Negócios

Economia criativa mesmo

Vendendo desde passagens aéreas até mídia outdoor, empreendedores lucram alto com um tipo de cliente que nem sempre atende às exigências para obtenção de crédito

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Sem comprovação: dispensar a burocracia dos bancos e operadoras de cartão de crédito é a maneira de fazer negócios com moradores de comunidades como a Rocinha, no Rio de Janeiro (Crédito: iStock)

Morador da Tijuca, no Rio de Janeiro, Alexandre Magno, de 53 anos, trabalhou a vida inteira com consórcios. Vendeu de eletrodomésticos a imóveis até receber o convite para ingressar no mercado de turismo. Apesar de não ter conhecimento no ramo, topou o desafio. Na semana seguinte, estacionou o carro na entrada da comunidade do Caju, na Zona Portuária, e começou a vender passagens aéreas para os moradores. As vendas, realizadas via carnê, sem qualquer exigência de comprovação de renda, nome limpo ou mesmo de uma conta bancária, fizeram o negócio decolar. “Ficamos na entrada da comunidade na hora que as pessoas chegavam do trabalho e começamos a vender na rua. Oito anos depois, Magno é proprietário de quatro lojas da Vai Voando, agência especializada em atender clientes dos públicos C e D com dificuldades para acessar canais tradicionais de consumo.

Desde 2009 no mercado, a Vai Voando tem hoje 550 pontos de venda espalhados Brasil e um faturamento de R$ 75 milhões. Segundo Luiz Andreaza, diretor da empresa, a expectativa é crescer 12% este ano. “Não dava para levar os meios tradicionais de crédito para este público”, explica. Além do carnê, a empresa aceita dividir o valor da viagem em até três cartões de créditos de pessoas diferentes. “O cliente pode não ter limite no cartão, mas aceitamos cartões de parentes, vizinhos e até amigos”, diz Andreaza. “Hoje, 40% das nossas vendas são desta forma.” Para seguir até o portão de embarque é necessário quitar as parcelas até sete dias antes da viagem. Quem não consegue pagar, não viaja e perde metade do valor já investido.

Sonho: via carnê ou em vários cartões de crédito é possível fazer qualquer viagem (Crédito:Gabriel Reis)

Em São Paulo, a favela de Paraisópolis já conta com três agências. No Rio de Janeiro, a Rocinha tem outras três. A empresa também cresce rapidamente na região Norte e 50% das vendas são em cidades como Porto Velho, em Rondônia, e Boa Vista, em Roraima. Uma das pessoas por trás do negócio é Celso Athayde. Nascido e criado em comunidades do Rio, este ex-morador de rua é o fundador da Favela Holding, que engloba 22 diferentes tipos de empresas. O elo em comum dos negócios é o cenário: as comunidades de todo Brasil. “As favelas têm de rendimento R$ 80 bilhões por ano”, afirma. “O favelado não faz investimento, ele consome absolutamente tudo o que ganha.”

Cerca de 60% dos moradores das comunidades não são bancarizados, estima Athayde. “O asfalto sempre discriminou essas pessoas e ainda é assim”, afirma. “O que mudou é que algumas empresas viram aí um nicho”. Foi assim que surgiu, em 2015, na favela de Cabanas, em Mariana, Minas Gerais, a Comunidade Door. A empresa instala placas publicitárias em 3.500 comunidades por todo o País. Com 29 funcionários e 4.000 parceiros, faturou R$ 23 milhões no último ano. O modelo foi idealizado por Marciele Procópio, de 38 anos.

Antiga proprietária de um salão de beleza, ela se viu diante de um dilema. Precisava tornar seu negócio conhecido, mas não tinha verba para divulgação. Com a ajuda da irmã, criou uma pequena gráfica. No início, imprimiam com tinta preta em folhas de papel de pão. Um processo manual e que ela classifica como “feio e desengonçado, algo muito ruim mesmo”. Para fixar os cartazes em postes e muros das favelas, elas usavam uma cola de farinha de trigo e água. “O papel de pão absorvia a cola e manchava tudo. Mas, como a cidade era pequena, ficamos conhecidas”.

O salto para a Comunidade Door foi dado anos depois, quando Marciele passou a frequentar os eventos da Central Única das Favelas (CUFA) e recebeu apoio e capital para desenvolver o negócio. Agora, confeccionadas com poliondas (um plástico 100% reciclável) e medindo 2 x 1 metro, as placas são leves e de fácil aplicação. Com quatro pregos qualquer morador consegue afixar a propaganda em seu barraco. Cada parceiro recebe R$ 110 pela instalação de uma única placa. Ou seja, uma pessoa que instala 10 placas em sua comunidade fatura R$ 1.100 em questão de minutos. “São líderes que têm seu trabalho reconhecido nas favelas. Fazemos a economia girar dentro das comunidades.” Entre os seus clientes, estão grandes empresas como Uber, Coca-Cola e o Ministério de Saúde.

