Economia

‘É preciso redefinir o estado’

Ex-economista-chefe do Banco Mundial e consultor do ex-presidente americano Bill Clinton, Joseph Stiglitz chegou aos 76 anos com uma certeza: a América Latina demorou para viver a convulsão social que tomou as ruas ao longo do ano passado.

Crédito: Constant Forme-Becherat

Hora de mudar: Aos 76 anos, economista que já ganhou o Nobel de Economia afirma que os governos precisam repensar a fixação em ver o PIB aumentar. (Crédito: Constant Forme-Becherat )

Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Venezuela. Todos esses países, além de compor boa parte da América Latina e dividir a mesma língua, tiveram, em 2019, mais um ponto de convergência: uma ebulição social tomou conta das ruas. Os motivos, apesar de diversos, têm o mesmo cerne: a desigualdade social. Em entrevista à DINHEIRO, o americano Joseph Stiglitz, um dos principais economistas do mundo e vencedor do prêmio Nobel de Economia, conta que tais conflitos não apenas eram esperados, como demoraram a acontecer. “Há 50 anos, talvez um cidadão não percebesse que seu país tinha uma desigualdade acima do normal. Hoje, com o mundo globalizado, ele sabe e vai cobrar”, disse à DINHEIRO, em entrevista por e-mail. O economista, que também foi conselheiro do ex-presidente norte-americano Bill Clinton e chefiou o Banco Mundial na década de 1990, carrega em sua trajetória estudos consistentes sobre a economia mundial e os impactos da globalização no entendimento do cidadão e seu lugar no mundo.

Segundo ele, o Chile é um bom exemplo desse fenômeno. “É uma das nações com maior nível de desigualdade da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)”, destaca Stiglitz. Para ele, ainda que alguns avanços tenham acontecido em países como Argentina (que reduziu a pobreza em 25% durante a gestão de Cristina Kirchner) e Brasil (que, entre as gestões de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, tirou 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza), a diferença de acesso entre pobres e ricos ainda é enorme e o retrocesso é fácil. “Na Argentina, o número de pobres voltou a crescer. O Brasil também não conseguiu manter os níveis de emprego que sustentaram o crescimento econômico da última década”, diz.

Diante dessas insatisfações com emprego, acesso a serviços públicos, previdência e inflação, a sociedade é levada a um ponto de erupção. “No Chile havia um mal-estar profundo instalado, e você nunca pode prever quando ele explodirá. Mas é compreensível que isso tenha ocorrido”. No caso do Brasil, as manifestações de junho de 2013 retratam bem essa situação. Os protestos começaram como um ato contra o aumento da tarifa do transporte público, dando um exemplo real de como essa convulsão social pode levar a caminhos desconhecidos. “Em 2013, quem no Brasil poderia prever o que aconteceria nos cinco anos seguintes?”, indaga Stiglitz.

CHILE EM CHAMAS: Protestos em Santiago ganharam notoriedade na imprensa internacional, ao evidenciar a insatisfação dos cidadãos com o atual regime previdenciário do país. (Crédito: Fernando Llano)

Autor do livro O Preço da Desigualdade (Bertrand, 2012), o economista conta em detalhes a desigualdade vivida nos Estados Unidos. Em 2017, segundo o Census Bureau, a renda dos norte-americanos mais ricos subiu 2,8%, ao passo que a dos pobres cresceu 2,3%. Por lá, outra régua que divide a população diz respeito ao gênero e à raça. Enquanto os homens brancos tiveram incremento de 3% no rendimento anual, as mulheres tiveram 0,2%. Na divisão por raça, as famílias brancas elevaram 3,8% a renda, enquanto as negras viram os ganhos diminuírem 0,3%. Com a mobilidade da pirâmide social engessada, diz Stiglitz, a sociedade muda. “Em parte, a conseqüência desses indicadores foi a eleição do presidente Donald Trump. Em diferentes países, o descontentamento pode assumir formas distintas”, analisa o economista americano.

DIREITOS E DEVERES Nesse caldeirão de emoções entram, ainda, a mudança do perfil do trabalho e da renda na era digital e como isso afeta o humor dos cidadãos. “Foi prometido que a globalização traria prosperidade e ocorreu o contrário”, diz. “Com a crise financeira global de 2008, na qual os bancos foram resgatados da falência, o sistema pareceu ser muito injusto.” Ainda que não haja receita para mediação de conflitos sociais, Stiglitz avalia ser necessária uma revisão do marco democrático desses países. “É preciso repactuar junto à sociedade os direitos e deveres do Estado. Reafirmar políticas públicas que sejam sustentáveis à economia e à sociedade.” Para ele, ainda que o Brasil tenha vivenciado uma experiência de redução da desigualdade entre 2003 e 2013, o retrocesso é muito mais rápido.

“Em diferentes países, o mal-estar social pode assumir formas distintas” Joseph Stiglitz, Economista.

Outra defesa polêmica do economista diz respeito ao uso do Produto Interno Bruto (PIB) para avaliar avanços econômicos e sociais de uma nação. Para ele, ainda que o PIB de um país avance, de nada vale o crescimento se a riqueza não for distribuída. “Se não houver vazão dos recursos, o PIB não é um retrato fiel de crescimento”, afirma, parafraseando Robert Kennedy. “O PIB mede tudo, exceto o que faz a vida valer a pena”. Para entender um país, o economista defende que o índice seja apenas uma das métricas usadas. “É necessário analisar um conjunto de indicadores, como bem-estar social, transferência de riqueza, qualidade do trabalho. Tudo isso reflete uma nação.” Como exemplo, ele cita uma situação peculiar nos Estados Unidos. “O fato de a riqueza dos EUA aumentar e a expectativa de vida diminuir revela algo que não é obtido somente com o PIB.”

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