Edição nº 1057 16.02 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz na América Latina

A economia está no caminho certo

João Castellano / Agência Istoé

A economia está no caminho certo

Hugo Cilo
Edição 12.10.2017 - nº 1040

Desde 2013, quando assumiu a presidência da Mercedes-Benz na América Latina, o alemão Philipp Schiemer se reúne com jornalistas na sede da empresa, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, com dois objetivos principais: fazer um balanço do desempenho da empresa e traçar cenários para o futuro. Excluindo o encontro de seu ano de estreia, quando a montadora ainda desfrutava de números recordes, os três seguintes foram carregados de reclamação e pessimismo. Com razão.

Desde que entrou, as vendas do setor desabaram 70%, a reboque da maior recessão da história da economia brasileira. Mas o tradicional encontro deste ano, na segunda-feira 9, mostrou um clima diferente. Sorridente, Schiemer anunciou investimento de R$ 2,4 bilhões e afirmou que o pior da crise ficou para trás e que suas vendas neste segundo semestre endossam as teses de que a economia está em trajetória de recuperação. “O Brasil voltou a ter uma chance de estabelecer um caminho para crescer de forma gradual e sustentável.”

DINHEIRO – Não é cedo para afirmar que a crise acabou?

PHILIPP SCHIEMER – Estamos cautelosos, mas otimistas. Pela primeira vez em mais de três anos, temos motivos para comemorar. O segundo semestre está mais aquecido do que o primeiro, num claro movimento de recuperação das vendas. Poderíamos fechar o ano com números bons, se esse reaquecimento tivesse começado mais cedo.

DINHEIRO – O crescimento é consistente?

SCHIEMER – Sim, mas gradual. Entre 2013 e a primeira metade de 2017, o setor de caminhões viveu uma das fases mais dramáticas da história. As vendas acumularam uma queda de cerca de 70%. As quedas de alguns setores importantes da economia puxaram para baixo nosso setor também. Agora que toda a economia começa a se recuperar, recuperamos junto.

DINHEIRO – Mas alguns setores, como o agronegócio, conseguiram se segurar na crise…

SCHIEMER – A agricultura tem apresentado um desempenho muito positivo, sim. Além disso, as empresas do agronegócio conseguiram, graças a uma situação financeira melhor, preservar seu acesso ao crédito. O mercado de caminhões é muito dependente do crédito. Os bancos só emprestam para quem comprova condições de pagar. A combinação de bom desempenho do setor e a bom acesso a financiamento mantém o agronegócio com perspectivas muito otimistas.

DINHEIRO – O agronegócio não tem sido o único, certo?

SCHIEMER – Sim, o setor de logística também dá sinais de recuperação. Temos percebido uma alta de cerca de 25% nos negócios para essa atividade. Além disso, acredito que 2018 será o ano do início da recuperação da construção civil, uma indústria que demanda investimentos em veículos pesados e extrapesados. Há no horizonte também boas perspectivas para a renovação das frotas urbanas de ônibus, as frotas rodoviárias e até de ônibus escolares. Estamos observando com atenção cada um deles para poder suprir as demandas específicas de cada atividade.

DINHEIRO – Além da queda nas vendas, como a crise afetou os números da operação brasileira?

SCHIEMER – O volume de vendas despencou, mas conseguimos avançar em participação de mercado. Em 2013, quando a crise começou para valer, a Mercedes-Benz respondia por 19% das vendas nacionais. Neste ano, nosso market share está em 25,4%. Outro bom indicador é o volume de emplacamentos diários, que cresce mês a mês. A nossa média em outubro está maior do que a média registrada em setembro. A recuperação é gradual, mas está acontecendo.

Declaração de Philipp Schiemer sobre a política económica conduzida por Henrique Meirelles, ministro da Fazenda (Crédito:José Cruz/Agência Brasil )

DINHEIRO – Quais são os indicadores macroeconômicos que sustentam esse otimismo?