No Brasil de 12,7 milhões de desempregados e 62 milhões de pessoas com o nome sujo no cadastro do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), empreendedores como Procopio e Athayde ampliam o acesso a produtos e serviços. Ao mesmo tempo, garantem o sustento de muitas famílias. Para o economista Alexandre Miserani, o mercado não deve “menosprezar a potencialidade desse nicho”, sobretudo porque o cenário não deve mudar no médio prazo.

Depois de atravessar a pior crise de sua história, o País conta hoje 11,3 milhões de empregados informais e 23,9 milhões que trabalham por conta própria. Nos dois casos, a dificuldade de comprovar renda costuma ser um impeditivo para obter crédito e fazer compras que não sejam à vista. “Vejo como uma tendência para atender aos endividados e ao mercado como um todo”, afirma Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em Gestão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Está democratizando e aumentando a capilaridade.”

Salto: apoio da CUFA ajudou Marciele a se profissionalizar (Crédito:Divulgação)

A Alpop (Aluguel Popular), startup que conecta locadores e inquilinos de baixa renda, foi criada há quatro meses para atender esse público. Foram dois anos de pesquisa. “Começamos a entender que este mercado representa quase 50% da população”, afirma Lilian Veltman, Diretora Executiva da empresa. “É muita gente que está excluída por não ter comprovação de renda e cadastro positivo.” Para alugar um imóvel, a Alpop criou uma metodologia própria de análise de crédito. São 13 os critérios avaliados e que medem, sobretudo, o comportamento de consumo e de compromisso da pessoa. “Só precisamos do CPF. Não importa se a pessoa é negativada ou se não tem comprovação de renda”. Dentre os critérios eliminatórios está o de não possuir CPF ou ter um mandado de busca ou de prisão. A flexibilidade é tanta que até mesmo quem já foi alvo de uma ação de despejo consegue alugar um imóvel. “Não podem ser 10 ações, claro, mas ter uma ou outra não é eliminatório”, explica Lilian.

A alta procura pelo serviço fez com que a empresa de Campinas começasse a atuar em São Paulo. “Faltava quem fizesse a mediação entre o público de baixa renda e a demanda por imóveis, quem tivesse este olhar mais atento”, conta. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) permite um paralelo sobre os impactos da restrição de crédito. No Brasil, 59% das companhias conseguem financiamentos em bancos, ante uma média de 95% nos países desenvolvidos. Se fosse possível equiparar esse nível, o País teria um incremento de até 12% na renda per capita. Embora não tenha medido o efeito no crédito para pessoas físicas, Napoleão Luiz da Costa da Silva, autor do levantamento, estima fenômeno semelhante. “As classes de renda mais baixa não têm acesso ao crédito formal”, afirma Silva. “Existem imperfeições no mercado que geram custos, que exigem garantias elevadas e que geram ineficiência maior e spreads altos.” O crédito para pessoas físicas representa 26,1% do PIB no Brasil.

FATURAMENTO DE R$ 4,3 BI Não só as restrições de crédito movimentam os empreendedores. A varejista Gazin se especializou em atender centros não alcançados por grandes redes de comércio. Com 8.189 funcionários, tem 267 lojas no interior das regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil e fatura R$ 4,3 bilhões. Um dos principais diferenciais é justamente o financiamento próprio aos clientes. “Trabalhamos com carnês e dividimos ao máximo que a pessoa pode pagar”, afirma o presidente Osmar Aparecido Dianim Della Valentina. “A gente perde muito pouco dinheiro com o que financia para os clientes.

Risco: equipe enxuta e jovem à frente de um novo modelo de aluguel de imóveis (Crédito:Divulgação)

Foi como cliente de um restaurante em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, que Kawel Lotti, de 43 anos, teve a ideia de criar a CEO Food, aplicativo de entregas para pequenos restaurantes, food trucks e até o espetinho da esquina. “Estava em um restaurante e percebi que o dono reclamava toda vez que saía um motoqueiro”, afirma Lotti. “Descobri que as taxas de alguns aplicativos de entrega eram muito altas para boa parte dos comerciantes.”

Para resolver essa questão, a solução foi cobrar um valor fixo — de R$ 49,90 a R$ 149, de acordo com o porte do estabelecimento — e sem limite de entregas por mês. Com 8 meses de atuação, o negócio já possui 5500 restaurantes cadastrados em 76 municípios, de 12 estados. “Pagar 26% de taxa do valor bruto é, em alguns casos, um peso. O aplicativo passa a ser quase um sócio do negócio.” Diante do rápido crescimento, a empresa se prepara para fazer entrega de outros produtos. Nas capitais, o foco são as periferias e favelas. “Queremos levar oportunidade para as comunidades. As pessoas vivem ali como se estivessem em uma cidade à parte.” Para empreendedores de visão, são enormes celeiros de consumo.