +0,57%
  • Hong Kong
    28.639,80 +1,19%
  • CDI Anual
    6,89% -6,76%

Empreendedores do Ano 2017

O ano da virada

Premiação

Premiação

O ano da virada

Depois de quase três anos seguidos de recessão, as principais lideranças empresariais, artísticas e políticas do País não esconderam o alívio na festa de premiação dos Brasileiros do Ano. Há um consenso de que o ano de 2018 será ainda melhor, mas a eleição é uma fonte de incertezas


Tecnologia


Saiba quem são os primeiros bilionários da bitcoin

Moeda virtual

Saiba quem são os primeiros bilionários da bitcoin

Os irmãos Cameron e Tyler Winklevoss fazem fortuna com a moeda virtual, que soma uma valorização de mais de 1.500% em 2017, levantando questões sobre uma bolha especulativa. É confiável investir na criptomoeda?

Twitter começa a reagir e pode atingir o primeiro lucro trimestral de sua história

Efeito Trump

Twitter começa a reagir e pode atingir o primeiro lucro trimestral de sua história

Ajudado pelo presidente americano e por ajustes em sua plataforma, o Twitter começa a reagir e pode atingir o primeiro lucro trimestral de sua história


Entrevista

Fernando Honorato, economista

Fernando Honorato, economista

"O eleitor não está alienado das discussões de política econômica"

O economista-chefe do Bradesco analisa a atual situação da economia brasileira e os problemas que o País precisa enfrentar, tanto para manter a taxa básica de juros em patamares baixos no longo prazo como para fazer o crescimento cíclico do PIB voltar a acontecer de forma sustentada


Finanças


Vale a pena investir no IPO do Burger King?

Mercado financeiro

Vale a pena investir no IPO do Burger King?

Que tal seguir Jorge Paulo Lemann e investir no Burger King? Rede deve abrir capital no Brasil, mas operação não parece tão apetitosa como nos EUA

BB define estratégia para elevar rentabilidade

Banco estatal

BB define estratégia para elevar rentabilidade


Negócios

Para onde vai o Walmart?

Varejista em crise

Varejista em crise

Para onde vai o Walmart?

Com integração das operações físicas e digitais, a maior varejista global tenta reverter histórico de maus resultados no Brasil. Ao mesmo tempo, o mercado cogita que a rede já teria um prazo definido para deixar o País


Colunas


A opção Meirelles

Editorial

A opção Meirelles

Roberto Justus entra no mercado financeiro

Moeda Forte Exclusivo

Roberto Justus entra no mercado financeiro

Subsídio para poluir? Oi?

Sustentabilidade

Subsídio para poluir? Oi?

A tacada de US$ 82 mi na Movile

Dinheiro & Tecnologia

A tacada de US$ 82 mi na Movile

Diamante da paz

Cobiça

Diamante da paz


Artigo

Que presente mais esquisito, senhor Trump

Presidente americano

Presidente americano

Que presente mais esquisito, senhor Trump

O presente de Natal de Trump para os americanos é um corte de impostos, que vai pressionar ainda mais a dívida pública e fazer os ricos ficarem ainda mais ricos. Vai entender a lógica do presidente dos Estados Unidos

Copyright © 2017 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.