SCHIEMER – Acredito que a estabilidade do câmbio é um sinal de que a economia está no caminho certo. Quando há pouca variação do dólar, é possível ter mais previsibilidade e, consequentemente, isso ajuda a restaurar a confiança. Somos sempre cautelosos, mas não temos dúvidas de que o crescimento do setor de caminhões em 2018 será impulsionado pela combinação positiva dos fatores macroeconômicos.

DINHEIRO – A crise não gerou um trauma nas empresas?

SCHIEMER – Se a confiança voltar, as empresas voltam a investir. O potencial do Brasil é enorme. O caminho da recuperação não está andado, mas estamos na rota certa.

DINHEIRO – Mas, para compensar a queda interna, o setor apostou na exportação. A Mercedes fez isso?

SCHIEMER – As exportações aceleraram 25,9% no acumulado deste ano. É um resultado muito bom. A Argentina tem nos surpreendido, com um aumento significativo das compras. Lá, a economia ainda tem grandes desafios pela frente, mas está no caminho certo. Houve estabilidade nos últimos dois anos. Estamos com boas exportações também para Chile, Peru, Colômbia e Equador. Vamos exportar motores M460 para a Alemanha. Enfim, precisamos ser competitivos não apenas no Brasil, mas também lá fora. Temos concorrentes muito fortes, como a China e a Índia, e há grandes oportunidades no mercado internacional.

DINHEIRO – O que é preciso fazer para resgatar a confiança?

SCHIEMER – A gente tem que comprar a ideia das reformas para crescer de verdade. O Brasil voltou a ter uma chance de estabelecer um caminho para crescer de forma sustentável.

DINHEIRO – Mas os investidores levarão tempo para se convencerem de que o Brasil é um bom local para investir…

SCHIEMER – O investidor internacional só coloca dinheiro em alguma empresa brasileira se ele tem confiança de as contas serão pagas. Por isso, as reformas são essenciais para criar um ambiente de confiança no futuro. Nesse contexto, os juros precisam cair. Com uma Selic alta, o investimento deixa de ser atrativo. É melhor deixar o dinheiro render em títulos do governo, sem nenhum trabalho e quase nenhum risco. Quando a Selic cair mais, o dinheiro que está parado em papéis entra na economia para reativar a produção e o consumo.

Construção de edifícios comerciais em São Paulo (Crédito:iStock)

DINHEIRO – Os novos investimentos da Mercedes-Benz simbolizam esse movimento?

SCHIEMER – Com certeza. Conseguimos aprovar junto ao board da Mercedes, na Alemanha, um investimento de R$ 2,4 bilhões para o período de 2018 e 2022. Esse dinheiro, complementar aos R$ 750 milhões do ciclo 2015 e 2018, será direcionado à modernização das fábricas em São Bernardo do Campo e em Juiz de Fora, em Minas Gerais, além de lançamento de novos produtos. Entre 2010 e 2015, já havíamos investido outros R$ 2,5 bilhões. Está muito claro na cabeça de todos nós que não adianta termos as melhores fábricas, se não temos os melhores produtos. Temos de ter classe mundial em processos de produção e produtos.

DINHEIRO – A fábrica de São Bernardo está defasada em termos tecnológicos e de produtividade?

SCHIEMER – A unidade de São Bernardo, com 7.700 funcionários, já é considerada uma das mais modernas da Mercedes-Benz no mundo, mas há o que melhorar. A unidade foi inaugurada em uma época em que o País não oferecia uma cadeia completa de fornecedores. Por isso, muitas partes do caminhão, além do nosso ‘core business’ eixo, motor e câmbio, era produzida internamente. Hoje, não faz mais sentido. Tínhamos 56 armazéns. Agora, unificamos para apenas 6. Com a implementação de várias mudanças, desde o início da crise, aumentamos em 15% nossa produtividade em São Bernardo.

DINHEIRO – Está nos planos antecipar a produção de motores Euro 6 no Brasil?

SCHIEMER – Não adianta ter o Euro 6 (a mais rígida norma europeia de emissão de poluentes), se metade da frota brasileira é ‘Euro Zero’. O custo de se trazer esse motor será pago por todos, e não acho que seja o momento mais apropriado para fazer isso.

DINHEIRO – A reclamação do setor, nos últimos anos, não foi exagerada?

