Economia

A economia das pessoas

Prêmio Nobel ao americano Richard Thaler valoriza seu esforço para entender o impacto de reações individuais inesperadas em teorias clássicas. Os estudos são referência para que companhias e governos não confiem cegamente em modelos

Crédito: Scott Olson

Celebridade: ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Richard Thaler, tira fotos após saber do resultado, na Universidade de Chicago (Crédito: Scott Olson)

Para explicar os conceitos de finanças comportamentais numa de suas aulas, a professora Loren Lagan, da Universidade de São Thomas, em Minneapolis, nos Estados Unidos, dividiu a classe em dois grupos e entregou panos de prato a apenas um deles. Em seguida, pediu para que todos os presentes, com ou sem o pano, estimassem qual seria o preço mínimo para compra e venda. Quem recebeu o produto acabou estipulando um valor teórico duas vezes maior do que os que estavam sem o material. “Pelas teorias tradicionais de economia, os dois preços deveriam estar no mesmo patamar”, afirma Lagan. O exercício era, na verdade, uma aplicação prática de uma das teses do economista americano Richard H. Thaler, vencedor do Prêmio Nobel de Economia deste ano, e um dos maiores pesquisadores da relação entre a psicologia e a economia.

Professor da Universidade de Chicago, Thaler demonstrou como os modelos econômicos acabaram falhando no passado porque levavam em conta um comportamento racional de indivíduos. O experimento dos panos de prato da professora, por exemplo, foi feito por ele com xícaras, com o mesmo resultado. Suas teses são importantes porque ajudam a mostrar a executivos e governos que eles devem levar em conta as nuances comportamentais na hora de traçar políticas públicas e estratégias corporativas. “Para fazer uma boa economia, você tem que ter em mente que as pessoas são humanas”, afirmou Thaler, na segunda-feira 9, após saber que foi laureado com o Nobel.

Dentre os méritos do economista premiado estão a simplicidade e a clareza de suas teorias. Ele identifica alguns exemplos da influência comportamental nas decisões pessoais, que podem ser divididos em três áreas: a racionalidade limitada (no caso dos panos de prato, o apego emocional de quem tinha um pano distorceu a noção de preço); a percepção de igualdade (indivíduos e corporações levam em consideração aspectos subjetivos na hora de negociar bens, como o vendedor de guarda-chuva que tende a segurar aumentos de preços abusivos no meio de uma tempestade por considerar injusto); e a falta de autocontrole (explica por que as pessoas fazem promessas ambiciosas na virada do ano, mas não conseguem cumpri-las).

Como isso influencia o espectro econômico? Essas reações inesperadas alteram modelos econômicos, previsões e diagnósticos. Por exemplo: um motorista de táxi que planeja trabalhar um número determinado de horas por dia pode deixar o serviço no meio do pico de demanda se alcançar a carga horária estipulada, o que trará um impacto na oferta de táxis disponíveis. O estudo mostra que é possível traçar um padrão acerca do aspecto irracional, o que permite incorporá-lo nos modelos. Nos Estados Unidos, há uma série de aplicações práticas das teorias de Thaler.

Cidades e Estados passaram a obrigar moradores em áreas de alagamentos a contratar seguro contra enchentes para evitar decisões focadas no bem-estar imediato, em detrimento do longo prazo, uma aplicação do conceito de falta de autocontrole. Em vez de perguntar para os novos funcionários se eles queriam aderir aos planos de previdência complementar, companhias americanas passaram a descontar automaticamente de seus contracheques, dando a liberdade para quem não concordasse retirar-se dos programas. A maioria optou em mantê-los, por preguiça de cancelá-los. Esses exemplos mostram como as teorias podem ser aplicadas em políticas públicas.

No Brasil, gestores federais trabalharam para aprovar uma lei que permita a adesão automática de novos servidores aos fundos de pensão, numa tentativa de dar mais robustez aos planos. Até agora, o setor privado vem sendo mais eficiente em enxergar valor nas teorias comportamentais de Thaler. Isso explica as promoções de “compre um e leve dois”, para atiçar a sensação de ganho nos indivíduos. Nas negociações salariais com funcionários, gestores aprenderam como é mais fácil aprovar a manutenção dos patamares correntes, sem a reposição da inflação, do que propor um corte nos contracheques, por mais que, no final, o efeito no bolso seja também uma perda real de valor.

Para a Academia Real Sueca, responsável pelo Prêmio Nobel, conclusões como essa mostram como Thaler conseguiu estabelecer uma intersecção única entre os campos da psicologia e economia. “Suas conclusões foram fundamentais para a criação e rápida expansão da economia comportamental, que teve grande impacto na aplicação de políticas econômicas”, afirmou a Academia em comunicado. Questionado sobre o que pretende fazer com o prêmio de US$ 1,1 milhão que vai receber pelo Nobel, Thaler brincou dizendo que vai “gastá-lo tão irracionalmente quanto for possível”, mostrando que nem ele deixa de ser gente como a gente.