SCHIEMER – Nós todos reclamamos muito nos últimos anos, é verdade. Mas não era uma reclamação sem causa. Havia problemas reais que resultaram na maior recessão de todos os tempos. Mas, agora que enxergamos que o caminho está correto, precisamos falar e demonstrar confiança.

DINHEIRO – E se o País der marcha à ré?

SCHIEMER – Existem riscos, é claro. Não há garantias de que a recuperação será real pelos próximos anos. Mas existe uma postura de clareza da equipe econômica. O déficit fiscal é conhecido. O plano de reação também é amplamente divulgado. A caixa preta do governo foi aberta e, mesmo que os números não sejam aqueles que gostaríamos, o jogo é mais claro e aberto.

  • Dólar Comercial
    R$3,24400 -0,15%
  • Euro Comercial
    R$3,99350 -0,32%
  • Dow Jones
    25.040,60 +0,31%
  • Nasdaq
    7.237,1100 +0,37%
  • Londres
    7.230,52 -0,30%
  • Frankfurt
    12.484,70 +0,18%
  • Paris
    5.311,91 +0,05%
  • Madrid
    9.796,00 -0,82%
  • Hong Kong
    31.267,20 +0,06%
  • CDI Anual
    6,64% 0,00%

Desemprego

IBGE mostra que 26,3 milhões de pessoas estão sem emprego


Após balanço, BRF perde quase R$ 1 bilhão de valor de mercado

Desastre

Após balanço, BRF perde quase R$ 1 bilhão de valor de mercado

“Existe uma dificuldade de formação em tecnologia. Temos 200 funcionários e 80 vagas abertas”

Entrevista

“Existe uma dificuldade de formação em tecnologia. Temos 200 funcionários e 80 vagas abertas”

Congresso barra medidas com impacto de R$ 32 bi

Contas públicas

Congresso barra medidas com impacto de R$ 32 bi

PF prende presidente da Fecomércio do Rio

Lava Jato

PF prende presidente da Fecomércio do Rio

Meirelles admite disputar Presidência contra Temer

Corrida presidencial

Meirelles admite disputar Presidência contra Temer


Economia


Banco Central deixa claro que é contra o ‘mandato duplo’

Controle da inflação

Banco Central deixa claro que é contra o ‘mandato duplo’

Crédito

BNDES quer ser o banco de investimento da União

Recuperação

Confiança da indústria sobe 0,2 ponto em fevereiro, mostra prévia da FGV

Inflação

IPC-S sobe 0,26% na 3ª quadrissemana de fevereiro, diz FGV (+0,46% na anterior)


TV Dinheiro

Acompanhe as projeções econômicas para 2018

Análise

Análise

Acompanhe as projeções econômicas para 2018

O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, comenta as projeções para desemprego, IPCA, Selic e dólar


Negócios


Queiroz Galvão renegocia R$ 10 bilhões com bancos

Endividamento

Queiroz Galvão renegocia R$ 10 bilhões com bancos

Carro elétrico é risco ao setor, diz presidente da PSA Peugeot Citroën

Preocupação

Carro elétrico é risco ao setor, diz presidente da PSA Peugeot Citroën


Blog

Desempenho socioambiental vale dinheiro

Blog Economia Consciente

Blog Economia Consciente

Desempenho socioambiental vale dinheiro

A Danone realizou um acordo pioneiro com bancos privados que representa um passo concreto na direção de derrubar o argumento de que ações sociais não dão retorno


Mundo


Le Pen: Macron ‘sacrifica’ pecuaristas franceses com acordo UE-Mercosul

Líder da extrema direita

Le Pen: Macron ‘sacrifica’ pecuaristas franceses com acordo UE-Mercosul

Vice-premier australiano comunica renúncia após escândalo

Renúncia

Vice-premier australiano comunica renúncia após escândalo


Entrevista

O impacto do blockchain sobre a economia brasileira será imenso

Don Tapscott, autor de "Blockchain Revolution"

Don Tapscott, autor de "Blockchain Revolution"

O impacto do blockchain sobre a economia brasileira será imenso

Don Tapscott começou a escrever sobre tecnologia nos anos 1980, e, em 1995, publicou seu bestseller A Economia Digital. Duas décadas mais tarde, ele voltou às manchetes, com a publicação de Blockchain Revolution


Mercado Digital


Amazon começa a reforçar operação própria no Brasil

Só sorrisos

Amazon começa a reforçar operação própria no Brasil

Depois de chegar de forma tímida ao Brasil, a gigante global do comércio eletrônico negocia quadruplicar seu centro de distribuição e começa a reforçar sua operação própria

Facebook vive novo calvário com saída de anunciantes

Martírio

Facebook vive novo calvário com saída de anunciantes

A Unilever, um dos maiores anunciantes do mundo, ameaça deixar de investir na rede social de Mark Zuckerberg e evidencia a crise pela qual a empresa passa com a disseminação de notícias falsas


Negócios

O que a HP está fazendo para mudar sua imagem

Além da primeira impressão

Além da primeira impressão

O que a HP está fazendo para mudar sua imagem

Quando a HP separou suas operações, a área de PCs e de impressoras era considerada o patinho feio. Dois anos depois, tudo mudou para a companhia


Economia


Setor elétrico desponta como a nova joia da coroa

Choque de Investimentos

Setor elétrico desponta como a nova joia da coroa

Com boa oferta de ativos e avanço na regulação, o setor elétrico desponta como o novo “queridinho” dos investidores estrangeiros no Brasil

Como a violência está minando a economia do Rio

Caos

Como a violência está minando a economia do Rio

A intervenção federal na segurança pública é a última esperança de salvar o Rio de Janeiro. A violência está minando a economia local e agravando o quadro social

Brasil abre as portas a refugiados venezuelanos

Bandeira verde

Brasil abre as portas a refugiados venezuelanos

Brasil decreta “emergência social” para receber 18 mil refugiados em Roraima

A difícil missão de Powell, novo presidente do FED

Estados Unidos

A difícil missão de Powell, novo presidente do FED

Diferente de seus antecessores, o novo presidente do banco central americano terá de reduzir o ritmo da economia sem colocar seu país (e o resto do mundo) de novo em crise

Há tempo para uma alternativa ao Brexit?

Reino Unido

Há tempo para uma alternativa ao Brexit?

Enquanto a primeira ministra Theresa May direciona seus esforços para a China, o megainvestidor George Soros tenta impedir a separação entre o Reino Unido e a União Europeia


Finanças


Paraná Banco volta suas forças para o crédito consignado

Um negócio só

Paraná Banco volta suas forças para o crédito consignado

Para se diferenciar dos concorrentes, o Paraná Banco fez uma revisão de sua estratégia, decidiu voltar às origens e focar apenas no crédito consignado

Juros e crescimento da economia abrem caminho para os lucros

Aceleração

Juros e crescimento da economia abrem caminho para os lucros

Juros baixos e expectativa de crescimento da economia incentivam os ganhos dos fundos imobiliários. Saiba o que os especialistas recomendam


Estilo

Por que falar bem é tão importante nos negócios

Força da oratória

Força da oratória

Por que falar bem é tão importante nos negócios

Tanto para fechar novos acordos quanto para causar uma boa impressão pessoal, executivos investem na arte da oratória e da influência


Colunas


A necessária igualdade na Previdência

Editorial

A necessária igualdade na Previdência

Bolsonaro come pelas beiradas

Moeda Forte

Bolsonaro come pelas beiradas

A força da vitamina c

Sustentabilidade

A força da vitamina c

Um trimestre para sorrir

Dinheiro & Tecnologia

Um trimestre para sorrir

Niemeyer e Véio são destaque em Milão

Cobiça

Niemeyer e Véio são destaque em Milão

Trump pode afundar os EUA e o mundo

Por Luís Artur Nogueira

Por Luís Artur Nogueira

Trump pode afundar os EUA e o mundo

O maior equívoco de Trump foi estimular a economia num momento de forte crescimento. Isso pode obrigar o Federal Reserve, sob o comando de Jerome Powell (à dir.), a elevar os juros várias vezes para controlar a inflação

X

Copyright © 2018 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.